Na corrida, o melhor treinador pode ser você mesmo

Estudo mostrou que iniciantes conseguem melhorar mesmo sem orientações sobre como correr da forma certa

The New York Times * |

Será que as pessoas podem se tornar corredores melhores e mais eficientes por conta própria, simplesmente correndo? Essa pergunta, aparentemente tão inofensiva, causa divisões notáveis no momento. De um lado estão os especialistas em corridas, sugerindo que os corredores sejam ensinados especificamente e de forma idealizada. Do outro, os adversários, argumentando que a melhor maneira é cada um correr de um jeito que lhe faça sentir-se bem.

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Corrida: estudo mostrou que iniciantes conseguem otimizar o próprio treino sem receber orientações específicas para isso

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Poucas publicações científicas, no entanto, estão disponíveis a respeito de se os corredores precisam de instruções técnicas ou devem intuir naturalmente suas habilidades. Agora, uma pesquisa recente sugere que novos corredores conseguem chegar a uma melhor forma correndo. Simples assim.

Para o estudo, que será publicado na edição de setembro do periódico Medicine & Science in Sports & Exercise, pesquisadores do Grupo de Pesquisa sobre Bioenergética e Performance Humana da Universidade de Exeter, na Inglaterra, se voltaram para um grupo de mulheres adultas que tinham recentemente se juntado a um grupo de corrida.

As integrantes do grupo estavam planejando iniciar com um treino de 10 semanas, um programa de ritmo individual para corrida, com uma meia-maratona como incentivo à conclusão do programa para aquelas que desejavam competir.

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Todas as mulheres que concordaram em ser estudadas eram saudáveis, na casa dos 20 ou 30 anos, com peso normal, e completamente iniciantes na corrida. Cada uma recebeu um par de tênis que não iria influenciar sua mecânica natural, e visitou o laboratório antes de iniciar o programa de corrida.

No laboratório, as mulheres foram equipadas com sensores de captura de movimento, monitores de frequência cardíaca e outros equipamentos de medição, e foi solicitado que elas corressem em uma esteira enquanto eram filmadas. Posteriormente, os cientistas calcularam o condicionamento aeróbico de cada corredora, a biomecânica – ou a forma particular de corrida –, e a economia da corrida.

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A economia de corrida, também conhecida como eficiência da corrida, é a medida da quantidade de oxigênio que uma pessoa usa para correr em um determinado ritmo – ou seja, a dificuldade que ela tem para executar essa velocidade. A eficiência é considerada um dos determinantes no sucesso da corrida. Um corredor mais econômico exige menos energia e, presumivelmente, é capaz de correr mais ou mais rápido.

As corredoras iniciantes no novo estudo não eram muito econômicas no começo, o que é típico de novos corredores. Elas corriam muito pouco no início. Na primeira semana alternaram a corrida com caminhadas, com o objetivo de se tornarem capazes de correr por 30 minutos ininterruptos.

Cada mulher treinou por conta própria e em seu próprio ritmo, embora elas tenham se reunido uma vez por semana para uma sessão em grupo com um líder que as incentivava e as encorajava, mas que não oferecia conselhos para a corrida ou para o treinamento. Nenhuma das corredoras iniciantes teve alguma lesão, nem perdeu peso.

Ao longo do programa de 10 semanas, elas se tornaram corredoras melhores, conforme mostrado por testes laboratoriais posteriores. Sua velocidade e sua resistência aumentaram – não em escala de categoria nacional, mas a maioria foi capaz de correr durante 30 minutos a uma velocidade de cerca de 7,5 a 8 km por hora. Elas também se tornaram notavelmente mais econômicas, com um aumento de 8,5% da capacidade de utilização do oxigênio.

Parece claro para os autores do estudo como as mulheres se tornaram mais econômicas: elas mudaram de maneira sutil a forma como se moviam, em um esforço inconsciente para tornar a corrida mais fácil.

Talvez o mais interessante seja que a maioria delas, apontam os pesquisadores, alterou essa forma de se mover de maneira semelhante. Durante a impulsão realizada pelos dedos na passada, elas começaram a dobrar os joelhos e a flexionar um pouco mais os tornozelos, de modo que as pernas estavam mais flexionadas quando elas deixavam o chão, explica Isabel Moore, pesquisadora da Universidade de Exeter, que liderou o estudo.

“Estando mais flexionadas ou dobradas, as pernas podem voltar mais rapidamente para o chão para a passada seguinte.”

Todas as mulheres estavam com a parte traseira do pé um pouco instável quando começaram a correr, mas após 10 semanas já estavam mais estáveis quando atingiam o chão. Como um grupo, a maioria já atingia a parte traseira do pé, o que significa que seus calcanhares eram os primeiros a fazer contato com o solo, apesar de várias aterrissarem naturalmente com o meio do pé.

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Nenhuma delas mudou a forma de aterrissagem durante as 10 semanas, o que entra em conflito com o conselho de muitos dos atuais treinadores de corrida, que muitas vezes defendem que a aterrissagem deve ocorrer no meio ou na parte anterior do pé para melhorar a performance na corrida e reduzir o risco de lesões.

Os resultados "levantam uma questão interessante no que diz respeito a ensinar as pessoas a correr", disse Moore.

"Se os corredores podem se auto-otimizar", como as mulheres neste estudo parecem ter feito, então "talvez devamos ensinar os corredores a aprender a entender como sentir seus movimentos", disse ela, em vez de mudarem completamente a forma de correr para uma forma padronizada ou qualquer outra.

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Claramente, esse foi um pequeno estudo de curto prazo para um tipo muito específico de corredor: iniciante, adulto, feminino e lento. Se os resultados se aplicam igualmente a atletas jovens, experientes, rápidos e do sexo masculino, isso não está claro.

Também é impossível dizer se o estilo de corrida escolhido pelas mulheres pode em longo prazo reduzir ou contribuir para um risco de lesão, disse Moore. Mas ela acrescenta que a mensagem geral do estudo é provavelmente relevante para a maioria dos corredores.

“Você pode otimizar sua marcha naturalmente, tornando-se mais consciente de seus movimentos na corrida, e de como sentir esses movimentos. Seu corpo, ao menos nos estágios iniciais de se tornar um corredor, pode ser um bom e experiente treinador.”

A maioria das mulheres no programa, afinal, terminou a meia-maratona, disse Moore. E muitas estão correndo até hoje.

* Por Gretchen Reynolds

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