Cresce uso de drogas para epilepsia no tratamento da obesidade

Consumo de droga anticonvulsivante cresceu 64% no primeiro semestre deste ano em comparação com o mesmo período de 2010

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Menos de um ano após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ter proibido a venda de remédios derivados da anfetamina para tratar obesidade, o consumo off label (indicação fora da bula) de drogas para epilepsia, depressão e diabetes disparou no País.

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Esses medicamentos (topiramato, liraglutida, bupropiona e metformina) não foram aprovados para o tratamento da obesidade, mas também fazem perder peso. Por isso, têm sido indicados para quem não consegue emagrecer tomando sibutramina ou orlistate, as duas opções oficiais restantes.

Mas esses remédios ainda não foram amplamente testados para o tratamento da obesidade. Apesar de existirem estudos em andamento, ainda não é possível afirmar que são totalmente seguros e eficazes para esses casos.

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Levantamento do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos do Estado de São Paulo (Sindusfarma) feito a pedido do jornal O Estado de S. Paulo mostra que a venda dessas quatro drogas (em unidades de caixas) aumentou acima do crescimento do mercado – o que mostra que a falta de opção de remédios para emagrecer têm feito médicos as prescreverem.

O consumo do anticonvulsivante topiramato, por exemplo, cresceu 64% no primeiro semestre deste ano em comparação com o mesmo período de 2010, antes de a Anvisa proibir três dos medicamentos usados para emagrecer (anfepramona, femproporex e mazindol).

Entre os principais efeitos colaterais do topiramato estão lentidão cognitiva, diminuição do raciocínio, esquecimento de palavras em um discurso e malformação fetal (risco de lábio leporino).

A liraglutida – indicada para tratar diabete e vendida com o nome de Victoza – chegou ao mercado em maio do ano passado e teve um crescimento explosivo nas vendas em setembro, mês em que uma reportagem em uma revista a apontou como droga "milagrosa" na perda de peso.

Em maio do ano passado, foram vendidas 1.270 caixas da liraglutida. Em setembro foram 35.402 caixas e em dezembro, 58.765, sendo que cada uma custa, em média, R$ 350.

Leia o alerta:  Medicamento para tratar diabetes é contraindicado para emagrecer

A professora de inglês Sonia Aparecida Moreira do Nascimento, de 53 anos, pagou R$ 660 por duas caixas de liraglutida para emagrecer, mas interrompeu o tratamento porque não suportou os efeitos adversos.

"Além de não perder peso, passei muito mal. Agora vou fazer cirurgia de redução de estômago", diz.

Antidepressivo

O consumo do antidepressivo bupropiona cresceu 54,6% nos seis primeiros meses de 2012 em relação ao mesmo período de 2010. Já a metformina, indicada para diabete, teve o aumento mais expressivo (100%), mas passou a ser fornecida de graça no Farmácia Popular – o que pode explicar o aumento.

"Esse é um fato absolutamente esperado. A Anvisa retirou três bons medicamentos do mercado. Com pouca opção, é natural que as pessoas tentem tratamentos não indicados nas bulas", afirma Walmir Coutinho, presidente da Associação Internacional para Estudo da Obesidade. Segundo ele, um terço dos pacientes não responde bem à sibutramina e muitos não se adaptam ao orlistate.

Márcio Mancini, chefe do setor de obesidade do Hospital das Clínicas de São Paulo, concorda, mas diz que, em termos de eficácia, essas drogas estão longe de serem consideradas ideais.

"É previsível que ocorra um crescimento no consumo de qualquer medicamento que promova perda de peso", avalia.

O professor Mário Saad, do Laboratório de Pesquisa em Resistência à Insulina da Unicamp, estudou o mecanismo de ação do topiramato em ratos e descobriu que ele diminui a ingestão de alimentos e aumenta o gasto energético, mesmo sem exercício.

"Não podemos fechar os olhos para uma doença crônica como a obesidade. Precisamos dar uma resposta à população que ficou desassistida".

O problema, explica Coutinho, é que muitos médicos prescrevem essas drogas para pacientes que precisam perder três ou quatro quilos.

"Isso é inaceitável. São remédios não aprovados para tratar obesidade e, nesses casos, os riscos são muito maiores do que os benefícios". As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

* Por Fernanda Bassette

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