Tirar todas as dúvidas com o oncologista durante o período de tratamento é fundamental para que a paciente se sinta mais segura e participe da terapia

Ter câncer de mama metastático não é uma sentença de morte; tratamento adequado pode proporcionar qualidade de vida
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Ter câncer de mama metastático não é uma sentença de morte; tratamento adequado pode proporcionar qualidade de vida

Receber o diagnóstico de câncer de mama nunca será uma situação fácil de lidar. Apesar de saber pouco sobre a doença, ao se falar sobre o câncer, o estigma da morte é uma das primeiras coisas que vêm à cabeça da população.

Quando a notícia é de que o tumor evoluiu e se espalhou para outras partes do corpo, transformando-se em metástase, então, o baque é ainda maior. Porém, é preciso saber que ter câncer de mama metastático (CMM) não é uma sentença de morte e viver com a doença pode ser muito melhor quando a paciente não tem dúvidas sobre sua condição.

Durante muito tempo, colocar o assunto sob os holofotes necessários foi considerado um tabu. Quanto menos a paciente sabia sobre a doença, melhor – assim, ela não sofreria. A verdade é que as estatísticas nada animadoras contribuíram com esse mito. Um erro gravíssimo.

Anualmente, são esperados 58 mil novos casos da condição no Brasil, de acordo com Instituto Nacional de Câncer (Inca). Considerando toda a América Latina, a cada ano, são diagnosticados 150 mil novos casos de CMM, sendo que mais de 40 mil evoluem para o óbito. Vale lembrar que, apesar de ser uma doença considerada feminina, os homens também podem ser afetados, e eles representam 1% de todos os casos.

Apesar dos números altos, de acordo com médicos, o avanço tecnológico pode proporcionar diversos tratamentos capazes de causar um efeito bastante positivo no aumento da qualidade de vida e controle da doença, fazendo com que os pacientes vivam melhor.

“É preciso perder o medo de perguntar"

Atualmente, especialistas dizem que esse tipo de câncer está sendo visto quase como uma condição crônica, já que é possível conviver com ela por muitos anos quando a doença é tratada. “Geralmente, assim que a mulher é diagnosticada com metástase, existe uma ideia, por pura desinformação, de que ela vai morrer imediatamente. Mas é preciso ficar claro que essa condição tem tratamento capaz de oferecer uma vida com qualidade durante muitos anos”, explica o oncologista do Hospital Israelita Albert Einstein, Rafael Kaliks.

Segundo o especialista, para que essa qualidade de vida ampliada seja possível, é indispensável que haja um diálogo franco e esclarecedor entre o médico e o paciente. “É um erro a paciente sair do consultório com dúvidas. Ela precisa estar confortável, sentir que tem todas as suas dúvidas respondidas”, defende ele.

Paciente e médico devem trabalhar juntos para construção de um tratamento que atenda às necessidades da pessoa com câncer de mama
Cecília Bastos/Usp Imagens
Paciente e médico devem trabalhar juntos para construção de um tratamento que atenda às necessidades da pessoa com câncer de mama

A participação da paciente também é importante na hora de decidir o que é melhor para ela. “Não se deve deixar tudo para o médico. Por exemplo, no caso de uma mulher de 70 anos que tem a doença, eu, como médico, vou tentar de tudo para que o câncer seja controlado. Mas, às vezes, para ela é melhor não passar pelos efeitos colaterais que uma quimioterapia provoca. A prioridade da paciente deve ser respeitada, e tudo isso pode ser conversado”, explica Kaliks.

Não só o CMM, mas o câncer de mama em geral possui subtipos que devem ser esclarecidos para os pacientes. “É imprescindível conhecer o seu subtipo de câncer não só na fase metastática”, ressalta o especialista.

“Uma das questões para discutir com o oncologista é sobre qual o seu tipo de doença e qual a extensão da doença. Saber se o tratamento que está sendo feito é o bastante, se no seu caso é possível tomar hormônio, se você tem a proteína HER2, ou se o tumor está relacionado com uma mutação do gene BRCA. [Tudo isso] pode abrir um pouco o leque de possibilidades para as terapias. É preciso perder o medo de perguntar”, afirma ele.

O que você pode questionar

Muitas vezes, mesmo com dúvidas, é difícil saber como começar a fazer perguntas ao médico. Pensando em preparar as mulheres para essa conversa, a União Latino-Americana de Combate ao Câncer da Mulher (Ulaccam), o Instituto Oncoguia e a farmacêutica Pfizer elaboraram algumas publicações voltadas para essa doença em estágio avançado, com sugestões de perguntas para serem feitas durante as consultas. Confira algumas delas.

Diagnóstico

  • Qual tipo de câncer de mama eu tenho? (Receptor hormonal positivo, receptor hormonal negativo, triplo-negativo, HER 2 positivo, HER 2 negativo, mama contralateral)
  • Para onde o tumor se espalhou?
  • Terei algum sintoma por causa dos tumores?
  • Quais opções de tratamento existem para o tipo de CMM que eu tenho?
  • Quais eventos adversos podem ocorrer com o tratamento?

Tratamento

  • Quais opções de medicamentos estão atualmente disponíveis para minha doença?
  • Existe algo que se possa fazer para evitar a queda de cabelos?
  • Vou ter que me submeter a radioterapia ou cirurgia?

Saúde

  • Existe algo que eu possa fazer para me sentir mais forte e menos esgotada?
  • Existem terapias complementares ou integrativas e centros específicos que você possa me recomendar que trabalhem com pessoas que tenham câncer?
  • Relacionamentos
  • Você pode me indicar qual a melhor maneira e quais palavras devo usar para contar às pessoas sobre meu diagnóstico?
  • O tratamento pode afetar minha vida sexual?

 Trabalho

  • Posso continuar trabalhando e fazendo o tratamento ao mesmo tempo?
  • Em geral, o que as pessoas na minha situação fazem em relação ao trabalho?

As perguntas fazem parte do manual “Eu e o Câncer de Mama Metastático”, que tem 48 páginas e aborda seis temas principais relacionados à doença. O guia foi elaborado pelo instituto Ocoguia e a Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale). Além desse, e outros materiais foram produzidos como o documento com mais de 45 perguntas para se fazer ao especialista, "Meu médico e eu", e o folheto que oferece dicas para melhorar a comunicação com os profissionais da área, "Conversando com meu médico". Os exemplares poderão ser oferecidos por meio de associações de pacientes com CMM.

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