Estresse, ansiedade e até felicidade são gatilhos de recaídas no cigarro

Por Elioenai Paes , iG São Paulo

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Especialistas explicam que associar o fumo às atividades do cotidiano, mesmo aos sentimentos positivos, interfere na briga contra o vício. Veja dicas para vencer o tabaco

Thinkstock/Getty Images
Parar de fumar é perfeitamente possível, segundo a cardiologista Jaqueline Issa, do Incor

Para quem decide parar de fumar, até a felicidade pode ser um desafio, alertam os especialistas. O estresse, ansiedade e até as comemorações e os sentimentos positivos podem ser gatilhos de recaída no fumo, como explica a psicóloga e gerente do serviço de psicologia do Hospital do Coração (HCor) Sílvia Cury Ismael.

“Muitos acendem um cigarro para comemorar os momentos felizes", afirma a especialista, emendando que a mesma justificativa de recorrer ao tabaco é usada para momentos estressantes.

A primeira orientação dos médicos e profissionais de saúde para celebrar a data é deixar de associar o fumo a atividades cotidianas, como a produção no trabalho ou o happy-hour com os amigos.

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Mulheres

Segundo Sílvia, este comportamento associativo com o cigarro é feito por homens e mulheres, mas elas, em geral, apresentam uma relação ainda mais emocional com o cigarro, o que pode influenciar de forma decisiva no tratamento.

"A mulher lida com o cigarro de uma forma menos racional, então acaba tendo dificuldade para parar e mais chances de recair", diz Sílvia.

“Isso acontece porque o fumo pode estar relacionado a níveis maiores de depressão ou à questão hormonal, mais influentes no organismo feminino", completa a psicóloga.

A cardiologista, responsável pelo programa de tratamento de tabagismo no Instituto do Coração de São Paulo (Incor), Jaqueline Issa, acrescenta que a ansiedade e o acúmulo de tarefas também tornam as fumantes mais vulneráveis.

"Elas lidam com várias atividades ao mesmo tempo, o que sobrecarrega. As frustrações minam a decisão de resistir a um cigarro”, explica a médica.

“É como estar na TPM e ter que controlar a vontade de comer chocolate. Mas é perfeitamente possível parar de fumar com o tratamento”, incentiva a cardiologista.

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Rápido e perigoso

De acordo com Jaqueline, o cigarro age muito rápido. “Em 7 segundos, ele traz uma sensação de relaxamento.”

Trocar os sete segundos de alívio trazidos pelo trago por uma vida toda sem estar no alvo direto das doenças acarretadas pelo tabagismo, como câncer, infarto e acidente vascular cerebral (AVC), é um bom negócio.

“Existem quatro graus que medem o vício do tabaco que independem de quantos cigarros são fumados por dia”, explica a especialista do Incor. “Pessoas que fumam pouco podem ser tão dependentes como aquelas que fumam muito", diz.

Faça o teste: Qual o seu nível de dependência do cigarro?

"Porém, a partir do segundo grau, devemos olhar o paciente com mais atenção. Ao tentar parar de fumar, vão surgir sintomas de abstinência, como irritabilidade, ansiedade, desejo compulsivo por comida, aflição", explica a especialista ao ressaltar que para esta parcela são indicados medicamentos que favorecem a luta contra o vício.

Ganho de peso

Lidar com a abstinência pode não ser fácil. Por isso existem tratamentos comportamentais e medicamentosos, estes últimos prescritos para quem tem grande dificuldade para parar de fumar.

“Os remédios eliminam os sintomas de abstinência, então o paciente se sente confortável, mais calmo, sem a impaciência ou irritação típica da abstinência", afirma Jaqueline Issa.

"Isso não é um efeito do remédio, ele apenas revela como a pessoa é naturalmente sem o cigarro, ou seja, como ela vai se comportar após se livrar completamente do vício”, explica a especialista.

Para as mulheres que ficam preocupadas em ganhar peso, a cardiologista explica que a compulsão por comida ocorre por causa da abstinência, mas que, com a medicação, ela desaparece.

“O tratamento é um alívio”, conta a especialista, ressaltando que apenas os médicos podem fazer esta prescrição. Na maioria dos casos, entretanto, o tratamento é apenas comportamental.

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Pensamento disfuncional

“Trabalhamos bastante a questão do pensamento do fumante, que chamamos de pensamento disfuncional. Ele diz que, se não fumar, não consegue pensar, trabalhar, lembrar das coisas ou ser ágil, como se o cigarro fosse uma gasolina, um impulso”, conta Sílvia, do HCor.

“Procuramos ajudar o dependente a achar os recursos de enfrentamento, qual é a alternativa ao cigarro nos momentos de ansiedade, por exemplo.”

A psicóloga explica que muitos começam a fumar por curiosidade ou para serem aceitos pelo grupo – e se arrependem depois.

“A maioria que nos procura ainda não tem problemas de saúde causados pelo cigarro, o que facilita o tratamento”, explica ela.

Já a motivação dos que já estão doentes é mais fraca. “Eles têm o pensamento de que já estão doentes, então acreditam que não há mais nada para fazer para prevenir”, lamenta.

Dicas para controlar a fissura

Segundo o Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (CRATOD), é possível controlar as crises de vontade de fumar. A crise dura de 1 a 5 minutos, e a maior recomendação é ter em mente que o desconforto permanecerá apenas por um período curto. As dicas para que esses minutos não se transformem em tortura são:

- Beber água, respirar profundamente, se possível com os olhos fechados. É um exercício respiratório que ajuda a relaxar

- Montar e ter sempre por perto o "kit fissura", que consiste em cravo, canela, passas de uva, damasco picado, semente de abóbora ou casca de laranja seca no forno, legumes crus (cenoura, erva-doce ou pepino cortado em palito), frutas, cristais de gengibre, balas e chicletes dietéticos, bolachas de água e barras de cereal light.

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