Da depressão para a São Silvestre: 'Depois que comecei a correr, nasci de novo'

Por Aretha Martins |

compartilhe

Tamanho do texto

Camila Brown entrou em depressão após uma gravidez molar. Inspirada pelo pai, passou a correr e fará a 1ª São Silvestre

A paulista Camila Brown tem 33 anos, é casada, tem dois filhos e mora há oito anos em Dallas, nos Estados Unidos. Ela sempre vem ao Brasil passar as festas de final de ano com a família. Seguiu a tradição em 2013, mas em um momento delicado. Depois de uma gravidez molar (caso raro de má formação genética), Camila ouviu de seu médico que teria de fazer quimioterapia. Negou-se e entrou em depressão. “Tinha medo de morrer com a quimio. Preferia morrer a fazer aquilo”, conta.

A mudança veio no dia 31 de dezembro, ao acompanhar o pai em mais uma corrida São Silvestre. “Eu vi aquilo e falei: ‘não vou morrer disso e um dia vou correr a São Silvestre com meu pai’”. Agora, um ano depois e totalmente saudável, Camila se prepara para a sua primeira São Silvestre. “Depois que comecei a correr, nasci de novo”, diz, orgulhosa.

Depois de superar problemas de saúde e depressão, Camila Brown se prepara para a primeira São Silvestre. Foto: Arquivo pessoalCamila posa ao lado do pai depois de corrida nos Estados Unidos. Foto: Arquivo pessoalCamila considera o pai a sua fonte de inspiração. Foto: Arquivo pessoalCamila e os filhos em Dallas, nos Estados Unidos. O marido é norte-americano e faz parte e é militar. Foto: Arquivo pessoalCamila também é adepta da yoga. Foto: Arquivo pessoalJoão Antônio Rocha, pai de Camila, monta quadro de medalhas para a filha. Foto: Arquivo pessoalDetalhe do quadro de medalhas do pai de Camila, já com a medalha da São Silvestre no canto inferior direito. Foto: Arquivo pessoal

Mãe de uma menina e de um menino, Camila Brown estava grávida mais uma vez e aos seis meses de gestação, em 18 de agosto de 2013, descobriu que se travava de uma gravidez molar. Quando isso acontece, em vez de receber 23 cromossomos do pai e 23 da mãe, o óvulo fertilizado não contém nenhum material genético da mãe e o do pai é duplicado. Não há embrião, e sim uma massa de cistos. “Você encerra a gestação como se tivesse tirando um tumor”, afirma Camila.

Ela perdeu o bebê oficialmente em 9 de setembro, dois dias antes se deu aniversário. “É impossível esquecer as datas”, comenta. Após a cirurgia, os médicos detectaram que haviam células molares no corpo de Camila e isso pode fazer com que a mãe tenha câncer. Ela ainda passou por três cirurgias e retirou nódulos dos seios. O exame de biopsia teve resultado inconclusivo e o tratamento indicado era a quimioterapia.

Arquivo pessoal
Camila se apavorou com a ideia de ter que fazer quimioterapia e começou a estudar sobre o assunto. Hoje, ela cursa nutrição. Além disso, tem um pequeno negócio e faz pães de queijo

“Tinha muito medo dos efeitos colaterais. Tinha medo de morrer com a quimio e fiquei: ‘vou morrer mesmo, dane-se’. Entrei em paranoia”, lembra. “Estava pesando 49 quilos e não conseguia comer mais, andar mais e entrei em depressão profunda”, completa.

Em uma consulta em dezembro de 2013, o médico já queria começar a quimioterapia em Camila. Ela estava com a tradicional viagem de final de ano para o Brasil marcada e se recusou a começar o tratamento. “Perguntei ao médico: ‘Não vou morrer se não fizer quimioterapia esses dias, né?’. Ele disse que não, mas falou que eu estava correndo um risco muito grande”, relata. Ainda assim, ela foi a São Paulo sem começar as sessões.

Foi então que veio o maior incentivo da família. Enquanto a mãe Antônia Rocha fazia as comidas que ela gostava e servia frutas, verduras e legumes, seu pai João Antônio Rocha a levava para caminhar no quarteirão de casa, carregando-a pelo braço. Rocha, que tem 58 anos e começou a correr há 10, iria participar da São Silvestre em 2013. Camila se animou e foi acompanhá-lo.

Tinha muito medo dos efeitos colaterais. Tinha medo de morrer com a quimio"

“Vi aquilo e falei: ‘Não vou morrer disso e um dia vou correr a São Silvestre com meu pai’. A São Silvestre foi mesmo um marco. E muito especial”, diz Camila.

O que era para ser apenas o Ano Novo no Brasil acabou virando um mês. Camila Brown voltou para casa em Dallas apenas no final de janeiro. Seu médico estava desesperado com o sumiço e, logo que voltou, ela teve de fazer uma série de exames. “Meus resultados vieram 50% melhores”, fala. Camila contou que estava caminhando e que havia melhorado a alimentação. O médico pediu que ela continuasse nesse ritmo.

A paciente começou a estudar nutrição, seguiu com alimentação balanceada e da caminhada passou para corrida. O pai, sempre foi uma inspiração. Aos 49 anos, Rocha tinha problemas de pressão alta e chegava a vomitar por causa de crises de enxaqueca. Começou a correr na garagem de casa, em uma esteira comprada pela mulher. Aproximadamente dois anos depois, fez a primeira prova de rua de 5 km e surpreendeu, completando o percurso em 26 minutos. Não parou mais e, segundo Camila, já tem mais de 100 medalhas de corridas. "Tem 58 anos, mas parece uns 40 e poucos. Ele está ótimo e acabou a depressão e os remédios", diz orgulhosa. 

Arquivo pessoal
João Antônio Rocha, pai de Camila, monta quadro de medalhas para a filha

Rocha ainda preparou um presente para Camila. “Meu pai veio para a minha casa em maio deste ano e me trouxe um quadro com 12 medalhas de corridas dele. Colocou a medalha da São Silvestre de 2013 e deixou um espaço ao lado, falando que ali teria uma foto nossa na próxima São Silvestre”, conta Camila, sem conter as lágrimas.

Em junho, os médicos afirmaram que Camila estava progredindo. No dia 9 de setembro de 2014, ela recebeu a notícia que estava livre que qualquer célula que poderia ser um câncer. “Estava ‘cancer-free’. Era meu presente de aniversário”, diz, novamente chorando.

Já são mais de 10 provas no currículo de Camila, que se diz uma mascotinha do grupo de corrida que participa em Dallas.

Leia tudo sobre: são silvestregravidez molar

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas