Reduzir a ingestão calórica em até 30% do consumido normalmente aumentaria a longevidade em 26 anos, aponta especialista

Restrição calórica de até 30% promoveria anos a mais de vida
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Restrição calórica de até 30% promoveria anos a mais de vida
Para viver mais, coma menos. E não se trata de “um pouco” menos, mas sim de uma redução de até 30% no volume de calorias ingerido diariamente, isso para quem já está em forma.

Restrição calórica: uma vida mais longa e saudável?

A dieta básica, que hoje gira em torno de 2000 calorias, com a restrição calórica sugerida pelo especialista em obesidade Eric Ravussin passaria para 1400 kcal. O esforço, afirma ele, poderia representar um acréscimo de 26 anos na expectativa de vida.

A recomendação de Ravussin é feita com base nos estudos do pesquisador, feitos no Centro Pennington de Pesquisa e Biomédica em Baton Rouge, na Louisiana. As pesquisas têm mostrado que macacos submetidos a uma dieta hipocalórica não só vivem mais, como têm uma melhor qualidade de vida. Os animais viveram até cinco anos a mais do que os demais e estavam com melhor aparência, descreve Ravussin. O iG Saúde conversou com o pesquisador, que esteve recentemente em São Paulo para dar uma palestra sobre o tema.

O pesquisador norte-americano, durante palestra, em São Paulo
Carlos Hansen
O pesquisador norte-americano, durante palestra, em São Paulo
iG: Como a redução de calorias pode aumentar a expectativa de vida?
Eric Ravussin: A restrição calórica reduz consideravelmente o peso e, consequentemente, diminui o estresse oxidativo das células, que faz o corpo envelhecer. Esse mecanismo – que pode levar à obesidade – está ligado a mutações no DNA e à morte da célula. Reduzindo as calorias, restringimos o consumo das células e postergamos a morte delas.

Com essa ingestão menor, também mexemos nos sinais neurológicos e endócrinos que controlam esse processo, evitando o aparecimento de outras doenças como câncer, diabetes ou problemas cardiovasculares. Os animais vivem, em média, cinco anos a mais.

iG: Em que fase estão os estudos?
Eric Ravussin: Já tivemos resultados satisfatórios em várias espécies, inclusive macacos. Por enquanto, as únicas informações que temos são as de modelos de animais e os estudos que estamos fazendo na ilha de Okinawa, no Japão. Nessa região há a maior prevalência de pessoas acima dos 100 anos em todo o mundo e eles comem até 15% menos do que o restante dos japoneses.

Mas precisamos de mais investigações, pesquisas. No entanto, esbarramos em uma limitação: como estudamos longevidade, precisamos recolher dados por mais de 100 anos, e pode ser que eu não esteja aqui para coletar todos (risos).

iG: É possível extrapolar os resultados para humanos e dizer quantos anos a mais viveríamos?
Eric Ravussin: Se pensarmos em humanos, calculo que em vez de uma média de 78 anos, teríamos uma média de 104 anos.

iG: De quantas calorias deve ser essa redução?
Eric Ravussin: Tenho a impressão de que quanto mais, melhor. Nos animais, reduzimos a dieta em 40%, mas acho que seria muito drástico para os humanos. Acho que uma redução em torno de 25% ou 30% seria o ideal.

iG: A preocupação exagerada com o peso trouxe também distúrbios alimentares como a anorexia. A restrição calórica não pode incentivar um quadro anoréxico?
Eric Ravussin: Não, porque quando a pessoa tem anorexia, ela tem uma péssima alimentação. Ela não se nutre corretamente, já a restrição calórica é exatamente o inverso. Temos que comer bem, todos os nutrientes, todas as vitaminas e minerais, devem estar contidos na dieta, mas com poucas calorias. É uma dieta com pouquíssima gordura. Não queremos sentir fome, mas sim diminuir a gordura ingerida. As frutas, por exemplo, têm muitas vitaminas, mas as pessoas ainda não sabem como consumi-las corretamente.

iG: A restrição calórica pode ser uma forma de combate a obesidade?
Eric Ravussin: Em geral, as pessoas perdem 60% do seu peso no primeiro ano de restrição calórica, passando à manutenção no segundo ano. No entanto, eu acho difícil que os obesos consigam seguir. Não é apenas uma dieta, é um estilo de vida. Por exemplo, nós não recomendamos exercícios físicos, porque aumentaria a ingestão de comida e o que buscamos é exatamente o contrário. Acho que os obesos precisam de exercícios e restringir a comida, neste caso, seria muito sacrificante.

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