Sobreviventes de câncer responderam a esse desafio e mostram, em imagens, como encontraram um novo sentido e ímpeto na vida após a doença

Quando as pessoas escutam a frase “você tem câncer”, a vida se divide repentinamente em partes distintas: antes e depois da doença. E o número de pessoas nessa segunda categoria continua a crescer.

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Publicado pela Sociedade Americana do Câncer, o livro “Picture your life after Cancer” (algo como “Imagine a sua vida após o câncer”, em tradução livre), se concentra na vida transcorrida após o diagnóstico de câncer .

A obra é baseada num projeto multimídia do jornal The New York Times, que pediu aos leitores o envio de fotos e histórias pessoais. Até agora, quase 1.500 pessoas contaram suas vivências – as boas, as más, as desafiadoras e as inspiradoras –, criando um ensaio fotográfico dramático dos diferentes tipos de vida vividos nos anos seguintes ao diagnóstico.

Para a artista Susan Schwalb, um diagnóstico de câncer de mama nos primeiros estágios, aos 62 anos, levou à lumpectomia (remoção de nódulos do seio), seguido pela mastectomia e por uma cirurgia de reconstrução fracassada. Ela descobriu que o câncer era um desafio físico e mental, buscando suporte nos amigos e grupos de apoio para lidar com a tensão emocional. Quando viu o projeto, enviou uma foto de si mesma vestindo um avental de pintor respingado de tinta.

“Na minha vida profissional, o câncer me fez pisar fundo. Conheci gente que decidiu curtir a vida, se aposentar, fazer jardinagem. Eu decidi que precisava ter mais do que queria na vida e que era melhor agir logo, pois não terei a vida longa que imaginava me aguardar”, conta Susan.

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Na verdade, um tema comum do projeto “Imagine a sua vida” é o câncer levando as pessoas a partirem em viagens postergadas há muito, a correr atrás da aventura e a passar mais tempo com os familiares. Fotos de montanhas sendo escaladas, passeios de camelo, excursões de mergulho e viagens de bicicleta agora fazem parte da colagem na internet .

David Posner, subchefe de medicina pulmonar do Hospital Lenox Hill, em Manhattan, disse que o diagnóstico de câncer de cólon metastático, aos 47 anos, o ajudou a se identificar com os pacientes cancerosos. A década passada acumulou nove operações, seis recorrências e três rodadas de quimioterapia, mas Posner afirmou nunca perder mais do que três semanas de trabalho.

“Encontrei minha salvação na família e no trabalho. Quando estava no trabalho, não pensava em mim mesmo, algo muito terapêutico. Vejo minha cota de pacientes com câncer e os motivo, e eles a mim.”

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Segundo Posner, ele decidiu participar do projeto por querer contar que um diagnóstico de câncer – nem mesmo um terrível como o seu – não precisa definir a vida.

“Penso em me perguntarem sobre como foi minha última década, se ela foi desperdiçada ou se foi repleta de felicidade e alegria. O lance do câncer era doloroso, mas durante a maior parte do tempo eu me diverti a valer.”

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A colagem “Imagine a sua vida” inclui diversas fotografias de sobreviventes com bichos de estimação. Sandra Elliott, de Claremont, Califórnia, enviou uma imagem dela com dois cães golden retriever, Buddy e Molly. Eles eram apenas filhotes quando ela recebeu o diagnóstico de câncer mamário no estágio dois, em 2003. Durante a recuperação da cirurgia e dos tratamentos quimioterápicos, ela levava os cachorros para passear no campus do Pomona College, próximo à sua casa, e, um dia, um fotógrafo profissional a capturou com sua máquina.

“Independentemente do grau de infelicidade naquele dia, independentemente do número de quimioterapias ou consultas médicas, esses dois cachorrinhos com grandes olhos negros olhavam para mim com o rabo balançando como se falassem: ‘Está na hora. Está na hora. Está na hora de sair!’.”

“Eu me sentia fisicamente terrível, e quando os via com aquela alegria pura na cara e no corpo, simplesmente por estarem ao ar livre, serem capazes de respirar ar puro, cheirar as árvores, perseguir um esquilo; aquele simples amor à vida que eles me mostravam melhorava meu pique diariamente.”

Elliott ainda vive com dor crônica por causa da lesão no nervo provocada pelo tratamento contra o câncer, e é capaz de se identificar com as outras pessoas do projeto que se preocupam se a enfermidade vai regressar ou nunca mais voltarão a se sentir completamente normais. Porém, para ela, um tema forte percorre todas as fotografias e histórias.

“Todos nós fomos forçados a encontrar a alegria nas pequenas coisas. Estou aqui sentada vendo um gerânio prestes a desabrochar. As coisas que existem por aí... Temos de ser lembrados de olhá-las. E o câncer é um lembrete dos grandes.”

* Por Tara Parker-Pope

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