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Problema pode atingir homens e mulheres em todas as idades e afetar a qualidade de vida do indivíduo; no Brasil, mais de 10 milhões de pessoas sofrem com incontinência; veja quais são os fatores de risco para a condição

Incontinência urinária não é um problema apenas de mulheres mais velhas: crianças e homens também podem ter condição
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Incontinência urinária não é um problema apenas de mulheres mais velhas: crianças e homens também podem ter condição

Há um ano a aposentada Cecília Almeida de Sá*, de 73 anos, deixou de visitar a irmã e ver o mar, como fazia a cada dois meses. A distância precisou acontecer por “razões maiores”, como ela mesma define, já que não gosta de falar sobre o real motivo. Por morar longe da praia, onde vive a família de sua irmã, ela não pode mais fazer as viagens de São Paulo até Santos por sofrer de incontinência urinária .

O problema, que acomete mais de 10 milhões de brasileiros, de acordo com dados da Sociedade Brasileira de Urologia, é um assunto que, além de ser uma questão médica, também compromete a qualidade de vida e a autoestima das pessoas. Por isso, especialistas alertam que a incontinência urinária não deve ser encarada como algo “normal”.

Não é normal tossir, espirrar, gargalhar ou pegar peso e perceber que a urina escapou. Não é normal sentir vontade de urinar e não conseguir controlar. Não é normal ter escape de urina involuntariamente. E engana-se quem pensa que somente as mulheres mais velhas sofrem dessa condição. Homens e mulheres de todas as idades podem apresentar os sintomas, inclusive na infância. Mas em todos os casos, a situação não pode ser ignorada.

“A incontinência urinária é um problema de saúde pública no mundo todo. Além de provocar uma mudança radical na rotina desses pacientes, leva ao distanciamento, problemas de depressão, isolamento e exclusão social”, explica Dr. Flavio Trigo, urologista, presidente da Sociedade Brasileira de Urologia de São Paulo, especialista em Incontinência Urinária do Hospital Sírio-Libanês e Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo.

Busca pelo tratamento é baixa

Em um estudo recente, realizado pela rede de farmácias Astellas Farma Brasil, foi possível constatar que mesmo sendo um problema que afeta muita gente, a procura por tratamento entre indivíduos com sintomas urinários é baixa no Brasil: 60% das mulheres e quase 70% dos homens não procuram tratamento, apesar de reconhecerem os sintomas.

Entre os características que indicam algo errado estão a urgência para urinar, o jato fraco, a necessidade de fazer força para urinar e a perda de urina involuntária . "Apesar de não termos levantado isso no estudo, a vivência clínica nos indica que a população em geral acaba acreditando que esse tipo de problema é natural do envelhecimento e descarta a possibilidade de tratamento, o que poderia ajudar a melhorar sua qualidade de vida", afirma o médico do Hospital das Clínicas, Cristiano Gomes, um dos investigadores que participaram da pesquisa.

No caso da aposentada, a busca por ajuda demorou, já que ela conta que se sentia muito envergonhada de dizer que não aguentava "segurar" a urina. "Foi bastante constrangedor contar ao meu filho sobre o que estava acontecendo. No começo eu escondi como pude, usava fralda ou absorvente íntimo escondido. Depois precisei contar a verdade porque estava ficando cada vez mais frequente", conta Cecília.

A pesquisa também mostra que quase metade das pessoas entrevistadas que relataram sintomas urinários, afirmam sentir incômodo significativo por conta da condição. "É sabido que os que sofrem com problemas do trato urinário podem ter que fazer mudanças nos comportamentos e hábitos sociais, além da perda de produtividade, " explica Gomes.

Para Cecília, as dificuldades causadas pelo problema a incomoda bastante, a ponto de atingir diretamente seus relacionamentos sociais. "Tenho vergonha de falar para as pessoas porque não posso sair para lugares muito distantes. Já deixei de fazer muita coisa por conta dessa condição", desabafa. A aposentada, que está prestes a fazer a cirurgia para acabar com a incontinência, conta que tentou alguns tratamentos, mas não foram eficazes.

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Quando pode acontecer?

Apesar de poder aparecer em qualquer fase da vida, a idade é um fator de risco importante. As chances de os sintomas aparecerem depois dos 70 anos é cinco vezes maior do que quando se tem entre 20 a 40 anos.

Porém, crianças também podem ter incontinência urinária, já que o controle completo da bexiga se estabelece até os 5 anos. Por isso, são frequentes as perdas de urina durante o sono, conhecidas como enurese. O problema, nesses casos, é transitório. Porém, se a criança apresentar os sintomas durante o dia e, com isso, infecções urinárias, um médico deve ser consultado com urgência.

Outro fatores que aumentam o risco de sofrer com esse mal são: diabetes, obesidade, doenças neurológicas e falta de estrógeno em mulheres.

Inclusive, elas são as mais atingidas pela condição. Além dos aspectos anatômicos, fatores como gestação, parto normal e menopausa podem colaborar para o problema entre o sexo feminino

Por ser provocada pelo desgaste e perda do tônus muscular na região pélvica, a doença pode ser dividida em incontinência de esforço, de urgência ou hiperatividade da bexiga.

Na mulher adulta, a incontinência urinária de esforço é a que mais apresenta incidência,  pois é nessa fase que se aumenta a pressão abdominal seja por conta de uma tosse crônica, obesidade, gravidez ou até mesmo cirurgias pélvicas, que resultam em enfraquecimento do esfíncter - um músculo que segura a urina e o assoalho pélvico.

No homem, embora o problema seja mais difícil de acontecer, acomete 5 a 10% daqueles que foram submetidos à cirurgia para retirada da próstata devido a um câncer. “Dos pacientes que operam, aproximadamente 20% ficam com algum grau de perda urinária, normalmente em pequenos volume.”, explica o presidente da Sociedade Brasileira de Urologia de São Paulo.

Existe solução

Quando o problema atinge apenas a qualidade de vida do paciente, o tratamento pode ser dispensado, caso o paciente não se sinta incomodado com a situação. Para minimizar desconfortos, há diversas opções de fraldas descartáveis que garantem segurança e evitam constrangimentos.

Mas, quando a incontinência urinária é uma manifestação de problemas mais graves, como infecções urinárias e até perda da função dos rins, o tratamento deve ser iniciado com urgência. Nesses casos, é preciso procurar um médico urologista, seja o paciente homem ou mulher.

As alternativas para recuperação são várias, mas também dependem da gravidade do problema e da causa da incontinência . Na maioria dos casos, são indicados procedimentos que não apresentam efeitos colaterais como mudanças comportamentais para evitar excesso de líquidos, realizar micções periodicamente, tratar obstipação e outras condições clínicas como obesidade e diabetes.

Desde 2014, novos tratamentos para a incontinência urinária foram incluídos no rol de procedimentos da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) como implante do esfíncter urinário artificial em homens que sofrem de incontinência urinária, após a remoção cirúrgica da próstata, toxina botulínica, neuromodulação e outros.

Já em casos em que a recuperação não acontece, recomenda-se o tratamento cirúrgico. Este tipo de procedimento pode ser realizado com o implante de slings, que funciona como um suporte que sustenta a uretra ou esfíncter artificial - válvula sintética que substitui o esfíncter original lesado na cirurgia.

Em casos de bexiga hiperativa, o tratamento é feito com medicamentos, fisioterapia e, em caso de falha (bexiga hiperativa refratária) com o uso de toxina botulínica e implante de um marca-passo da bexiga, chamado de neuromodulação sacral -, um dispositivo de estimulação elétrica da raiz nervosa responsável pelo controle da bexiga.

*Nome foi alterado para preservar a identidade da entrevistada.

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