Ele emagreceu 30kg para receber um rim

Obesidade afeta transplantes em todo o mundo e especialistas temem diminuição do número de doadores. Luis Carlos Silva precisou de dieta para fazer a cirurgia

Fernanda Aranda , iG São Paulo |

Luis Carlos Gonçalves da Silva, 52 anos, precisava de um rim e o irmão, Olavo da Silva, 48, era compatível para a doação. O excesso de peso que marcava o histórico médico de ambos, no entanto, impossibilitava a cirurgia.

Apesar de terem sangue e informações genéticas compatíveis, os dois irmãos precisaram perder peso antes da realização do transplante. Para seguir vivendo, Luis Carlos precisou emagrecer 30 quilos. Para salvar a vida dele, Olavo eliminou 10kg.

Divulgação
Luis Carlos emagreceu 30 quilos para poder fazer um transplante de rim

Saiba tudo sobre transplantes

“Eu estava fazendo hemodiálise três vezes por semana, precisava de 16 injeções de ferro por mês e não tinha mais disposição para nada. Para sobreviver, só com o rim do meu irmão”, lembra Luiz Carlos, que há um ano – quando tinha os rins doentes – sustentava 118 quilos em1,70 metro.

“Na corrida contra o tempo, emagrecer era fundamental. Caso contrário, nada de cirurgia.”

A Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) alerta que a obesidade aumenta os riscos tanto para o doador quanto para o receptor.

“Principalmente nas cirurgias que envolvem doadores vivos (rim e fígado), o excesso de peso amplia complicações como trombose e problemas cardíacos”, afirma o presidente da ABTO, José Osmar Medina.

“A epidemia de obesos talvez seja o principal problema de saúde do mundo e tem repercutido muito nos transplantes”, completa ele.

Infográfico: Veja o panorama de transplantes no Brasil

Não há números oficiais sobre pacientes que têm o transplante adiado ou impedido por causa do excesso de peso. Eles estão misturados aos 439 doentes do Brasil que, só no primeiro semestre deste ano, não fizeram a cirurgia por “contraindicações médicas”, segundo relatório feito pelo Sistema Nacional de Transplantes.

Divulgação
Luis Carlos já na fase que começou o emagrecimento

“Não temos estatísticas específicas sobre o impacto da obesidade, mas sabemos que 48% da população brasileira sofrem de sobrepeso hoje”, completa Medina, citando os dados do último inquérito feito pelo Ministério da Saúde.

“É um problema que começa a frequentar cada vez mais os centros que fazem captação de órgãos e preocupa os especialistas.”

Leia a história: De torneiro mecâncio à recordita de transplante de rim

Segundo reportagem publicada no jornal The New York Times, metade dos centros de transplantes dos EUA já limita os doadores com índice de massa corporal (IMC) acima de 35 – condição que retrata obesidade mórbida, calculada por meio do peso dividido pela altura ao quadrado.

Calcule aqui o seu IMC

''Parte da escassez de doadores de rins vivos deve-se aos critérios rigorosos que estamos aplicando a nossos candidatos a doadores em vida,'' disse ao jornal Mala Sachdeva, do Centro de Transplantes do Hospital da Universidade da Costa Norte, em Long Island.

No local, 23 dos 104 potenciais doadores que contataram o centro nos últimos três anos eram obesos mórbidos. Três deles perderam peso e doaram rins. O restante foi dispensado.

Comemoração com água

Luis Carlos Silva tinha IMC 40 quando o médico disse que ele precisava de um novo rim.

“Descobri o que era peito de peru, salada e filé de frango. Esqueci o churrasco, o torresmo e os doces”, conta ele, dizendo que a mesma estratégia foi adotada pelo irmão Olavo.

As estatísticas de obesidade e problemas dos rins crescem praticamente juntas. Segundo a Sociedade Brasileira de Nefrologia, a obesidade foi uma das responsáveis pelo aumento no número de pacientes com a função renal comprometida, que dobrou nos últimos 10 anos, chegando a atuais 87 mil.

Quase metade dos casos de comprometimento da função renal acaba nas máquinas de hemodiálise e a maioria vai parar na fila de espera por um transplante. Atualmente, 21.686 brasileiros aguardam por um rim.

Luis Carlos deixou este grupo graças à doação de Olavo. E comemorou a nova vida bebendo, já que uma das limitações para os doentes renais é a ingestão de líquidos.

“Bebendo água. Não cerveja”, brinca.

“Deitei na mesa de cirurgia com 87 quilos. Sai de lá com um novo guarda-roupa, com um novo padrão alimentar, com uma nova vida e com a eterna gratidão ao meu irmão.”

Guilherme Lara Campos / Fotoarena
Apesar da insegurança, pai e filho sabem que deu tudo certo e é hora de pensar em um próximo passo

Leia ourta história de transplanteFábio recebeu o rim do pai e todo apoio da mãe

Leia tudo sobre: transplantetransplante de rimobesidade

Notícias Relacionadas


    Mais destaques

    Destaques da home iG