Bem-Estar

enhanced by Google
 

Corra para largar o cigarro

Histórias de aspirantes a maratonistas que fizeram da modalidade um tratamento alternativo para deixar o vício

Lívia Machado, iG São Paulo | 20/09/2010 12:41

Compartilhar:

Foto: Divulgação

Equipe do Runners Club durante uma maratona na Bahia, em 2009

Foram mais de 20 anos e incontáveis cigarros fumados ao longo desse tempo. O currículo de um fumante experiente parece impossível de ser atualizado com doses diárias de saúde. Feliz engano.

Paralelo ao uso de adesivos de nicotina, tratamentos terapêuticos ou medicamentos mais agressivos, a corrida começa a ganhar o coração – e os pulmões – de quem deseja parar de fumar, ou manter-se na condição de ex-dependente do tabaco.

Em 2004, a empresa onde o contador A.C, 35 anos, trabalha, em São Paulo, resolveu patrocinar uma corrida de revezamento da capital paulista. Fumante há mais de duas décadas, a iniciativa corporativa despertou o interesse na modalidade, mas sem grandes pretensões. A.C montou um grupo de corredores e participou do evento.

A brincadeira foi interessante. O resultado, embora pífio, serviu de estímulo para querer mais. Em pouco tempo, o contador estava investindo boa parte das suas manhãs em treinos nos principais parques públicos da cidade. O cigarro continuou presente, mas, conforme o círculo de amigos saudáveis crescia, as tragadas diárias diminuíam.

Apesar do potencial razoável que tinha, mesmo insistindo em manter o vício, A.C começou a exigir metas mais ambiciosas do esporte. “Queria melhorar. Comecei a sentir que o cigarro impedia um avanço maior no tempo, em colocações nas competições.”

Foi em uma viagem ao Rio de Janeiro, para participar de uma meia maratona na cidade, acompanhado da mulher, grávida de três meses, que A.C definitivamente deixou de gastar com quase dois maços diários de cigarro e passou a investir no esporte.

“A corrida é um ambiente totalmente não fumante. Fui rendido. O grupo de corredores e os treinos adiavam um cigarro. Nunca levei um maço, respeitava o ambiente e os demais presentes. Sentia até vergonha. Quando o desafio passa a te dar mais prazer do que o cigarro, você coloca no papel e vê que o dinheiro gasto com maços poderia ser canalizado para custear as inscrições em competições.”

Hoje, há três anos sem fumar, o contador equilibra a profissão, as maratonas e os cuidados com o filho de dois anos – o motivo pelo qual A.C não quis revelar seu nome nesta reportagem. “Além de ser um estímulo diário para largar, o fôlego exigido, o condicionamento para correr, competir, fazem o ex-fumante manter-se nessa condição, sem recaídas.”

A sedução que a corrida parece exercer nos fumantes ou possíveis ex-fumantes começa a ganhar corpo (e rosto) na internet. O número de blogueiros corredores é vasto, cada qual com seu motivo de conversão. O publicitário Augusto Verrengia escreve diariamente em sua página pessoal "Vamos Correndo".

Foto: Divulgação

Augusto Verrengia exibe sua medalha após completar uma prova de 10km, em São Paulo

O projeto nasceu como uma espécie de terapia virtual. No começo, ele revela que os textos eram basicamente sobre o dia a dia sem cigarro e o papel ‘reformador’ da corrida.

Com o tempo, o número de histórias similares e o interesse das pessoas na modalidade fez com que a ferramenta ganhasse uma função mais panfletária do esporte.

A mudança de comportamento do publicitário foi despertada em 2008, por uma propaganda na televisão de uma corrida tradicional, que ocorre todos os anos em Campinas, cidade onde mora.

“Estava disposto a parar, queria algo que ajudasse a superar a falta que eu sabia que o cigarro iria fazer. A corrida foi a meta pra conseguir me manter longe do vício e investir na minha saúde."

Exercícios antitabagistas

O papel antitabagista do esporte é antigo e cientificamente comprovado. Silvia Cury, psicóloga do Hospital do Coração (HCor), afirma que qualquer atividade física serve de estímulo aos fumantes.

“O exercício libera um tipo de hormônio, a endorfina, responsável por ativar a circulação, dar mais disposição, auxiliar no funcionamento intestinal e baixar a ansiedade, comum aos fumantes. Os benefícios são numerosos.”

A especialista revela que 80% dos pacientes que procuram tratamento no HCor para abandonar o vício, sentem que a atividade ajuda a diminuir a vontade de fumar. Tal potencial, porém, não é sentido da mesma maneira por atletas fumantes.

“Eles não percebem essa diferença quando param de fumar, porque já estão acostumados a trabalhar com corpo. Sentem apenas uma falta de fôlego.”

Segundo Wagner Dantas, educador físco do Núcleo de Obesidade e Transtornos Alimentares (NOTA) do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, na literatura médica, há estudos recentes analisando o comportamento do cérebro de pacientes mulheres, fumantes, que foram submetidas à apenas uma sessão de ginástica aeróbia. O resultado das ressonâncias magnéticas, feitas antes e após o único treino, mostra que o exercício supre o efeito provocado pela nicotina, gera saciedade e reduz o desejo de acender um cigarro.

O professor defende que a corrida seja incorporada às academias como uma alternativa antitabagista. Na visão de Dantas, aproveitar as experiências individuais, que ganham força no coletivo, é extremamente positivo do ponto de vista clínico. A corrida, defende ele, tem quatro fatores interessantes e atraentes.

“O acesso, uma vez que pode ser feito em qualquer área devidamente segura, o fôlego exigido pela modalidade, a possibilidade de realizar a atividade com amigos e o fator desafiador. Tudo isso forma um contexto incompatível com o tabaco.”

O que vem primeiro?

Fumo menos porque corro mais ou corro mais porque fumo menos? A resposta para tal questão não é pontual e objetiva. Embora a recomendação dos médicos não contemple nenhuma modalidade especificamente, abandonar o sedentarismo e o cigarro, para os corredores, parece uma relação de causa e conseqüência, defende Marcius Duarte, educador físico e coordenador da assessoria esportiva carioca Runners Club.

“É preciso fôlego, dedicação, condicionamento. O corredor que fuma perde, literalmente. Fica pra trás no próprio relógio, no tempo que ele pretende superar. Aos poucos, os alunos se gostam mais, se sentem desafiados e o cigarro passa a ser um empecilho. É semelhante aos benefícios de uma dieta.”

Embora o foco da assessoria não seja arrebatar os candidatos a ex-fumantes, esse nicho representa 10% do perfil de alunos que a empresa atende, em dois postos localizados na zona sul do Rio de Janeiro.

“A procura por pessoas que querem parar de fumar, de fato, existe. Talvez pelo perfil motivador, desafiador. Em pouco tempo os novos corredores já querem participar de maratonas, corridas.”

A isca da modalidade, entretanto, pode ser consumida por todos, mas não a todo e qualquer momento, revela Duarte. O trabalho exige conhecimento do histórico de doenças familiares, treinos graduais – intercalando caminhada e corrida inicialmente – para depois investir em competições. O professor comenta que já treinou uma aluna, ex-fumante, com enfisema pulmonar, que, para muitos médicos, não teria nunca condições de correr. O trabalho, nesses casos, é ainda mais específico e cuidadoso, aponta.

“É preciso preparo físico, atenção redobrada para evitar lesões ou comprometimentos. Não podemos permitir que os alunos descambem para o exagero, a overdose de competir em eventos seguidos. A orientação, o acompanhamento é fundamental para que a atividade tenha critérios e seja coerente com o perfil e a capacidade individual de cada um.”

    Notícias Relacionadas


    Ver de novo