Pesquisa mostra que a gordura do leite contém uma substância boa para a saúde

Laticínios: proteção contra o diabetes tipo 2
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Laticínios: proteção contra o diabetes tipo 2
De acordo um estudo publicado este mês na revista científica Annals of Internal Medicine, dos Estados Unidos, os laticínios integrais – geralmente malvistos por muitos especialistas em nutrição e saúde – contêm um ácido graxo que pode diminuir o risco do diabetes tipo 2.

A pesquisa descobriu que pessoas com altos níveis do ácido trans palmitoleico no sangue têm probabilidade 62% mais baixa de desenvolver diabetes tipo 2. Além disso, “pessoas com níveis mais altos deste ácido graxo no sangue apresentaram melhores níveis de colesterol e triglicérides, resistência mais baixa à insulina e níveis mais baixos de indicativos de infecções”, afirmou Dariush Mozaffarian, um dos diretores do programa de epidemiologia cardiovascular do Hospital Brigham and Women e da Escola de Saúde Pública de Harvard, nos Estados Unidos.

O ácido palmitoleico é naturalmente encontrado no corpo humano. Também é encontrado em pequenas quantidades em produtos derivados do leite. Quando encontrado em fontes fora do corpo humano, ele leva o nome de ácido trans-palmitoleico. O leite integral tem maior teor deste ácido do que o semidesnatado. A versão com menos quantidade desse ácido graxo é o leite desnatado.
“A quantidade de ácido trans-palmitoleico é proporcional à quantidade de gordura do leite”, disse Mozaffarian.

Estudos realizados com animais sobre o ácido palmitoleico que ocorre naturalmente no organismo já mostraram que esse tipo de gordura pode proteger contra a resistência à insulina e o diabetes, disse Mozaffarian. Em humanos, pesquisas sugeriram que o consumo maior de laticínios está associado ao risco mais baixo de diabetes. Entretanto, o motivo de tal ligação ainda não foi esclarecido.

Para avaliar se este ácido graxo relativamente raro e menosprezado pode contribuir para o efeito aparentemente protetor dos laticínios, pesquisadores revisaram dados de mais de 3.700 adultos registrados no Estudo da Saúde Cardiovascular, realizado nos Estados Unidos.

Todos os participantes tinham mais de 65 anos de idade e eram residentes de um dos seguintes quatro estados americanos: California, Maryland, Carolina do Norte e Pensilvânia.

Foram analisadas amostras de sangue para detectar a presença do ácido trans-palmitoleico, assim como os níveis de colesterol, triglicérides, proteína C-reativa e glicose. Os participantes também deram informações de seus hábitos alimentares.

De acordo com o estudo, as pessoas com níveis mais altos do ácido trans-palmitoleico no sangue apresentaram níveis levemente mais baixos de gordura corporal. Elas também apresentaram níveis mais altos de HDL, o “bom” colesterol, e taxas mais baixas dos outros tipos de colesterol e da proteína C-reativa, um indicativo de infecções. Elas também apresentaram evidências de níveis mais baixos de resistência à insulina.

Entretanto, o dado mais significativo foi que os participantes com os níveis mais altos de ácido trans-palmitoleico no sangue foram também os que apresentaram menor probabilidade de desenvolver o diabetes tipo 2. Para este grupo, a redução de tal risco foi de quase dois terços.

Mozaffarian disse que é difícil saber exatamente quantas porções de laticínios seriam necessárias para atingir os níveis mais altos do ácido no sangue, mas ele diz que é provável que o ideal seja de três a cinco porções diárias, dependendo do tipo de laticínio consumido.

Entretanto, ele adverte que é ainda cedo demais para fazer quaisquer recomendações nutricionais com base nos resultados de apenas uma descoberta.

“Este estudo confirma a existência de uma relação muito forte entre algum componente dos laticínios e um risco menor de desenvolver o diabetes, porém, um único estudo não é o suficiente para alterar as normas vigentes”, disse ele, complementando que espera que o estudo dê origem a novas pesquisas.

Sue Kirkman, vice-presidente sênior de assuntos médicos e informação à comunidade da Associação Americana do Diabetes, concordou que é cedo demais para alterar as normas nutricionais, mas afirmou que as descobertas realmente sugerem “que as coisas podem ser mais complicadas do que talvez se possa imaginar. Parece que não podemos afirmar que qualquer gordura trans é ruim, já que esta foi associada à diminuição do diabetes, da resistência à insulina e dos níveis de proteína C-reativa”.

Joel Zonszein, diretor do Centro Clínico do Diabetes no Centro Médico Montefiore, de Nova York, concordou, ressaltando: “Essa foi uma associação muito interessante e consistente. Talvez o leite integral não seja tão ruim. Mas não acredito que existam evidências suficientes para mostrar que deveríamos começar a tomar este tipo de leite. Precisamos compreender o mecanismo que está por trás desta associação. As mudanças dos hábitos alimentares costumam ser bastante drásticas neste país, mas este estudo não deve ser usado para fazer mudanças na dieta. Por enquanto é só uma observação”.

* Por Serena Gordon

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