Resolução aprovada pelo Conselho Federal de Psicologia em 2005 deixa margem a diferentes interpretações

Regras para a terapia online podem mudar ainda esse ano
Getty Images
Regras para a terapia online podem mudar ainda esse ano
O Conselho Federal de Psicologia tem realizado reuniões frequentes desde o início desse ano para analisar a questão da terapia online – hoje a prática é permitida pela entidade. A expectativa é que a regulamentação existente hoje seja alterada.

“A orientação psicológica mediada pelo computador tem contribuído para o bem-estar das pessoas de forma geral. Estamos discutindo a ampliação do prazo em que essa orientação é permitida. A decisão deve sair ainda este semestre, e teremos mais clareza e flexibilidade nesse campo”, diz Luiz Berni, do conselho regional de psicologia de São Paulo, que participa dessas reuniões.

Siga o iG Saúde no Twitter

Atualmente, a resolução do CFP nº 012 de 2005 deixa margem a diferentes interpretações. O texto veta o atendimento psicoterapêutico mediado por computador, com exceção de quando for exercido em caráter experimental. No entanto, o artigo 6º do mesmo documento reconhece e permite a orientação psicológica por este meio “tais como orientação afetivo-sexual, profissional, aprendizagem e psicologia escolar, consultoria a empresas, reabilitação cognitiva, ideomotora e comunicativa”.

A linha que separa o que é ou não permitido é tênue. “A psicoterapia é mais duradoura, a orientação é pontual. E mesmo que não conste na resolução, a norma interna do conselho delimita a 10 o número de atendimentos”, explica Aluízio Brito, conselheiro responsável pelo tema no Conselho Federal de Psicologia. Esgotado esse montante, se o problema persistir, o paciente deve ser encaminhado ao atendimento presencial.

A orientação, esclerece Aluizio, tem “começo, meio e fim” e serve para problemas pontuais. “A mãe que tem dificuldade com o filho que está mal na escola, por exemplo, e não sabe como ajudá-lo. Ela pode recorrer a esse tipo de terapia”, diz.

Mas nem todos os profissionais podem fazer esse tipo de atendimento. O psicólogo precisa pedir autorização ao CFP e, se a obtiver, será identificado por meio de uma credencial de autenticação eletrônica, que é fornecida pelo próprio órgão e deve ficar exposta no site. Por meio desse selo, o conselho consegue monitorar as atividades que estão sendo realizadas no endereço eletrônico.

No âmbito prático, a questão divide opiniões de especialistas e pacientes. Veronica Bertoni, 23 anos, faz terapia via Skype há um ano a pedido dela mesma. A distância entre o trabalho e o consultório e o tempo gasto no trânsito foram os dois principais motivos que a levaram para o divã virtual. Hoje, quando compara a situação atual com o ano em que passou fazendo terapia presencial, só vê vantagens.

“É mais prático e não sinto diferença. Na verdade, até prefiro que seja assim, tenho mais liberdade para falar do que no consultório. Estou mais confortável e sinto que me abro mais. Acho que o processo só ganha com isso”, avalia.

A tecnologia trouxe também a ela a tranquilidade de poder contar com o terapeuta independente de onde esteja. “Mesmo que eu mude de cidade, posso continuar com ela. Indico para amigos que viajam muito a trabalho e não dispõem do tempo para ir ao consultório”, conta.

Outra vantagem apontada pelos defensores da prática virtual é o valor. Sem precisar alugar uma sala onde possa atender o paciente, os custos para o profissional diminuem e o da sessão também.

Do outro lado, os profissionais fazem ressalvas. “A psicoterapia não é apenas a fala, mas também a postura, o corpo, o silêncio. É a expressão que o corpo traz. Tirar isso cria um vácuo importante no processo terapêutico”, acredita Aluízio.

Luiz Berni faz coro com o colega e diz que ainda não há acúmulo de conhecimento científico suficiente para liberar de vez esse tipo de atendimento. “Hoje, buscamos em configurações tradicionais referências para compreendermos o que acontece nessa nova relação, nesse novo espaço e tentamos adaptar ao mundo cyber”, afirma.

Os dois psicólogos advertem que é preciso estar atento também aos falsos profissionais que se oferecem na rede. Márcio Roberto Regis, responsável pelo sexto site de psicologia a ser credenciado no País, diz que pessoas que se passam por psicólogos na rede são os responsáveis pelo marketing negativo dessa prática.

“Elas deturpam o serviço, e as ferramentas acabam não sendo utilizadas para o benefício da sociedade”, pondera. “A internet pode ser um facilitador para quem está sofrendo, para um momento de crise, de agonia. Pode, inclusive, facilitar o acesso presencial do paciente, estimulando o atendimento”, reflete.

Também há o perigo de ataque hacker ao computador. Quem opta por esse tipo de atendimento deve estar ciente que seus dados estão mais vulneráveis.

Siga lendo notícias sobre Saúde

Para Berni, a internet criou uma nova possibilidade, acrescentou uma nova dinâmica à terapia.

"Escrever vai possibilitar uma riqueza de outra natureza, que é a riqueza do texto. Em uma sociedade que está centrada no visual, a prática da manifestação do escrito ressurge. O texto tem permanência, a linguagem verbal é fugaz. Mas as duas não se excluem, mas sim se complementam”, pondera.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.