O nome dele é João Estrella e ele faz palestras contra as drogas

Por Fernanda Aranda , iG São Paulo |

Texto

Músico que inspirou o filme “Meu nome não é Johnny” conta como a experiência de ex-traficante e usuário de cocaína ajuda os jovens a evitar a dependência química

Divulgação
João Estrella inspirou o filme 'Meu nome não é johnny'. Ex-traficante hoje ele faz palestra contra as drogas

João Estrella ficou famoso pelo nome que não tem e por um rosto que não é seu.

Sua história inspirou o livro e o filme “Meu nome não é Johnny”, trama estrelada por Selton Mello e que agora está sendo adaptada para chegar ao teatro (talvez o ator Marcos Palmeira personifique a biografia de João).

Ele é o jovem rico que virou um dos maiores traficantes do Rio de Janeiro nos anos 1990. Em 1995, foi preso e conheceu a realidade dos manicômios judiciais.

Hoje, depois do sucesso cinematográfico, o músico Estrella, aos 52 anos, virou um porta-voz anônimo da prevenção da dependência química.

Leia mais sobre o abuso de drogas na Enciclopédia da Saúde

Em entrevista ao iG (concedida por email), ele conta como a experiência de ex-vendedor de drogas ajuda jovens, adultos, idosos e também agentes da polícia federal sobre a importância de cuidar da saúde mental e evitar fazer parte dos usuários dos produtos que fizeram o “não Johnny” chegar ao fundo do poço.

iG: Em 2008 você ganhou fama contando a sua história com o uso e o tráfico de cocaína. Hoje, cinco anos depois, ainda enfrenta dúvidas sobre a sua recuperação?

João Estrella: Não enfrento dúvidas com o assunto, até porque a exposição da minha história não parou com o livro e o filme. Hoje em dia faço palestras em todas as áreas da nossa sociedade. Colégios, faculdades, instituições de menores infratores, tribunais de Justiça, cursos para magistrados recém-empossados. Faço parte do grupo que está criando um sistema de assistência para a melhoria da saúde mental dos agentes federais no Sindicato de Agentes do Estado do Rio de Janeiro. É um trabalho focado em depressão e que também fala da questão da dependência química. O primeiro grupo foi treinado no início de abril. Faço aconselhamento pela internet e pessoalmente também

iG: Olhando a vida em retrospectiva, você mudou a sua avaliação sobre as drogas? Pergunto não apenas com relação aos tempos de usuário, mas também desde o lançamento explosivo do filme e agora...

Estrella: Na época de usuário não fazia avaliações. Apenas consumia e pronto. Este é o ponto principal dos meus debates/palestras: fazer com que as pessoas, os juízes, professores, pais e principalmente os jovens parem para avaliar o que vale realmente a pena fazer sobre o tema. Com os adolescentes, a tentativa sempre é a de fazer com que consigam, pelo menos, colocar na balança e escolher entre os caminhos apresentados pela vida qual é o melhor antes de agir.

iG: Na sua avaliação, o que as campanhas contra as drogas não dizem e seria importante falar?

Estrella: Que experiências são válidas ao longo da vida, mas que algumas, podem te colocar diante de grande risco. Então, é melhor abrir mão de uma ou outra experiência para o bem do próprio futuro. O risco de ter propensão a dependência de drogas e passar a vida lidando com esse problema não vale o prazer de algumas experiências.

Divulgação
Selton Mello viveu o João Guilherme Estrella em "Meu Nome Não é Johnny" de 2008

iG: No seu caso, como relatado no filme e no livro, ser taxado de "filhinho de papai" que usa e vende drogas trouxe algum preconceito por você ser de uma classe econômica favorecida?

Estrella: Não me lembro de ser taxado de "filhinho de papai", pelo menos na minha frente. Na cela da Policia Federal onde fiquei com pessoas de uma facção (criminosa), tinha um cidadão que me chamava de ‘Toddynho”, referindo-se a minha boa criação (gíria dos anos 1990 em referência a uma marca de achocolatado a que só os bem nascidos tinham acesso). Depois do respeito conquistado, (os presos) passaram a me chamar de Estrella, sobrenome que nunca tinha sido usado por nenhum amigo até então.

Não deixei que qualquer tipo de preconceito me atingisse e para isso fui atrás de realizar meus sonhos e as coisas que para mim são importantes. No momento, por exemplo, estou captando recursos para a peça "Meu nome não é Johnny" e sinto dificuldades em encontrar empresas que queiram atrelar seus nomes ao tema (drogas). Isso, mesmo depois do sucesso enorme (do filme e livro), da aprovação na lei Rouanet, de uma equipe fantástica com nomes como o de Marcos Palmeira, Daniel Herz, Carlos Cardoso. Sem falar de todo trabalho social que venho realizando. Essa dificuldade ainda existe.

iG: As pesquisas, de alguma forma, já conseguiram mensurar que o problema com as drogas não escolhe classes sociais e também sugerem uma relação entre drogas e criminalidade. Para você, este assunto deveria ser uma questão de polícia ou de saúde?

Estrella: Acho que a criminalidade está mais ligada à repressão, à corrupção, à venda de armas etc. Antes da cocaína chegar ao Rio de Janeiro e ser vendida no asfalto e no morro, por exemplo, já morávamos em uma cidade violenta com assaltos, roubos a bancos e sequestros. Nas duas áreas citadas, polícia e saúde, há incompetência e o desmantelamento das estruturas profissionais, psicológicas e de equipamentos – condições mínimas para o alcance dos resultados esperados. As duas áreas não têm hoje qualidade suficiente para lidar com epidemias como a do crack e falta preparação especializada dentro das polícias para que se faça um bom trabalho. Acho que é um assunto de Estado, que tem a obrigação de encontrar a melhor forma de lidar com esses problemas.

iG: Nos anos 1980, havia uma glamour associado à cocaína. Temos o crack no centro das campanhas hoje um número crescente de usuários de drogas – seja em qualquer estrato social. Ainda há a glamour quando o assunto é droga?

Estrella: O glamour hoje está mais restrito e mais ligado às drogas sintéticas, como o ecstasy. Falo restrito porque as campanhas são mais repressoras do que educativas e fazem com que os grupos se fechem e não se exponham tanto. Com isso, não há glamour. Mas o diálogo é prejudicado.

iG: Já li algumas declarações suas de que você não é um dependente químico e sim um compulsivo. Esta separação é importante por quais motivos?

Divulgação
Selton Mello em cena do longa inspirado na história de João

Estrella: Na verdade, essa é uma declaração que ouvi de alguns psiquiatras que consideram o termo "dependente químico" como forma de diferenciar os casos mais graves. Na verdade, são todos compulsivos, em diferentes graus de avaliação. Claro e que o termo “dependente” era uma forma, também, de enquadrar pessoas em um mesmo contexto e vender a ideia de uma nova doença, que precisa de novos medicamentos.

Cada caso é um caso, com particularidades psicológicas e históricos diferentes. Não dá para tratar todos igualmente como se fosse uma epidemia de gripe. Essas compulsões, aliadas a casos de bipolaridade e esquizofrenia, não diagnosticadas, ou diagnosticadas tardiamente, são uma bomba relógio muito prejudicial aos pacientes.

iG: Você esteve em um desses manicômios judiciais. Um trabalho recente mostrou que neste tipo de instituição há um número significativo de dependentes químicos, bipolares, esquizofrênicos, que estão com laudos jurídicos atrasados e presos há anos sem acompanhamento. Sua experiência mostrou que trata-se, de fato, uma espécie de 'população fantasma'?

Estrella: São cidades perdidas. Pessoas que as familias abandonaram há décadas. A situação jurídica de muitos já poderia ter sido resolvida mas não há interesse. Ninguém tem coragem de assumir a responsabilidade de assinar e soltar um interno que tem um histórico psiquiátrico bárbaro. Outro ponto é a ausência de instituições adequadas para viciados que cometeram delitos e acabam sendo encaminhados para esses lugares [como foi o caso de João]. Eles têm de conviver com a assustadora realidade dos serial killers (assassinos em série).

iG: O posto de "porta voz" da recuperação de alguma forma incomoda? Você se sente pressionado?

Estrella: Não tenho esse posto e nem sinto pressão alguma. Falar sobre o tema, colaborar com as pessoas e as instituições me dão tanto prazer quanto cantar.

iG: A música esteve presente em todas as fases da sua vida. A sua relação com ela mudou?

Estrella: Mudou. Agora é outro momento e tento ser mais profissional. Mas sinto falta de viver de música, tocando violão e cantando em formato acústico, em Arraial D'ajuda (praia paradisíaca da Bahia).

iG: O filme te apresenta como "um cara que teve tudo na vida só não teve limites". O que você tem hoje que antes não tinha? O que ainda falta?

Estrella: Tenho limites. E ainda faltam paz e gente séria cuidado do futuro dos nossos filhos.

Leia mais notícias de saúde

Texto

notícias relacionadas