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Doador de sangue recebeu jogo de tabuleiro que aborda critérios para realizar procedimento com a frase sobre sorologia positiva: "Você perdeu!!!"

Jogo da Fundação Pró-Sangue se refere à pessoa com HIV positivo como o 'fim do jogo' e gera polêmica
Reprodução/Facebook
Jogo da Fundação Pró-Sangue se refere à pessoa com HIV positivo como o 'fim do jogo' e gera polêmica

Após doar sangue no posto do Hospital das Clínicas da Fundação Pró-Sangue, em São Paulo, na última terça-feira (9), o paulistano Felipe Held recebeu um kit de "brinde", junto do lanche que é oferecido para quem pratica a ação. Dentro da sacola havia bombom, lápis de cera e alguns papeis. Até aí, tudo "normal", mas um jogo de tabuleiro com regras sobre a doação de sangue foi o que chamou a atenção.

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Isso porque, entre as peças do jogo, um envelope em específico provocou a indignação no doador, já que guardava um bilhete com a seguinte mensagem: “Sorologia positiva – Você perdeu!!! O jogo acabou para você”. Chocado, Held resolveu publicar o caso em seu perfil no Facebook, chamando a atenção para a falta de sensibilidade da empresa. "QUE HORROR", exclamei, no susto, ao abrir o envelope", escreveu na rede social. 

O jogo distribuído pela Fundação Pró-Sangue funciona como o famoso “Jogo da Vida”, em que o jogador avança pelo tabuleiro com o objetivo de chegar ao final primeiro. No caso desse distribuído aos doares de sangue em São Paulo, quando um jogador cai em uma casa específica do tabuleiro, precisa sortear uma das duas cartas "surpresas". Assim, quem tirar a que se refere à “sorologia positiva”, perde o jogo.

O jornalista aponta que a escolha da frase o deixou bastante tocado, especialmente por se tratar de um material elaborado por uma instituição de saúde bastante reconhecida e respeitada, conforme contou Held à reportagem do iG . “Quando abri o envelope e vi aquela mensagem, me coloquei no lugar de quem pode ser soropositivo ou conhecer alguém que seja. Pensei no desconforto ao ler uma frase tão insensível e irresponsável. Acho que eles exageraram ao usar essa abordagem”, critica.

A maneira como a peça do jogo se refere à pessoa HIV positiva, como sendo o "fim do jogo" levantou questionamentos de outros internautas que responderam à publicação de Held. "Acho que é denunciável. Vai contra tudo que tem sido feito nos últimos anos, pra conscientizar sobre como o HIV não é o fim do mundo e por isso é importante fazer o teste de diagnóstico", disse um usuário.

"'O jogo acabou para você'. É de uma insensibilidade e estupidez sem tamanho associar uma frase dessas ao diagnóstico de infecção por HIV", escreveu outro.

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O outro lado

Questionada sobre o jogo, a Fundação Pró-Sangue afirmou lamentar o caso e se desculpou. A instituição, porém, ressalta que o a frase está inserida em um contexto de um jogo que aborda os critérios para a doação de sangue e afirma que em momento algum foi feita a associação do termo "sorologia positiva" com o HIV.

"Oportunamente, ressaltamos que vários testes sorológicos são realizados e não somente o de HIV dentre eles sífilis, doença de chagas, malária e hepatite B e C. As doações de sangue são fundamentais para garantir a vida de inúmeros pacientes. Uma bolsa com sorologia positiva ou alterada não pode ser transfundida", afirmou a organização em nota.

Um dos requisitos para realizar a doação é a testagem para o sorologia positiva. Entre outras infecções, caso a pessoa esteja vivendo com HIV, causador da Aids , ela não pode fazer o procedimento.

Embora não esteja especificado que a mensagem não se destinava apenas à sorologia positiva para o HIV, o termo é popularmente ligado ao vírus, o que colaborou para que os usuários das redes sociais questionassem os padrões éticos e educacionais do material desenvolvido e distribuido pela Fundação Pró-Sangue. Confira abaixo a nota na íntegra.

A Fundação Pró- Sangue acolhe a crítica do doador Sr. Felipe Held e esclarece:

O jogo de tabuleiro citado foi desenvolvido pela presidente da CIPA Sra. Adriana Debes para ser distribuído para os colaboradores da instituição. Em virtude do número excedente de jogos, foi adaptado para ser entregue aos doadores com o objetivo de reforçar os requisitos básicos para doação, como por exemplo: “Você fez um piercing ou tatuagem, ou ainda maquiagem definitiva. Recue 3 casas”. Vale ressaltar que estes requisitos seguem a legislação.

Quanto ao cartão sorologia positiva, segundo a Sra. Adriana, apenas refere-se à sequência do jogo que se torna interrompida, já que a chegada ou vitória é a doação de sangue. “A intenção era ser objetivo e jamais agressivo”, concluí.

Oportunamente, ressaltamos que vários testes sorológicos são realizados e não somente o de HIV dentre eles sífilis, doença de chagas, malária e hepatite B e C.

As doações de sangue são fundamentais para garantir a vida de inúmeros pacientes. Uma bolsa com sorologia positiva ou alterada não pode ser transfundida.

A Fundação Pró Sangue, há mais de 30 anos, prioriza a qualidade no atendimento, o relacionamento e o respeito aos seus candidatos e doadores. Ressaltamos que o jogo já foi recolhido e não será mais distribuído.

Lamentamos o ocorrido e mais uma vez nos desculpamos.

Avanços

O vírus da imunodeficiência humana (HIV) é o responsável pela Aids, uma síndrome clínica que ainda não tem cura. A doença ataca o sistema imunológico com a destruição dos glóbulos brancos pelo vírus. Dessa forma, o organismo não consegue se defender de doenças oportunistas, o que pode levar a pessoa a óbito.

A transmissão do vírus pode acontecer por meio de relações sexuais sem o uso de preservativo, inclusive por via oral e anal. Além disso, o uso de seringa por mais de uma pessoa, contato com instrumentos que furam ou cortam não esterilizados e transfusão de sangue contaminado também podem transmitir HIV, assim como o fato de uma mãe infectada poder passar para o filho durante a gravidez, parto ou amamentação.

É importante lembrar que beijar, abraçar, tomar banho no mesmo banheiro, usar a mesma piscina, ter contato com suor e lágrima ou usar talheres e copos de pessoas com o vírus não apresentam risco.

O HIV passou a ficar mais conhecido a partir da década de 1980, quando os casos de pessoas infectadas aumentaram.  Desde então, esse é um assunto estudado por pesquisadores do mundo todo. 

Com o avanço das pesquisas, já foi possível diminuir a incidência dos casos em diversos países. Com a disponibilidade de terapias antirretrovirais, já é possível que pessoas com o vírus tenham uma expectativa de vida muito maior do que há dez anos.

Um estudo publicado pela revista científica britânica The Lancet  , realizado pela Universidade de Bristol, no Reino Unido, concluiu que pessoas de 20 anos que começaram o tratamento em 2010 já têm uma expectativa de vida 10 anos mais alta do que a de jovens que foram submetidos ao tratamento com a mesma idade em 1996.

No Brasil tratamento antirretroviral para quem é soropositivo pode ser adquirido pelo Sistema Único de Saúde, e permite a prevenção dos danos causados pelo vírus no sistema imunológico.

Segundo o último Boletim do Ministério da Saúde divulgado em dezembro de 2017, foi apontado um aumento de 4,1% no número de casos de HIV notificados em 2016 no Brasil em comparação a 2015.

Em todo o mundo, mais de 36,7 milhões de pessoas são soropositivas , sendo que 19,5 milhões iniciaram o tratamento antirretroviral apenas em 2016. A maioria dessas pessoas tem qualidade de vida, com um resultado altamente efetivo.


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