Minha Saúde

enhanced by Google
 

Casos de Alzheimer podem dobrar com novas diretrizes da doença

Inclusão de enfraquecimento cognitivo leve como um estágio da doença pode aumentar o número de diagnósticos

The New York Times | 19/04/2011 18:58

Compartilhar:

A primeira revisão em 27 anos das diretrizes para o diagnóstico do Alzheimer pode dobrar o número de casos da doença que degenera o cérebro.

Lançadas nesta terça-feira (19/4) pela Associação Americana do Alzheimer em parceria com o Instituto Nacional do Envelhecimento dos Estados Unidos, as novas diretrizes diferem em dois pontos importantes em relação às anteriores, que vêm sendo usadas desde 1984.

Leia: Um drama chamado Alzheimer

Primeiramente, o Alzheimer agora será identificado como uma sucessão de estágios: a doença em si, com sintomas evidentes; o enfraquecimento cognitivo leve com sintomas brandos; e ainda o estágio pré-clínico, quando os sintomas são inexistentes, mas podem já estar ocorrendo alterações cerebrais identificáveis.

Em segundo, as novas diretrizes incorporam o uso dos chamados biomarcadores – como o nível de determinadas proteínas presentes no sangue ou no líquido da medula – para realizar o diagnóstico e avaliação da doença, neste caso, para uso quase que exclusivamente de pesquisadores.

Porém, os autores das diretrizes enfatizam: é improvável que a nova revisão altere o que já acontece nos consultórios médicos durante o diagnóstico do Alzheimer ou dos estágios anteriores à doença.

“A prática não será alterada”, disse Guy M. McKhann, um dos autores das diretrizes.

Entretanto, com as mudanças, o enfraquecimento cognitivo leve se torna um novo diagnóstico. E isso pode significar que o número de pessoas identificadas em um dos novos estágios do Alzheimer pode dobrar, disse Marilyn Albert, diretora da divisão de neurociência cognitiva da Universidade Johns Hopkins e também autora das revisões. Mas, diz a médica, a forma como o enfraquecimento cognitivo leve é determinada não irá mudar.

As novas diretrizes para o Alzheimer agora identificam três estágios claros da doença. O primeiro, e mais severo, é a demência, quando o paciente mostra claramente o enfraquecimento cognitivo e funcional. Isto deve ser caracterizado não somente pela perda de memória, mas também por problemas de visão, espaço e raciocínio.

Leia: Mortes por Alzheimer crescem 5 vezes em 10 anos

As novas diretrizes também traçam uma distinção clara entre a demência do Alzheimer e a demência vascular (como aquela causada por um AVC), disse McKhann. O diagnóstico continua sendo feito pelo médico, com a ajuda de alguém que conheça o paciente e talvez vice-versa, mas os biomarcadores podem ser considerados “para aumentar a certeza sobre o diagnóstico”, disse McKhann, professor de neurologia e neurociência da Universidade Johns Hopkins.

Outro estágio, o enfraquecimento cognitivo leve, pode representar uma fase inicial de demência que consiste em debilidades mais modestas, principalmente de memória, que podem ser um indicador de futura ocorrência de um Alzheimer devastador. No campo da pesquisa, investigadores irão trabalhar em direção à padronização de biomarcadores que indiquem, por exemplo, a presença da proteína amilóide ou de algum dano neural no cérebro.

Mas, por enquanto, Albert afirma que a forma de diagnosticar a doença “será extremamente semelhante ao que vem sendo feito nos últimos 10 anos”. Ele complementou que um número enorme de indivíduos diagnosticados com enfraquecimento cognitivo leve acaba desenvolvendo Alzheimer.

“Idosos com enfraquecimento cognitivo leve progridem para a demência em níveis mais altos do que aqueles que não apresentam quaisquer debilidades, mas a progressão não é inevitável”, informa a associação americana em sua descrição do enfraquecimento cognitivo leve.

“Nem todas as pessoas diagnosticadas com enfraquecimento cognitivo leve desenvolvem Alzheimer”, informa a associação.

A categoria pré-clínica foi formulada apenas para propósitos de pesquisa, ou seja, para o estudo de biomarcadores que podem estar presentes no cérebro ou no líquido cefalorraquidiano, ou ainda evidente em diferentes tipos de testes de imagem que indicariam a formação de uma placa amilóide ou de danos a células nervosas.

“O principal ponto conceitual foi definir o Alzheimer com base nas alterações cerebrais silenciosas, ao invés de apenas focar nos sintomas clínicos”, disse Reisa A. Sperling, neurologista do Brigham and Women’s Hospital e professora de neurologia da Escola de Medicina da Harvard.

“Acreditávamos que nossa melhor chance de tratamento para modificação da doença seria detectando evidências do Alzheimer e intervindo o quanto antes”, ela complementou.

McKhann ressalta que, assim como no caso de câncer e diabetes, realizar tratamentos “apenas em pessoas com demência avançada, diminui muito as chances de que os mesmos funcionem”.

“Nossa preocupação é que possam existir por aí medicamentos com muitos benefícios, mas que talvez estejam sendo usados tarde demais na evolução da doença”, complementou Albert.

William Thies, chefe do departamento médico e científico da associação, resumiu a nova revisão: “As novas diretrizes resultarão em pouquíssimas mudanças na prática clínica atual utilizada no Alzheimer... Entretanto, os novos critérios estão realmente abrindo o leque de habilidades para investigarmos a doenças e eventualmente encontrarmos tratamentos que serão cruciais para evitar a epidemia do Alzheimer que estamos enfrentando”.

As novas diretrizes estão incluídas em quatro artigos publicados na revista científica Alzheimer’s & Dementia: The Journal of the Alzheimer’s Association.

* Por Amanda Gardner

 Continue lendo: Risco de Alzheimer é maior quando mãe já teve a doença
 

    Notícias Relacionadas


    Ver de novo