“Cada vez mais, vamos tratar o câncer sem precisar de quimioterapia”

Por Maria Fernanda Ziegler - enviada especial a São Francisco (EUA)* |

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Afirmação é da pesquisadora americana Catherine Bollard, que defende a imunoterapia como novo caminho para tratamento

Divulgação
Catherine Bollard

A tão temida e sofrível quimioterapia deve deixar de ser o único destino para quem descobre um câncer. É isso que defende a pesquisadora americana Catherine M. Bollard, especialista em transplante de medula dos Sistema Nacional de Saúde Infantil dos EUA.

A especialista é uma grande entusiasta da imunoterapia. A lógica está em fazer com que anticorpos do próprio organismo se defendam e ataquem vírus, tumores e outros microorganismos, no lugar de desenvolver uma droga que mate as doenças. De modo simplista, é mais ou menos a diferença entre dar o peixe e ensinar a pescar.

Catherine acredita que dados os avanços recentes na área e a eficiência das novas terapias, cada vez mais serão menos necessários tratamentos convencionais como a quimioterapia.

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Recentemente, Catherine, foi eleita presidente da Sociedade Internacional de Terapia Celular (ISCT) e afirmou em entrevista ao iG que pretende dar suporte para que estas novas formas de tratamento torne-se cada vez mais comuns no Brasil.

iG: Por que é a imunoterapia pode ser melhor que terapias tradicionais em muitos casos? 
Catherine M. Bollard: Existem várias formas de imunoterapia, com diferentes processos para se obter isso, mas, basicamente, a imunoterapia consiste em melhorar a resposta imune do paciente para matar o tumor. Ao contrário da radioterapia e da quimioterapia convencional, terapias baseadas no sistema imune oferecem uma abordagem mais orientada para matar as células cancerosas sem intoxicar outros orgãos, com isto células saudáveis que não têm relação nenhuma com a doença não são atingidas. As células cancerosas têm muitas estratégias para ludibriar o sistema imunológico. Imunoterapias servem para superar estas estratégias e matar diretamente o tumor. Há menos efeitos colaterais, uma resposta mais eficaz.

iG: Você acredita que poderemos, num futuro próximo poderos dar adeus à quimioterapia?
CB: Acho que sim. Principalmente por causa destes novos avanços em imunoterapias, vemos que pode ser possível para alguns tipos de câncer utilizar uma combinação de imunoterapias e tratar de modo eficaz o tumor sem a necessidade de quimioterapia.

iG: O que há de mais novo nesta área?
CB: Existem muitas novidades empolgantes sobre avanços baseados em imunoterapia no câncer, inclusive vacinas contra tumores, terapias baseadas em anticorpos e as celulas-T do sangue [glóbulos brancos do sangue que têm papel importante na imunidade], só para citar alguns exemplos. Recentemente, o uso de células-T alteradas geneticamente em laboratório e lançadas no organismo para matar células de leucemia resultou no aumento de 80% na taxa de resposta de crianças com leucemia linfoide aguda e que não tinham conseguido resultados positivos com outras terapias. Além disso, há uma nova classe de terapias chamadas “inibidores de pontos de verificação” que libera o freio do sistema imune, tornando-o mais poderoso.

iG: O sistema imune é muito diferente em crianças e adultos?
CB: Dependendo da idade da criança, seu sistema imunológico pode ser diferente, porque ele não encontrou ainda tantos patógenos quanto os adultos e, portanto, não pode ter a mesma forma de "memória".

iG: Você e sua equipe, neste ano, curaram com células-T um bebê de apenas seis meses de idade que tinha deficiência imunológica congênita. Por que decidiu não usar o tratamento tradicional?
CB: Este paciente tinha uma imunodeficiência que foi tratada por um transplante de sua mãe. No entanto, ele também desenvolveu uma infecção por citomegalovírus (CMV), porque seu sistema imunológico ainda estava muito fraco, mesmo após o transplante. Ele foi tratado, inicialmente, com drogas convencionais contra o CMV, mas ele era resistente a todas elas. Nós então produzimos células-T contra o CMV a partir da mãe do bebê e injetamos no paciente. Dentro de poucas semanas os vírus de CMV desapareceram.

iG: É possível treinar células-T com pouca “memória”, como a de pacientes mais novos,  a matar tumores e vírus?
CB: Sim, nós somos o primeiro grupo a mostrar que é possível que células de sangue ainda naif do cordão umbilical podem derivar um sistema imunológico “treinado” em labortório capaz de matar três vírus simultaneamente.

iG: Depois dessa, o que vocês estão planejando fazer?
CB: Estamos atualmente desenvolvendo novas terapias imunes para pacientes pediátricos com câncer no sangue, neuroblastoma, sarcomas e tumores de cérebro. Estamos também desenvolvendo novos tratamentos contra infecções por vírus, incluindo cinco vírus que podem causar grandes problemas em pacientes deficientes imunes (por exemplo, aqueles com deficiências imunológicas congênitas ou pacientes transplantados).

iG: Por que a imuneterapia é mais barata que os tratamentos convencionais?
CB: O custo das terapias com drogas tradicionais contra infecções por vírus pode ultrapassar 30 mil dólares. Isto para evitar uma única infecção por vírus em um paciente que fez um transplante de medula recentemente e ainda está com o sistema imune baixo. O tratamento destes pacientes com células T não só trata a infecção pelo vírus, como também repara o sistema imune e protege o organismo. É portanto uma estratégia com maior custo benefício e que agora está sendo usada nos Estados Unidos, Europa, Ásia e Austrália.

iG: Este tipo de tratamento está sendo utilizado no Brasil e em outros países?
CB: A América do Sul também está desenvolvendo algumas terapias com base imunes muito promissoras e está se tornando muito ativa dentro da sociedade internacional de terapias celulares (ISCT). Como presidente eleita desta sociedade, eu me comprometo a chegar ao Brasil e outros países da América do Sul para ajudar com o desenvolvimento e capacitação no campo da terapia celular.

*A repórter viajou a convite da Celgene

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