Geneticistas investigam como poluição, estresse e traumas físicos afetam o corpo e de que forma isso é repassado a outras gerações

DNA: estilo de vida levado hoje pode afetar gerações futuras
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DNA: estilo de vida levado hoje pode afetar gerações futuras
Uma nova direção foi dada ao debate clássico sobre se a forma como uma criança é criada pode alterar a natureza genética dela e de seus descendentes.

Pesquisadores da epigenética, um campo de genética, investigam como fatores ambientais – como poluição, estresse e traumas físicos – podem afetar a maneira como o código genético de uma pessoa é expresso através do desenvolvimento físico e emocional dela.

Veja: O mapa dos genes

“Muitas décadas atrás, víamos os genes como um circuito planejado para o desenvolvimento e funcionamento do corpo”, disse Steven Dowshen, editor-chefe do periódico KidsHealth, publicado pelo Nemours Center for Children’s Health Media, e endocrinologista pediatra do Hospital Infantil Alfred I. duPont Hospital, de Delaware.

“Este ainda é o caso. Entretanto, até conhecermos melhor o conceito de epigenética, não conseguíamos entender como fatores ambientais podem alterar a forma como estes genes funcionam”.

Médicos estudiosos da epigenética também encontraram evidências de que o ambiente onde vive determinado indivíduo pode afetar a saúde de seus descendentes, com eventos de hoje refletindo em décadas futuras de sua árvore genealógica.

O termo “epigenética” nos ajuda a compreender o conceito, já que o prefixo grego “epi” quer dizer “sobre” ou “acima”. Pesquisadores constataram que fatores ambientais basicamente podem acionar um comando de “liga” e “desliga” na genética de um indivíduo, afetando não somente o desenvolvimento do mesmo mais também a forma como a genética é transmitida através do óvulo ou do sêmen.

“Os mecanismos da epigenética não alteram a estrutura do DNA, mas alteram a molécula do DNA de forma a modificar o volume de dados biológicos que serão transmitidos pelo gene”, explicou Rachel Yehuda, professora de psiquiatria e neurobiologia e diretora da divisão de estudos do estresse traumático da Escola de Medicina Mount Sinai, de Nova York.

“Imagine que você está escutando uma música agradável e alguém abaixa totalmente o volume. A música continua tocando, mas não pode ser ouvida. Ou ainda você pode amplificar a música”.

Veja o infográfico: Por dentro do genoma humano

Evidências da influência da epigenética na saúde e desenvolvimento do ser humano incluem estudos que revelaram:

Diferenças hormonais em crianças nascidas de mães que passaram por trauma físico ou emocional extremo. As diferenças tornam as crianças mais suscetíveis a transtornos de humor – como ansiedade e depressão. Segundo Yehuda, mudanças foram observadas na segunda e terceira geração de sobreviventes do Holocausto, assim como nos filhos de mulheres que se encontravam grávidas durante o ataque às Torres Gêmeas e foram evacuadas do prédio.

Longevidade estendida em pessoas cujos avôs sofreram de desnutrição ou inanição na infância. Downshen diz que o dado vem de um importante estudo sueco que revelou que crianças que cresceram em anos de colheita ruim originaram netos que viveram mais tempo do que crianças que tiveram acesso à alimentação abundante durante seus anos de formação.

Leia: Longevidade está nos genes

Efeitos de tais comportamentos, como fumar ou comer em excesso, nos descendentes. Segundo Downshen, tais comportamentos podem predispor os filhos de um indivíduo a doenças sistêmicas, dentre elas o diabetes e a obesidade.

Entretanto, os efeitos da epigenética não são necessariamente geracionais. Yehuda cita evidências de que o trauma e o estresse podem afetar a saúde psicológica de um indivíduo ao remexer na genética que regula a química corporal.

“Acreditamos que a epigenética pode ser muito informativa ao nos ajudar a compreender porque eventos ambientais, como o trauma, podem ser tão transformadores. Quando uma pessoa passa por determinada situação que funciona como um divisor de água em sua vida, ela se diz modificada pela situação. Qual é o significado disso? A epigenética pode nos ajudar a explicá-lo”, disse ela.

Os benefícios médicos de uma visão epigenética da saúde e do desenvolvimento humano não é uma noção de promessas de recompensas em um futuro remoto. Médicos já estão se utilizando desta visão para tratar de pacientes.

“Provavelmente já estamos usando a epigenética, por exemplo, ao prescrever o ácido fólico às gestantes para prevenir defeitos no tubo neural embrionário que causam spina bífida”, diz Dowshen. O ácido fólico influencia na forma como o DNA da mulher é transmitido a seus filhos, reduzindo as chances do bebê desenvolver tal defeito de nascença devastador.

Ele complementou que a epigenética também já levou médicos a encorajar gestantes a seguirem uma alimentação saudável, evitar o álcool e cigarros e eliminar ao máximo o estresse no ambiente em que vivem.

Segundo Dowshen e Yehuda, no futuro, resultados de estudos de epigenética poderão revelar novas formas de tratar a depressão, o câncer e o outras doenças por meio da manipulação genética. Dowshen diz que pessoas com histórico familiar de câncer possivelmente poderão evitar o desenvolvimento da doença com tratamentos de epigenética que inibem a expressão de genes causadores do câncer. A manipulação destes genes pode mesmo um dia levar à cura do  câncer .

Enquanto isso, especialistas em epigenética dizem que as pessoas de hoje deveriam compreender que o estilo de vida que seguem irá afetar não somente sua própria saúde mas provavelmente terá um impacto também em seus filhos e netos.

Dowshen diz: “É muito provável que fatores ambientais, como alimentação saudável e atividades físicas, influenciem não somente no próprio indivíduo, mas em várias gerações dele originadas”.

* Por Dennis Thompson

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