'Ninguém leva minha depressão a sério'

Por Maria Fernanda Ziegler - iG São Paulo |

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Especialistas afirmam que preconceito é sentido por quase 100% dos pacientes e alertam que doença deve ser tratada, pois em alguns casos pode levar à morte

Thinkstock/Getty Images
Depressão: médicos afirmam que quase 100% dos pacientes sofre preconceito

Não havia um dia que Márcia* não ouvisse frases como “vai passar”, “é só você esquecer que a tristeza vai embora” ou ainda “isso não é nada que o trabalho não resolva”. Enquanto ouvia estes comentários, ela se afundava na depressão. Sem saber. Aos poucos, foi se afastando dos amigos e já não gostava ou não tinha forças para fazer quase nada. Executar tarefas rotineiras do trabalho se tornou muito difícil. Foi preciso uma década para que Márcia, os amigos e a família se dessem conta de que ela tinha depressão.

Nesse tempo, ela teve crises de ira e angustia e tentou se matar duas vezes. “Nunca é bom ouvir que a angústia que você está sentindo não é nada. Comentários desse tipo te deixam mais impotente e você se odeia ainda mais por estar naquela situação e simplesmente não conseguir sair dela”, diz ela, atualmente com 28 anos.

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Relatos como o de Márcia não são raros. Apesar de mais de 350 milhões de pessoas sofrerem de depressão, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), e da previsão de a doença ser a mais comum no mundo em 2030, quem sofre do mal não costuma ser levado a sério. No Brasil - o campeão dos casos, com cerca de 15% da população atingida - o descaso beira o preconceito. 

"Você nunca vai ouvir ninguém falar para um diabético que ele não precisa se tratar, que é só lavar um tanque de roupa suja que passa. A depressão também é uma doença e, dependendo da gravidade, pode ser letal", afirma o presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, Antônio Geraldo da Silva. Ele diz que quase 100% dos seus pacientes relatam ouvir esse tipo de conselho. 

Andrea Feijó Mello, médica responsável pelo Ambulatório de Estresse e Depressão da Unifesp, em São Paulo, concorda que o preconceito que a população tem com a depressão é quase geral. “Normalmente as pessoas pensam que eles estão com preguiça, mas na verdade pacientes com depressão têm diminuição do raciocínio e da capacidade de execução. Acho que este problema tem muito a ver com o preconceito e com a desinformação”, disse.

Conheça alguns alimentos ajudam no combate à depressão:

Melancia. Foto: Getty ImagesAbacate. Foto: Getty ImagesCouve. Foto: Getty ImagesAmendoim. Foto: Getty ImagesSemente de girassol e semente de linhaça. Foto: Getty ImagesOvos. Foto: Getty ImagesBanana. Foto: Getty ImagesMel. Foto: Thinkstock PhotosOleaginosas. Foto: Thinkstock/Getty ImagesArroz. Foto: Getty ImagesLeguminosas, como o feijão e a lentilha. Foto: Getty ImagesGrãos integrais, como a granola. Foto: Thinkstock/Getty ImagesCarnes magras. Foto: Getty ImagesPeixes. Foto: Getty ImagesProdutos à base de soja. Foto: Thinkstock/Getty ImagesLeite e seus derivados, como iogurtes e queijos. Foto: Getty Images

Depressão

A OMS define depressão como um transtorno mental comum, caracterizado por tristeza, perda de interesse, oscilações entre sentimentos de culpa e baixa autoestima. Outros sintomas são distúrbios do sono e perda de apetite. Também há a sensação de cansaço e falta de concentração. Em graus mais elevados pode levar ao suicídio e deve ser tratado por profissionais e com medicamento.

“Muitas pessoas acham que para ficar deprimido é preciso de algum motivo, o que não é verdade. É uma doença com um causador interno (alterações químicas no cérebro), que pode ser associada ou não a uma causa ambiental”, disse Silva.

Depois de duas tentativas de suicídio, Márcia percebeu que precisava de tratamento. "Fui ao psiquiatra e na psicanalista, e segui com o tratamento direitinho. Melhorar era a prioridade. É uma doença e tem que ser tratada. Tomava os remédios no horário e ia nas consultas. Minha irmã, que na época estava desempregada, cuidava de mim. Não ia nem ao banheiro sozinha. Tinham medo que eu tentasse me matar novamente”, conta.

Hoje Márcia está bem. “Tanto que consigo falar sobre o que aconteceu mais tranquilamente”, diz. Ela continua o tratamento e vai ao psicanalista uma vez por semana. No início do tratamento, eram três vezes por semana. Também parou de tomar remédio, por indicação do médico. “Não estou medicada, mas caso eu sinta qualquer tipo de sintoma eu devo falar com o meu médico”, diz. 

*O nome foi alterado para preservar a identidade

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