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Medicamentos à base de ervas medicinais podem alterar os efeitos de outros fármacos quando combinados, provocando reações adversas ao paciente

Autor do estudo afirma que é importante avisar ao médico caso o paciente esteja tomando remédios naturais
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Autor do estudo afirma que é importante avisar ao médico caso o paciente esteja tomando remédios naturais

Tomar remédios naturais à base de plantas, como gingko biloba, junto de medicamentos convencionais pode causar danos à saúde, conforme afirma um estudo publicado no Jornal Britânico de Farmacologia Clínica.

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Ao realizarem uma extensa revisão na literatura médica, pesquisadores descobriram dezenas de casos em que tratamentos alternativos, que incluíam uso de  remédios naturais à base de plantas medicinais, pareciam ter alterado os efeitos da medicação prescrita pelo médico, diluindo-a, tornando-a mais potente ou causando efeitos colaterais potencialmente perigosos.

A análise cita exemplos de pacientes que sofreram sérios problemas depois de fazer uso de medicamentos à base de plantas junto com drogas, incluindo antidepressivos e medicamentos para o HIV, epilepsia e doenças cardíacas.

Para Edzard Ernst, professor emérito de medicina complementar na Universidade de Exeter, na Inglaterra, os resultados evidenciaram que os ingredientes naturais ainda poderiam ter efeitos biológicos potencialmente potentes. "Eles podem causar danos a muitos pacientes que usam tratamentos à base de plantas", disse ele. "Portanto, é importante que os consumidores sejam avisados ​​do perigo e pensem duas vezes antes de se automedicar com remédios naturais".

Charles Awortwe, da Universidade de Stellenbosch em Tygerberg, África do Sul, e primeiro autor do artigo, afirmou que ele e sua equipe decidiram investigar esse assunto, em razão ao uso generalizado de medicamentos à base de plantas junto de medicamentos prescritos.

Pesquisa

Ao examinarem a literatura médica a fim de identificar casos anteriores de pacientes que sofreram reações adversas aparentes, foram extraídos 49 relatos e dois estudos observacionais prévios, que detalham 15 casos de efeitos incomuns.

Em seguida, caso a caso foi investigado para detectar se os problemas foram causados ​​por uma interação, com base nas propriedades farmacológicas dos ingredientes ativos. Concluiu-se que os medicamentos à base de plantas provavelmente desempenharam um papel em quase 60% dos casos.

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Entre eles, o de um homem de 55 anos que morreu por conta de uma convulsão durante a natação chamou a atenção. A autópsia concluiu que os suplementos de ginkgo biloba que o homem estava tomando - para aumentar a função cognitiva - podem ter inibido os efeitos de sua medicação para conter a convulsão.

Vários casos documentaram pacientes com problemas cardíacos que usavam remédios prescritos previamente e sofreram complicações ligadas ao uso de linhaça, erva de São João e chá verde. A maioria dos pacientes foi diagnosticada com doenças cardiovasculares, câncer e transplantes de rim.

Explicação

Estudos recentes mostraram que é possível que alguns ingredientes ativos em ervas medicinais afetem o metabolismo do fármaco, acelerando a taxa em que outros medicamentos são quebrados no fígado e reduzindo sua eficácia.

Pesquisas anteriores sugeriram que a erva de São João, uma planta medicinal que não precisa de receita para ser comprada e indicada para ajudar a curar depressão, poderia interagir com uma grande quantidade de medicamentos.  Segundo a análise, o uso do remédio pode aumentar os efeitos colaterais de antidepressivos e há evidências de que poderia reduzir a eficácia de medicamentos, como estatinas, anti-histamínicos e drogas que atuam contra o HIV.

Awortwe alerta sobre a importância de cada indivíduo sempre informar ao médico todos os remédios que estão sendo consumidos, mesmo que sejam naturais. "Basta apenas uma interação potencial e suas consequências podem ser muito prejudiciais para a saúde do paciente".

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