Cantora queria falar que não convida pessoas que ela "tem ranço" para seu programa, mas acabou dizendo que não convida "gente hanseníase"; entenda o que é a condição por que organização pediu para que Anitta se retratasse

Em seu Facebook, cantora precisou se retratar:
Reprodução/Instagram/@anitta
Em seu Facebook, cantora precisou se retratar: "Gostaria de pedir desculpas por isso", escreveu Anitta

A cantora Anitta precisou se retratar em seu Facebook depois de confundir “ranço” com “hanseníase”. Em seu programa de televisão exibido pelo canal Multishow, que foi ao ar na última terça-feira (9), ela chegou a dizer que “só convido gente que eu amo, não convido gente hanseníase”, no lugar de “gente que tenho ranço”, conforme se explicou depois.

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A gafe gerou uma petição no site “Change.org” por parte do Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan) pedindo que Anitta se desculpasse. No texto escrito pela entidade, o órgão fala que a cada ano, 35 mil novos casos da doença são identificados e por isso a desinformação pode ser bastante prejudicial.

"Essa altíssima incidência em nada é culpa das pessoas atingidas pela hanseníase: é o descaso do poder público, falta de informação e vontade política de resolver a questão e condições de vulnerabilidade social os principais fatores para que ela continue se propagando, mesmo tento cura e tratamento gratuito pelo SUS”, escreveu o Morhan na nota.

Anitta , portanto, ao se desculpar, fala que a condição “é coisa séria” e que se expressou mal e “gostaria de pedir desculpas por isso”.

Mas, afinal, o que é hanseníase?

Quando não há tratamento, a hanseníase atinge a pele e nervos periféricos, podendo causar incapacidade física
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Quando não há tratamento, a hanseníase atinge a pele e nervos periféricos, podendo causar incapacidade física

Doença infecciosa crônica e transmissível, a hanseníase já foi chamada de lepra , e é uma enfermidade que afeta principalmente a pele, os olhos, o nariz e os nervos periféricos.

Causada pela bactéria Mycobacterium leprae, a transmissão é feita de uma pessoa doente para outra. O contato precisa ser próximo e prolongado, o que coloca em risco familiares ou pessoas que moram junto com o paciente, por exemplo.

Como a doença atinge a pele e nervos, se não tratada precocemente pode causar incapacidade e deformidades físicas. O principal sintoma são manchas em qualquer parte do corpo, principalmente com alteração de sensibilidade ao calor e ao toque, mas também pode haver alteração nos nervos periféricos, na mucosa do trato respiratório superior e nos olhos.

O Ministério da Saúde recomenda que as pessoas procurem um serviço de saúde, no caso de aparecimento de manchas de qualquer cor, em qualquer parte do corpo, sobretudo se a mancha apresentar diminuição de sensibilidade ao calor e ao toque.

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Preconceito

Conhecida como uma das doenças mais antigas do mundo, a lepra já era citada na Bíblia como uma “praga”.  As referências mais remotas datam de 600 a.C. e procedem da Ásia, que, juntamente com a África, são consideradas o berço da hanseníase.

A falta de informação fez com as pessoas com a condição fossem isoladas da sociedade e, até hoje, o preconceito perdura.

Além de gerar sequelas que, muitas vezes evoluem para deformidades físicas, a doença causa incapacidades que vão além das questões físicas, incluindo limitações de atividades, estigma, discriminação e restrição à participação social.

Por ser causada pelo bacilo transmissor Mycobacterium leprae, sua transmissão ocorre através do contato direto com doentes sem tratamento, que eliminam os bacilos através do aparelho respiratório superior em meio as secreções nasais e gotículas da fala, tosse e espirro.

Um fator que aumenta o preconceito é a incidência da doença, que é mais comum em populações de baixa renda, desprovidas de condições adequadas de moradia, trabalho e transporte, aspectos que tendem a contribuir para a disseminação do bacilo.

No entanto, é preciso ressaltar que há tratamento e cura para hanseníase. Inclusive, após iniciado o processo médico para tratar a condição, o paciente deixa de transmitir a doença quase que imediatamente.

O tratamento é feito com um combinado de medicamentos antibióticos, além de reabilitação física e psicossocial nos casos mais graves. Existem medicamentos diferentes, utilizados de acordo com o grau e a forma da doença e todos são distribuídos gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde. O processo pode durar de seis meses a dois anos, dependendo do estágio e forma da doença, e deve ser feito até o final, conforme orientação médica.

Taxa de detecção diminuiu

Em dez anos, o Brasil conseguiu diminuir em 42,3% a taxa de detecção geral de hanseníase no País. No entanto, mesmo com um índice menor do que em 2007, foram registrados 25.218 novos casos da enfermidade em 2016, número que ainda é considerado de alta endemicidade, fazendo com que a doença ainda seja encarada como um problema de saúde pública.

Em 2007 a taxa de detecção da doença era de 21,19 casos por 100 mil habitantes, e passou para 12,23 casos por 100 mil habitantes, em 2016. As informações são do último boletim epidemiológico da patologia, com dados de 2007 a 2017, divulgado no fim de janeiro deste ano.

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