Especialista afirma que fitoterápicos podem ser perigosos e defende banco nacional de registro de efeitos colaterais

Chás nem sempre são aliados da saúde
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Chás nem sempre são aliados da saúde
Raymundo Paraná,  presidente da Sociedade Brasileira de Hepatologia, é totalmente contrário à fama de "mocinhos" que os chás e fitoterápicos têm.

As receitas caseiras, diz ele, não impedem os efeitos colaterais sérios como a falência total do fígado. E o mesmo chá utilizado para sanar a prisão de ventre, por exemplo, pode ser ainda mais tóxico do que um medicamento.

Em entrevista ao Delas , Paraná, especialista em saúde pública e médico do Hospital de Clínicas da Bahia, afirma: como são protegidos pelo título de “naturais”, as ervas e drogas vegetais driblam o perigo e são consumidas sem nenhum tipo de acompanhamento médico. Segundo ele, o fígado é o principal órgão afetado pelos fitoterápicos e o estrago muitas vezes só é atestado quando não há mais solução.

“Já tivemos muitos casos de pessoas que acabaram na fila de transplante porque tiveram o fígado destruído pelo uso contínuo de ervas”, afirma o médico.

Raymundo Paraná defende como solução para o País que tem na tradição o uso de "receitas da vovó" a criação de um banco nacional e público para que os médicos registrem estes episódios de efeitos colaterais. Tudo para que o uso seja mais seguro. "É preciso mais pesquisa nesta área também". Confira trechos da entrevista

Raymundo Paraná é presidente da Sociedade Brasileira Hepatologia
Divulgação
Raymundo Paraná é presidente da Sociedade Brasileira Hepatologia
Delas: A ciência está cada vez mais empenhada em atestar a eficiência das drogas vegetais, chás e receitas caseiras. Por outro lado, já há indícios de que o uso pode ser perigoso?
Raymundo Paraná: Há muitos indícios de que os efeitos tóxicos de chás e fitoterápicos existem e ameaçam as pessoas. O problema é que o uso destes produtos não é acompanhado e os casos de efeitos colaterais ficam longe das estatísticas. Por isso, fizemos a proposta ao Ministério da Saúde e à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) de criar um banco de dados, abastecido pelos 10 principais centros de referência em hepatologia (área especializada em doenças do fígado) e transplante do País. Com uma rede articulada, seria possível rastrear as pessoas que fizeram uso destas substâncias e quais foram as implicações.

Delas: Hoje já existe um Sistema Nacional de Informações sobre Intoxicações que mostra os medicamentos como líderes das causas de envenenamento (este mesmo banco aponta os casos provocados por agrotóxicos, cosméticos, inseticidas e drogas). Os fitoterápicos e os chás não são mapeados. Por quê?
Raymundo Paraná: Porque hoje é muito difícil as pessoas cogitarem que uma intoxicação ou um problema no fígado foi causado pelo uso de um chá ou de uma erva. Primeiro porque, no caso dos fitoterápicos, há uma interação de substâncias e fica muito difícil saber qual delas é responsável pela toxicidade, por exemplo.

Depois porque o tipo de solo em que aquela planta ou semente foi plantada pode alterar a concentração e provocar o efeito colateral. Um outro motivo é que o uso é considerado tão inocente que a pessoa simplesmente não relata ao médico que tomou um chá ou usou uma raiz por nem considerar a hipótese de que aquilo é a causa do mal. Tive um paciente com um quadro súbito e grave de hepatite, conversava com ele sobre quais poderiam ser a origem da doença, falávamos diariamente e só após três meses ele foi me dizer que usou um “carrapicho”. Fui estudar a origem daquela erva e já haviam casos consistentes na literatura que mostravam como efeito colateral do uso a falência hepática.

Delas: Diante deste quadro de insegurança, como orientar a população? A própria Anvisa, em seu site, traz um guia sobre o uso de drogas vegetais e as suas orientações. É perigoso?
Raymundo Paraná: O fato é que os medicamentos, para chegarem ao mercado, passam por uma série de testes e pesquisas que mensuram quais são os riscos, quem pode usar, qual é a faixa etária indicada. Esta rigidez, necessária, não é aplicada aos fitoterápicos. Então, não há segurança em dizer quem pode usar ou não. Sem contar que estes princípios ativos podem interagir com os medicamentos já usados pela pessoa e o estrago é ainda maior. Reforço que já tivemos registros de pessoas que precisaram de transplantes de fígado por causa disso.

Delas: Mas não há como ignorar que no Brasil o acesso ao médico é difícil e que muitas vezes os chás e fitoterápicos são meios mais fáceis de sanar sintomas, certo?
Raymundo Paraná: Sim, sem dúvida sabemos de todas as dificuldades brasileiras no setor saúde. Por isso, a nossa proposta é que a Rede Nacional de Pesquisa Clínica, já existente hoje no Brasil e financiada pelas autoridades públicas, foque seus estudos na eficácia e na segurança das chamadas drogas vegetais. Não somos contra os fitoterápicos. Só queremos que eles sejam usados de forma segura, sem riscos à população

Delas: E quais seriam as ervas e chás que já têm indícios de serem tóxicas ao fígado?

Raymundo Paraná: Chá verde, cáscara sagrada, mãe-boa, unha de Gato, Gumiferas, Kava, Valeriana, Sene, Espinheira Santa, Losna, Poejo, Andorinha e muitas outras.

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