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Evolução do quadro depende da gravidade da lesão e da forma como o cérebro foi cuidado e exigido antes do incidente

Jurandir Souza Barbosa concentrado durante o jogo de realidade virtual. Ferramenta ajuda a manter o braço lesionado ativo
Alexandre Carvalho/ Fotoarena
Jurandir Souza Barbosa concentrado durante o jogo de realidade virtual. Ferramenta ajuda a manter o braço lesionado ativo
Enquanto lavava o carro em um domingo de sol, em julho de 2008, Jurandir Souza Barbosa teve um mal-estar súbito e gritou por socorro. Minutos depois, tinha perdido a fala, estava com o rosto deformado e não conseguia movimentar a perna direita.

Carmelita, mulher de Jurandir, era funcionária da área administrativa de um hospital e sabia facilmente reconhecer aqueles sintomas. Hipertenso, o aposentado, aos 50 anos, tinha sofrido um Acidente Vascular Cerebral Hemorrágico, o mesmo tipo que afastou o ex-técnico do Vasco, Ricardo Gomes, dos gramados.

Entenda: Prevenção, causas e tratamento do AVC

Depois de passar por uma cirurgia e ficar semanas na Unidade de Terapia Intensiva, Jurandir teve alta do hospital e voltou para casa sem conseguir falar e com pouquíssimos movimentos recuperados. Felizmente para ele e para outros tantos afetados pelo mesmo problema, a reabilitação em casos de AVC evoluiu muito e hoje propicia avanços, maiores ou menores, dependendo da extensão do dano ao cérebro . Nos últimos três anos, o ex-analista de faturamento destinou sua rotina a lutar por esses avanços. Fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e fisiatras formam a equipe multidisciplinar responsável por dar suporte ao objetivo de Barbosa na segunda fase do AVC.

Primeiro tempo

O trabalho começa após a estabilidade clínica do paciente e não tem dia ou hora para terminar. Nos três primeiros meses após o AVC, os ganhos são ascendentes e minimizam as sequelas. Por isso, é fundamental o atendimento intensivo nesse período, explica Liliana Jorge, médica fisiatra do Centro de Reabilitação Lucy Montoro, instituição de atendimento público, ligada ao Hospital das Clínicas de São Paulo.

“O melhor momento é quando as vias motoras ainda estão em recuperação e o cérebro ainda não cicatrizou”, explica.

O papel da equipe multidisciplinar é fazer com que o paciente ande, fale e se movimente de alguma forma. “Se vai ser com a ajuda de muletas ou andador, não sabemos. Exploramos o máximo de potencial da parte do cérebro que não foi afetada para que ele retome as principais atividades, não importa como”, diz a especialista.

A reabilitação não trabalha pela cura, mas com a possibilidade dela. A evolução varia conforme a gravidade da lesão e do quanto o cérebro foi estimulado e cuidado antes do acidente.

Conhecimento de outros idiomas, nível de escolaridade, uso de álcool e drogas pautam o trabalho dos médicos e a possibilidade de recuperação. Estudos recentes também apontam que a atividade física feita com regularidade ao longo da vida tem valor preventivo após a lesão.

“Todos esses fatores interferem no tecido cerebral. Quanto mais estimulado for, maior a possibilidade da área saudável assumir o papel da região afetada pelo AVC. Tudo depende de estímulos, antes e após o problema.”

Ataque ou defesa?

A reabilitação se molda ao histórico dos pacientes e às necessidades de cada um. Exerce um papel primordial na melhoria da qualidade de vida e da independência, embora esteja quase sempre abaixo das expectativas dos familiares e dos próprios doentes. A reabilitação atua, principalmente, contra a piora do quadro.

“O início é sempre complicado. As pessoas chegam ao centro de reabilitação cobrando, pedindo para voltar a andar e a falar. Querem recuperar a vida que tinham antes do incidente”, explica Maristela Costa, chefe do departamento de fisiatria do Hospital Sírio Libanês.

Jurandir ainda fala com dificuldades, mas entende tudo. Hoje, anda com ajuda de uma bengala, mas consegue fazer as tarefas do dia a dia sozinho. São ganhos aparentemente pequenos para quem espera retomar a vida sem traumas ou deficiências, mas enormes do ponto de vista médico.

Torcida

Para quem vive como espectador da melhora alheia, enxergar o processo evolutivo requer um exercício de memória. Carmelita explica que quando se lembra do estado em que o marido estava após deixar o hospital, consegue reconhecer a importância da reabilitação.

“Os médicos diziam que ele permaneceria na cama para o resto da vida. Foi assustador. Quem convive pouco ou menos fica até admirado, acha incrível o quão bem ele está hoje. Mas para mim é complicado, pois vivo junto essa recuperação e no dia a dia e ela me parece lenta, embora eu saiba que ele está 70% melhor.”

Equilibrar as emoções dos familiares também é papel da equipe. Muitos dos exercícios aplicados nos grandes centros de reabilitação devem ser refeitos em casa. “Cuidadores e parentes precisam acreditar para estimular. Esse apoio potencializa a eficácia do tratamento”, explica Maristela.

Novas tecnologias

Os jogos em realidade virtual ajudam a manter os pacientes mais concentrados. O ambiente lúdico facilita a interação e motiva, afirma Thais Terranova, coordenadora da Terapia Ocupacional do Cento de Reabilitação Lucy Montoro.

Entretanto, não ainda não existem trabalhos científicos que supervalorizem as novas tecnologias. Por ora, elas entram para somar e oferecer diferentes alternativas. “O resultado motivacional é maior, mas a técnica é muito similar”, esclarece a especialista.

Equipamentos robustos, porém, não substituem atividades simples e fundamentais para quem está em processo de superação do AVC. Cabe à terapia ocupacional ensinar os cuidados básicos: alimentar-se sozinho, tomar banho, vestir a roupa.

Nos centros de reabilitação, o que é habito para a maioria, transforma-se em exercício. São utilizadas escalas que avaliam a rapidez e a facilidade para desenvolver tais tarefas.

Os departamentos de fisioterapia também ganharam máquinas que simulam a marcha e ajudam os pacientes a recuperar o movimento das pernas. Eles oferecem resistência para estimular o aprendizado e também fazem o movimento pela pessoa.

Viviane Carolina Sales, fisioterapeuta da rede pública, explica que a ferramenta é melhor aceita pelos pacientes. Os exercícios mais simples parecem bobos e acabam sendo pouco atrativos, embora os resultados sejam os mesmos.

“Após o AVC, é comum perder a força muscular, sofrer alterações de sensibilidade, equilíbrio. A fisioterapia trabalha o reaprendizado. Ela precisa ser feita logo no começo da recuperação para evitar deformidades e impedir que fiquem mais imóveis e acamados.”

Dependendo do lado em que foi a lesão, o paciente deixa de sentir a existência daquela região. “Muitas vezes conseguimos reverter, e quanto antes melhor, pois o paciente não tem vícios, posturas inadequadas.”

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