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Nada de frescura! A misofonia afeta 3% de toda a população mundial e deve ser tratada com seriedade pela sociedade e profissionais de saúde; conheça os sintomas, os tratamentos disponíveis e ouça alguns sons que incomodam

Já ouviu falar? Misofonia é a aversão a sons de volume baixo e repetitivos; conheça a condição, os sintomas e as causas
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Já ouviu falar? Misofonia é a aversão a sons de volume baixo e repetitivos; conheça a condição, os sintomas e as causas

Já imaginou ficar incomodado com o som de alguém digitando no teclado, mascando chiclete e assoando o nariz? A princípio, pode até parecer algo banal – porém, quem sofre com misofonia sabe o quanto esses barulhos, frequentes no dia a dia de tantas pessoas, são perturbadores e causam reações emocionais negativas, como raiva, ódio e irritação .

A misofonia é a aversão intensa a sons de volume baixo e repetitivos e afeta 3% de toda a população mundial, segundo uma pesquisa da University of British Columbia , no Canadá. Em entrevista à reportagem do iG , a estudante Lívia*, de 21 anos, conta como descobriu a condição, há seis anos. “Ficava muito incomodada com sons de mastigação. Pesquisei na internet sobre o que sentia e me identifiquei”, diz.

Os sintomas do problema, geralmente, começam na infância ou na adolescência. No caso da jovem, os gatilhos que a levam ao desespero – como roer a unha, umedecer os lábios, arrastar talheres e respiração alta – foram aumentando com o passar do tempo. “Sinto repulsa ao som. Um misto de raiva e desespero. Quando acontece, não consigo me concentrar em outras coisas. Preciso que a pessoa pare ou, caso contrário, entro em pânico”, descreve.

Por que a misofonia acontece?

A otorrinolaringologista Tanit Ganz Sanchez explica que todos os sons que ouvimos são conduzidos até o cérebro para serem analisados e entendidos. Eles passam por várias estações até chegarem no córtex auditivo, que é a região final desse caminho.

Conforme explica a especialista, por ser uma descoberta recente, pesquisas estão sendo realizadas para mais revelações. Entretanto, até o momento, sabe-se que as pessoas com misofonia possuem duas áreas cerebrais - o sistema límbico e o córtex pré-frontal - mais ativadas durante a passagem dos sons que são feitos com o nariz, a mão, a boca e os pés.

Dessa forma, as conexões cerebrais extra-ativadas são capazes de provocar o reflexo imediato da reação forte e desproporcional a esses sons. “Isso faz com que os misofonicos não consigam se concentrar, pois prestam mais atenção aos sons que são irrelevantes e, assim, não conseguem ignorá-los como as outras pessoas”, expõe a especialista.

As pesquisadoras Tanit e Fúlvia Eduarda da Silva, fonoaudióloga e mestre pela Universidade de São Paulo, avaliaram 15 membros de três gerações de uma mesma família, de nove a 73 anos, com sintomas de misofonia. Desse total, 12 pessoas responderam um questionário capaz de investigar os sintomas, os sons de gatilho, os sentimentos e as atitudes adotadas por cada um deles.

Os resultados indicaram que os entrevistados apresentavam irritabilidade, ansiedade e raiva em relação aos sons. Quando passam por essas situações, eles pedem para cessar o barulho, deixam o local em que ele ocorre e, ainda, podem discutir com outras pessoas.

O estudo, publicado no Brazilian Journal of Otorhinolaryngology , detectou que dez membros desenvolveram os primeiros sinais durante a infância ou a adolescência. Além disso, mostrou que os sintomas relacionados foram ansiedade, zumbido, transtorno obsessivo-compulsivo, depressão e hipersensibilidade aos sons.

De acordo com as autoras, a alta incidência da condição no grupo estudado sugere que ela pode ser mais comum que o esperado e favorece a possibilidade de ser hereditária. “Conhecer essa família nos ajudou a entender que a misofonia pode ser genética, mas novas pesquisa são necessárias. Ainda não dá para descartar que ela pode ser “aprendida” pela convivência dos filhos com os pais afetados”, explica Tanit.

Quando é hora de procurar ajuda médica?

A misofonia pode ser dividida em leve, moderada ou grave, de acordo com o impacto dos sintomas na qualidade de vida do paciente. Ela pode acometer ambos os sexos e não está relacionada com a idade do portador. A gravidade dos efeitos gerados pelos barulhos é analisada por meio de um questionário específico aplicado por um profissional.  

Além da aversão aos sons, Jeanne Oiticica, otorrinolaringologista e chefe do Grupo de Pesquisa em Zumbido do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, explica que a condição pode vir acompanhada de respostas comportamentais e reações que possuem o intuito de evitar ou escapar do estímulo desencadeante.

“Alguns afetados evitam fazer refeições com seus familiares ou frequentar cafeterias e lugares onde outras pessoas geralmente vão para comer. O uso de abafadores,  fones de ouvido e ventiladores elétricos para mascarar o som aversivo também é relatado”, detalha a especialista.

De acordo com a gravidade, os portadores podem ir além e largar o trabalho para evitar as situações de gatilho da angústia. “Eles podem se isolar socialmente e no meio familiar. Alguns podem ser verbalmente agressivos, como acontece em 29% dos casos, ou partir para a agressão física, em 17% dos casos, à pessoa provocadora do som aversivo", diz  Jeanne.

Além disso, a condição ainda mexe com a autoestima e a vida social de quem a possui. “É uma batalha todo dia para suportar os barulhos dos outros fingindo que nada está acontecendo. Então, muitas vezes, escolho ficar só. É desmotivador viver em sociedade. Na aula, não tenho foco e a produtividade cai. Não consigo manter o bom humor e acabo me isolando e evitando inconscientemente as situações em que me sentirei mal”, relata a estudante Lívia*.

Por causa de tudo isso, quando o problema começa a atrapalhar a vida do misofonico e ele se sente preparado, é recomendado procurar ajuda médica, que poderá traçar um diagnóstico  baseado na história clínica do paciente. “Não existem exames complementares específicos. Podem-se usar ainda questionários com o intuito de mensurar a severidade do quadro e acompanhar a evolução durante o seguimento clínico”, explica Jeanne.

A condição precisa ser tratada com seriedade, mas, muitas vezes, é vista com descaso por quem a desconhece e até mesmo por profissionais de saúde. Lívia* relata que, certa vez, um psicólogo disse na frente de sua mãe que o que ela sentia era ‘frescura’ e só queria chamar atenção. “Um profissional fazendo descaso do que eu sentia me deixou muito abalada.  Só que continuei a procurar ajuda e encontrei o oposto”, desabafa.

Formas de tratamento

A Terapia de Habituação é uma das possibilidade de tratar a patologia e inclui orientação, aconselhamento e terapia sonora. “O objetivo é tornar o afetado pela misofonia menos sensível ou reativo aos sons que são gatilhos do fenômeno ou comportamento”, explica Jeanne.

Outra alternativa é a Terapia Cognitiva Comportamental, que usa a psicoterapia para mudar a forma de pensar e reagir ao estímulo sonoro aversivo. A meditação também é bem-vinda , pois ajuda a aliviar o estresse.

Além disso, é possível adotar o tratamento com remédios, como foi o caso da estudante, que usou calmantes. “Alguns psiquiatras usam medicamentos para os sintomas coadjuvantes como ansiedade, fobia e transtorno obsessivo-compulsivo”, expõe a otorrinolaringologista Tanit.

Sons que mais incomodam

O som da mastigação é um dos que mais incomoda e irrita quem sofre com o problema
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O som da mastigação é um dos que mais incomoda e irrita quem sofre com o problema


Esses barulhos estão presentes no dia a dia e, muitas vezes, é difícil evitá-los. A lista dos sons que causam reação emocional negativa, forte, rápida, incontrolável e desproporcional aos misofonicos vai além da fobia dos barulhos de mastigação . Os principais são:

  • Mastigar
  • Mascar chiclete
  • Tossir
  • Assobiar
  • Umedecer o lábio
  • Roer a unha
  • Respiração ofegante
  • Assoar o nariz
  • Roncar
  • Digitar
  • Clicar a caneta
  • Usar talheres
  • Mexer em chaves
  • Abrir papel de bala
  • Arrastar chinelo
  • Andar de salto alto

Ouça alguns:


Ouviu? Esses ruídos são exemplos dos considerados insuportáveis  por quem sofre de misofonia e, por isso, os portadores pedem mais compreensão por parte dos amigos e familiares. “Parece frescura, mas a gente sofre muito e pode, inclusive, trazer outros problemas, como ansiedade e  depressão. É como o efeito borboleta: um barulhinho aqui ou ali pode causar algo bem grande”, finaliza a estudante.

*Nome fictício; fonte não quis se identificar

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