Susie Orbach, psicanalista inglesa que tratou dos distúrbios alimentares de Lady Di, fala da relação das mulheres com a comida

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"A comida não vai fazer nada além de matar a sua fome", diz a psicanalista
Fios brancos e rugas assumidas, Susie Orbach é a imagem daquilo que defende. Autora de nove livros sobre a ditadura dos padrões de beleza e transtornos alimentares, co-fundadora do Women Theraphy Centre, em Londres, em 1976, e uma das psicanalistas mais conceituadas da atualidade, ela ganhou notoriedade ao ser escolhida pela princesa Diana como sua terapeuta na luta contra a bulimia - distúrbio alimentar caracterizado pela ingestão exagerada de comida seguida de vômitos provocados.

Orbach critica a sociedade atual, seu medo exacerbado de gordura e o que chama de indústria da dieta. “Há um aumento da comida saudável, mas também há um aumento da obesidade. Temos medo de gordura, porém somos gordos. Estamos com medo de comer, então comemos o tempo todo ou não comemos nada”, disse ela, em entrevista ao Delas .

Para a psicanalista, o principal caminho a ser seguido é simples: reconhecer o que é a fome. “Se não tem fome e quer comer, a pergunta é “o que você quer realmente?” Porque a comida não te dará nada além de saciedade. Se você não sabe o que quer comer quando não está com fome, você quer qualquer coisa, menos comida. Você pode querer um abraço, chorar, conversar, se fechar, menos comida”, relata.

A relação entre comida e emoções, que costuma ser um grande problema tanto para a obesidade quanto para os transtornos alimentares, é alvo da . “Não adianta, o chocolate não resolve a tristeza. A única coisa possível nesse caso é senti-la. Você não precisa fugir dela, fazer com que ela passe, você pode senti-la, assim como pode sentir a felicidade”, afirma.

Susie Orbach recebeu o Delas durante um congresso de Psicanálise, em São Paulo
Chris Bertelli
Susie Orbach recebeu o Delas durante um congresso de Psicanálise, em São Paulo
Leia a entrevista completa com Susie Orbach.

iG: Aqui no Brasil há uma pressão enorme em torno da forma do corpo, pois é calor e ele fica mais à mostra. Isso, de alguma forma, pode levar as mulheres aos problemas alimentares?

Não é só porque é quente, é porque os brasileiros têm uma história do corpo, que é a de ter bumbum avantajado. E então vocês têm a cultura visual norte-americana, que é a dos seios fartos. Na verdade, é a questão cultural aliada à pressão comercial, o que faz com que as mulheres se sintam infelizes com seus corpos.

Nós poderíamos ter uma cultura em que celebrássemos todos os tamanhos:
grande, pequeno, médios e assim por diante. Temos diversos tamanhos de mulheres e todas se sentem enormes. Precisamos ser capazes de identificar o que sentimos, nossos desejos, e assumir nosso corpo

iG: Por que as pessoas querem ser magras?
Se você pergunta para as pacientes o que elas acham que seriam se fossem magras, as respostas são assustadoras. São coisas como “Todo mundo ia me querer”, “Eu não teria dor”, “As coisas se resolveriam mais facilmente”. É preciso deixar claro que isso é uma fantasia e nunca seria verdade.

O fato das mulheres viverem fazendo dieta também não é uma forma de estar doente?
Segundo alguns dados, 96% mulheres estão em dieta. Acho que isso é um problema de saúde, porque há sempre uma ansiedade quando você come ou uma euforia, é sempre um plano que se faz. É uma doença. É uma angústia mental e não tenho dúvidas de que há implicações mentais nisso, mas não estudamos ainda essa relação.

Dizemos sempre “ah, é é tão bom que ela esteja fazendo dieta”, quando na verdade não é. As companhias alimentícias nos tornam completamente loucos com essa venda de produtos, principalmente para dieta. É claro que 97% das dietas fracassam, ou essas indústrias não teriam lucro, porque se a dieta der certo, você só usa o produto uma vez.

Há 50 anos as mulheres jejuam e comem demais, jejuam e comem demais – o corpo permanece o mesmo, a forma não muda, mas elas fazem isso e não necessariamente estão saudáveis. Temos que aprender a comer e a sermos felizes para sempre.

iG: Temos visto o crescimento de modelos plus size em capas de revista, atrizes que posam sem maquiagem, há a impressão de que estamos menos exigentes, ou que há uma brecha para uma beleza mais real, menos esquálida. Isso é real?

É preciso analisar se não é algo criado pela indústria, parece um pouco campanha de marketing, mas acredito que ações assim, ainda que pequenas, possam ser uma ajuda para as mulheres encararem o diferente. Quero organizar um movimento grande. (Em 2011, Susie pretende lançar uma campanha em todo o mundo a fim de criar uma nova cultura visual, em que o diferente e a beleza real de meninas e mulheres possam ser valorizados).

iG: Não é raro ouvirmos relatos de mulheres que, eventualmente, vomitam.
Elas não se consideram bulímicas porque não o fazem sempre, somente depois de um exagero muito grande. Essa mulher também está doente?

Quando você come muito esse ato acaba sendo sempre de uma forma desesperada, você não sente a comida. Em épocas como o Natal, por exemplo, em que se come demais, nos próximos dias seu corpo vai se ajustar, ele foi feito para comer mais um dia e menos no outro. Não é por isso que elas vomitam, é uma questão psicológica. Elas pensam: “Eu comi demais, eu estou mal, eu tenho que me ver livre disso”. É bulimia, embora as pessoas não digam e não assumam.

iG: Como essa proibição de alimentos vista nas dietas influencia na questão da obesidade ou dos transtornos alimentares?

É muito comum que isso gere uma ansiedade. Porque não é permitido, então não tem, então quando você pode, você come demais, mas não saboreia, porque não pode, é proibido. E depois vem o sentimento de culpa e para acalmá-lo, você come mais. Aí diz: “não tem problema, porque eu vomito ou começo a dieta na segunda”. As pessoas entram nesse ciclo, não saboream, não sabem o quanto aquele alimento é bom.

iG: É possível mudar essa relação sozinha ou todo mundo precisa de ajuda?

A cultura é muito forte e é bem difícil. Mas eu escrevi muitos livros que falam como mudar sozinho ou com amigos. (Susie é autora do livro "O que as mulheres querem?" e "Sobre a comida: reaprenda a comer", entre outros títulos)

iG: Qual a importância da família na alimentação?

As famílias hoje em dia estão muito ansiosas com relação à comida, discutem o que deveriam ter comido o que não deveriam ter comido. Isso passa dos pais para os filhos.

iG: Estar acima do peso é ruim, estar abaixo do peso é ruim, o peso ideal não se enquadra no padrão. Como a mulher pode alcançar um equilíbrio em sua relação com o corpo?

É muito difícil, é uma luta. Mas podemos fazer um paralelo com ir ao banheiro: você vai e pronto. Se tivéssemos uma regra que dissesse que não podemos fazer xixi hoje ou que temos que ir ao banheiro cinco vezes por dia, teríamos problemas psicológicos.

Precisamos nos regular novamente. Temos que descobrir quando estamos com fome, as pessoas precisam aprender o que é a fome, o que é apetite. Fome é bom, você pode escolher como responder a esse desejo. Se você se permite sentir a fome, você sente o gosto, não apenas nas duas primeiras garfadas, mas todo o sabor do alimento, de toda a refeição e dessa forma você vai saber quando parar porque você está consciente.

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