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Praticar uma atividade ou hobby pode ajudar na retomada do prazer do indivíduo deprimido; saiba como ajudar quem enfrenta essa doença

Tia Sol é conhecida por fazer cosplay de diversos desenhos e filmes, como esse da Muriel, do Coragem, o Cão Covarde
Reprodução/Facebook
Tia Sol é conhecida por fazer cosplay de diversos desenhos e filmes, como esse da Muriel, do Coragem, o Cão Covarde

Quem vê as fotos da Tia Sol sorrindo e se divertindo com os cosplays que faz e compartilha com os mais de 70 mil seguidores em sua  página no Facebook não imagina que essa mesma mulher sofreu de depressão e só conseguiu se ver livre da doença quando decidiu se dedicar ao novo hobby.

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Em um desabafo na rede social, Solange, que é de Manaus, contou como sua vida foi transformada depois que decidiu aceitar o desafio de uma amiga para fazer cosplay. “Posso dizer com toda certeza que o cosplay me salvou. Consegui sair da depressão e, se não ficasse chato, toda hora postaria uma foto sorrindo”, escreveu ela em sua página oficial, onde divide diversas fotos em que aparece vestida como personagens de desenhos e filmes.

Um dos primeiros cosplays feito por Tia Sol, a Vovó do Piu-Piu foi o primeiro passo para superar a depressão
Reprodução/Facebook
Um dos primeiros cosplays feito por Tia Sol, a Vovó do Piu-Piu foi o primeiro passo para superar a depressão

A publicação fez com que ela ganhasse ainda mais admiradores na internet. Com mais de 40 mil reações e 20 mil compartilhamentos, ela conta sobre como a condição afetava sua autoestima. “Nunca tinha coragem de tirar fotos minhas, pois me achava feia, não gostava da minha aparência, nem no espelho me olhava por conta de uma depressão”.


O depoimento abriu uma discussão sobre a quantidade de pessoas que se identificam com a situação vivida pela cosplayer. “Que fofa! Ai meu Deus me emocionei aqui. Tenho depressão e tantas vezes bate um desânimo e aquela vontade horrível de parar de fazer a minha arte (sou drag queen). Mas é graças a pessoas como você que lembro que é a minha arte que leva sorrisos a outras pessoas e a mim mesmo. Obrigado por esse exemplo, boa semana, Tia Sol”, escreveu um seguidor.

“Eu comecei a fazer cosplay precisamente para ocupar a cabeça em um momento muito complicado da minha vida. O processo de criação é o meu anti stress, o meu antidepressivo”, publicou outro.

A página
Reprodução/Facebook
A página "Tia Sol" já tem mais de 75 mil seguidores no Facebook

No entanto, essas pessoas não estão sozinhas. De acordo com os últimos dados da Organização Mundial da Saúde, 322 milhões de homens e mulheres em todo o mundo sofrem de depressão. O número cresceu 18% em dez anos, e corresponde a 4,4% da população global.

No Brasil, o índice da condição é o maior de toda a América Latina e a média brasileira supera as taxas mundiais.

Diferente de flutuações habituais de humor e respostas emocionais de curta duração aos desafios da vida cotidiana, o transtorno de humor, quando de longa duração e com intensidade moderada ou severa, pode se tornar um sério problema de saúde.

A OMS reforça que depressão é a doença que mais contribui com a incapacidade no mundo, e a principal causa de morte por suicídio.

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Como identificar a depressão?

O psicólogo e doutor em neurociência do comportamento Yuri Busin, que também é Diretor do Centro de Atenção à Saúde Mental - Equilíbrio (CASME), ressalta que é preciso saber separar a condição de tristeza.

“É natural com que a gente fique triste em alguns momentos da nossa vida, a diferença é que na depressão, a tristeza, a falta de prazer e vontade permanecem durante um longo período de tempo, e não somente dois dias”, exemplificou.

Mesmo assim, não é apenas um sintoma que vai determinar se a pessoa sofre ou não com o transtorno. Busin explica que o diagnóstico é complexo e só quem pode fazê-lo são os psiquiatras. “Na verdade, o que os psicólogos podem formular são hipóteses diagnósticas, por isso nós trabalhamos muito em conjunto com os psiquiatras”.

Depressão tem cura?

'Se não ficasse chato, postaria toda hora uma foto sorrindo', escreveu ela em sua página no Facebook
Reprodução/Facebook
'Se não ficasse chato, postaria toda hora uma foto sorrindo', escreveu ela em sua página no Facebook

Felizmente, a  depressão tem cura. No caso da Tia Sol , o cosplay foi um grande aliado para que ela conseguisse superar a doença. Isso porque o prazer em realizar uma atividade que dá ânimo é muito importante para o tratamento do transtorno.

“Quando a pessoa está deprimida ela não consegue mais sentir vontade nem prazer em nada, e praticar um hobby está ligado à retomada de algo que tem uma importância específica para aquele indivíduo, o que ajuda no tratamento da condição”, analisa Busin.

No entanto, o acompanhamento médico é indispensável para que a cura seja efetiva. Em alguns casos mais graves, é necessário o intervenção medicamentosa. Além disso, outras atividades que ajudam na recuperação do prazer colaboram para que o tratamento tenha sucesso, como praticar algum esporte e ter um animal de estimação, por exemplo.

“Quando a depressão é muito grave a pessoa não consegue sair da cama, comer, tomar banho, etc. Inserir uma nova dinâmica dentro da vida dessa pessoa pode ser extremamente benéfico, mas não quer dizer que somente o hobby vai fazer com que ela fique melhor. Tudo depende de um conjunto de mudanças”, disse. “O tratamento não é mágico e nem rápido” completou o psicólogo.

Como ajudar?

Muitas vezes o termo que denomina o transtorno é banalizado. A dificuldade da sociedade em compreender que não se trata de uma “frescura”, que não é um problema simples de se resolver torna a situação de quem sofre com a condição ainda mais complicada.

Segundo o especialista, a melhor forma de ajudar quem está passando por um quadro de depressão é não julgar suas atitudes e auxiliar a pessoa a buscar ajuda profissional. “Recomendo que quem está de fora não tente resolver a situação sozinho, porque muitas vezes isso não será possível, e então quem está tentando ajudar vai se frustrar, se irritar”, disse.

Em momentos de tristeza e desânimo desabafar pode ser uma saída para quem está sofrendo com a doença. No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece ajuda para quem procura apoio emocional e atua na prevenção do suicídio em todo o país.

Além de falar, a pessoa pode escrever um e-mail e até mesmo participar de uma conversa on-line. Quem liga para o CVV, pelo telefone 141, é atendido por um voluntário, que ouve tudo o que a pessoa tem a dizer, conversa e dá o apoio. Não é preciso se identificar e o telefone não fica registrado.

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