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Por ser uma doença rara e desconhecida pela população, o mieloma múltiplo demora para ser diagnosticado, o que compromete a saúde do paciente

Pacientes com mieloma múltiplo apresentam dor ou lesões nos ossos em até 90% dos casos, explica hematologista
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Pacientes com mieloma múltiplo apresentam dor ou lesões nos ossos em até 90% dos casos, explica hematologista

Desconforto abdominal, dor nas pernas, anemia, perda de peso e cansaço. Esses foram os sintomas que a professora de inglês aposentada Nice Madureira, de 52 anos, sentiu antes de ser diagnosticada com mieloma múltiplo .

O diagnóstico de mieloma múltiplo aconteceu enquanto Nice fazia tratamento para engravidar, segundo conta à reportagem do iG . “Meu ginecologista sugeriu uma miomectomia, pois um mioma poderia estar impedindo a fertilidade. Após a cirurgia, fiquei com anemia e a hemoglobina não normalizou, mesmo tomando remédio à base de ferro”, declara.

Diante dessa situação, ela foi encaminhada para um hematologista e, após três meses, na segunda rodada de exames, veio a descoberta da condição. “Quando uma pessoa descobre a doença, muitas vezes, os rins já estão comprometidos ou já apresenta sérios problemas nos ossos”, relata.

O que é o mieloma múltiplo?

O mieloma múltiplo é um tipo de câncer hematológico, referente a uma célula chamada de plasmócitos. “Estas são as células presentes em nossa medula óssea, e cada clone produz anticorpo específico contra algum agente ou alteração no nosso corpo. Por algum motivo, um clone se desregula e se converte em um câncer”, explica o Dr. Edvan Crusoé,  hematologista do Hospital Universitário Professor Edgard Santos.

A demora no diagnóstico é um dos grandes problemas da doença. Por ter sinais parecidos com outras condições, ser raro e desconhecido por grande parte da população, o tratamento, muitas vezes, começa a ser feito quando a saúde do portador já está mais comprometida.

Sem uma causa definida, é importante prestar atenção nos sintomas . “Os pacientes invariavelmente poderão apresentar dores ósseas e ou lesões ósseas de 80% a 90% dos casos”, estima o especialista. Além disso, podem ocorrer fraqueza, indisposição, perda de capacidade física, tontura, palidez, insuficiência renal e anemia.

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Tratamento da doença

A quimioterapia faz parte do tratamento dos portadores da doença, diagnosticada pelo exame eletroforese de proteínas
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A quimioterapia faz parte do tratamento dos portadores da doença, diagnosticada pelo exame eletroforese de proteínas


O hematologista explica que os pacientes serão tratados com agentes quimioterápicos, mas, antes, serão categorizados em dois grupos, geralmente definidos por suas condições físicas e idade. “Isso será determinado com a avaliação médica, para saber se o paciente fará o que chamamos de quimioterapia em altas doses – o transplante de medula óssea, ou se seguirá em tratamento quimioterápico convencional”, diz.

No caso de Nice, ela precisou passar por altas doses de quimioterapia e, apesar de os rins estarem comprometidos, não foi necessário realizar diálise, pois eles foram melhorando gradativamente. Com isso, passou pelo primeiro autotransplante, feito com as células do próprio paciente, sem a necessidade de doador, que durou oito anos sem tratamento.

“Após o período de remissão, em 2017, a doença estava presente novamente. A médica decidiu entrar com tratamento, pois o aumento das células plasmáticas poderia afetar meus rins mais uma vez. Tratei com quimioterapia e, no final do ano passado, fiz o segundo autotransplante”, conta a aposentada que, hoje, diz se sentir bem, sem muitos efeitos colaterais.

Como diagnosticar a doença?

O mieloma múltiplo é detectado por meio de um exame conhecido como eletroforese de proteínas, que permite a separação das proteínas presentes no soro – um dos componentes do sangue – através da aplicação de um campo elétrico na amostra.

“Como as proteínas possuem tamanhos e cargas elétricas diferentes, elas 'migram', ou seja, apresentam mobilidades diferentes. Através da análise dos padrões de migração, é possível verificar se há presença de proteínas anormais”, explica o Dr. Gustavo Loureiro, assessor médico de Hospitais e Bioquímica Clínica do Grupo Fleury.

“É muito importante que este exame seja divulgado”, defende Nice, que não chegou a realizá-lo. “Como não é de rotina, o hematologista não pediu na primeira rodada e nem na segunda. Ele não suspeitava que fosse mieloma – e achava que poderia ser reumatismo e, como eu estava com a hemoglobina muito baixa, disse que iria afunilar a pesquisa, pedindo um mielograma. E foi através dele que veio o diagnóstico”, detalha.

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O mais importante é que, quanto mais cedo o mieloma múltiplo for detectado, maior a chance do paciente viver sem sequelas. “Necessitamos de maior atenção da classe médica e da população para, nas avaliações periódicas de consultas, sugerir a avaliação das proteínas no sangue. Exame simples que poderá identificar alterações silenciosas no nosso corpo”, finaliza o Dr. Crusoé.

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