Veja no infográfico como os jovens Rachel e Guilherme, de 30 anos, fizeram a cirurgia pioneira em menino de apenas dois anos com lesões extensas na face. Paciente está recuperado e sem sequelas graves

Rachel e Guilherme fizeram cirurgia plástica pioneira no Brasil
Amana Salles/Fotoarena
Rachel e Guilherme fizeram cirurgia plástica pioneira no Brasil

Eles têm 30 anos de idade – e não de currículo – e já estão na história da cirurgia plástica brasileira. O casal de namorados, Rachel Baptista e Guilherme Barreiro, fez há três meses a reconstrução do rosto de um garoto de dois anos atacado por um pitbull.

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Salvaram a vida de Murilo, que poderia ter ficado desfigurado – além de impedido de comer, falar e beijar – mas hoje só tem cicatrizes em volta da boca, que não para de arriscar novas palavras no vocabulário infantil.

Para este feito, Rachel e Guilherme utilizaram técnicas de reimplantes faciais ainda pioneiras na literatura médica mundial. Manusearam o bisturi microscópico quase que por instinto. Era a primeira vez que o Hospital das Clínicas de São Paulo, famoso por atender os casos mais extremos da medicina brasileira, recebia um desafio tão complexo na área da cirurgia plástica reparadora: a lesão era extensa, a parte arrancada havia sido mastigada diversas vezes pelo cão e Murilo era muito pequeno.

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Tudo isso aconteceu em um dos raros dias de folga do casal, que começou com a proposta de curtir uma festa junina, mas terminou em uma operação de seis horas de muita tensão.

Dia D

Guilherme foi jogar basquete. Rachel se preparava para fazer as unhas. O combinado era aproveitar o sábado de folga para curtir uma festa junina organizada por um grupo de amigos. Trocaram mensagens pelo celular, mas por volta das 16h do dia 15 de junho o SMS trouxe um alerta.

“Recebi uma foto, enviada pelo residente do HC, de um paciente grave que acabara de chegar ao centro cirúrgico, trazido pelo helicóptero Águia da Polícia Militar”, lembra Rachel.

“A imagem do garotinho sem parte das bochechas, com o nariz arrancado e sem o lábio superior, me deu a certeza de que eu precisava correr para o Clínicas”, conta a médica, que atualmente chefia a residência médica da cirurgia plástica do maior hospital da América Latina.

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A mesma fotografia foi enviada a Guilherme, que correu para o hospital de bermudas, suado e já sem lembrar que tinha perdido feio aquele jogo na tarde de sábado. Rachel também abandonou a manicure antes do serviço completo e começou a manusear o bisturi sem esmalte nas unhas, em uma cirurgia arriscada e sem previsão de bons resultados.

Apesar do feito inédito, Guilherme diz que a cirurgia não os deixa tirar os pés do chão
Amana Salles/Fotoarena
Apesar do feito inédito, Guilherme diz que a cirurgia não os deixa tirar os pés do chão

Vasos, veias e artérias

O “caso Murilo” tinha muitas particularidades. O menino foi atacado pelo pitbull do vizinho enquanto brincava na rua. Estava com os avós maternos e, apesar de todo o desespero, a iniciativa do avô em pegar a parte mutilada que havia ficado no chão foi um fator decisivo para a plástica reparadora dar certo.

Nunca a equipe médica do HC havia recebido um paciente tão novo. Os vasos, veias e artérias que precisavam ser reconstruídos eram muito pequenos, “da finura de um risco de caneta”, compara Rachel.

“Além disso, a parte que precisava ser reimplantada havia sido mastigada, diversas vezes, por um cachorro de grande porte. Não era simplesmente costurar, como nos ensinaram na faculdade”, pontua Guilherme.

Tudo era tão microscópico naquela cirurgia que o casal Rachel e Guilherme, acompanhado pela equipe médica da Universidade de São Paulo (USP), precisou de concentração extra. O silêncio predominava na sala e qualquer movimento diferente poderia ser fatal para o sucesso da operação. Guilherme mal respirava. Rachel também evitava que o fluxo de ar a entrar e sair dos pulmões atrapalhasse a reconstrução. Seis horas de ausência de sons e fôlego preso. Ainda assim, não deu para suspirar de alívio após o fim da operação.

Memórias

Rachel e Guilherme entre uma cirurgia e outra começaram a namorar nos corredores do Hospital das Clínicas
Amana Salles/Fotoarena
Rachel e Guilherme entre uma cirurgia e outra começaram a namorar nos corredores do Hospital das Clínicas

Tudo havia dado certo, mas as 48 horas após o processo cirúrgico podem provocar giros de 180 graus no quadro clínico do paciente (para o bem ou para o mal). Rachel e Guilherme, com a experiência dos cinco casos, em média, que operam diariamente, sabiam disso.

A literatura também preconiza esta cautela, com base nas 54.300 pessoas que, anualmente, precisam de uma cirurgia plástica após queimaduras, acidentes de carro ou domésticos, além de outras formas de violência que acabam exigindo as mãos dos cirurgiões plásticos (dados do último censo feito pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica sobre operações reparadoras e não estéticas realizadas no Brasil).

Mas os dois dias passaram, Murilo estava bem e Guilherme e Rachel quase cometeram o erro de comemorar antes do tempo. Os resultados da plástica reparadora eram tão bons que os namorados não conseguiam circular pelos corredores sem ser abordados e cumprimentados por outros profissionais – alguns deles “figurões” da plástica do HC.

Rachel, entre os parabéns ouvidos à exaustão, lembrava do tempo de menina, quando abria sapos, insetos e cuidava do olho-de-peixe do pé da melhor amiga, fatos que fizeram com que a decisão por ser médica nunca fosse dúvida. Já Guilherme puxava na memória aquele tempo de conflito sobre o futuro, quando não sabia se deixaria Campinas (interior de SP), moraria no Exterior, investiria na carreira de esportista profissional ou se aventuraria na profissão de médico.

Novas marcas

Ela formada pela USP, ele pela Unicamp. Os dois acabaram se encontrando na residência médica do Hospital das Clínicas há 3 anos. Engataram o namoro entre as jornadas de 36 horas de plantão e estavam ali, prontos para deixar seus nomes na plástica com a grife do HC. Até poderiam ficar metidos, mas...

“A cirurgia te deixa humilde e sempre puxa os seus pés para o chão”, define Guilherme.

“Já participamos de reconstruções de couro cabeludo, cirurgias na face de pacientes com câncer de boca, reconstruções de mãos de acidentados no trabalho que tinham tudo para ser memoráveis. Mas quando você vai bater no peito e ficar orgulhoso, o paciente complica, a reconstrução não dá certo e você percebe que nada é matemático.”

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O “caso Murilo” também fincou os pés de Rachel e Guilherme no chão. A falta de circulação de sangue nos lábios – que apareceu só 72 horas depois, quando o mundo da medicina já falava que a cirurgia era um “case de sucesso” – exigiu que o casal e o menino voltassem para a sala de operação. Foram mais quatro horas, sem respirar, reconstruindo veias e artérias microscópicas.

“Não é só o nosso desempenho pessoal que interfere. Temos a expectativa e a ansiedade dos parentes do paciente. Antes de falar com eles, ou de entrar em uma operação, sempre penso que eles são a minha família.”

Helen Rocha, mãe de Murilo, confirma a postura dos médicos. “Eu estava preparada para o pior. Imaginava meu filho internado por meses, desfigurado. A Rachel e o Guilherme foram muito honestos comigo. Nunca acabaram com a minha esperança, mas também não disseminavam falsas expectativas. Tudo deu tão certo que só fui reparar que eles tinham 30 anos de idade depois da crirurgia. Tenho um orgulho danado”, diz ela.

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Murilo, em casa, junto com a mãe Helen. O menino está falante e não teme nem os cachorros e nem o espelho
Arquivo pessoal
Murilo, em casa, junto com a mãe Helen. O menino está falante e não teme nem os cachorros e nem o espelho

Murilo ficou internado 10 dias. Se recuperou totalmente e saiu do centro cirúrgico falante, contando a história do “au au que morde”, mas sem nenhum trauma aparente.

Helen conta que o garoto se olha no espelho “numa boa” e nem fica incomodado com os “risquinhos” que agora circulam o lábio.

Rachel e Guilherme deixaram a própria marca na cirurgia plástica. No rosto de Murilo, agradece a mãe, as cicatrizes são muito menores do que poderiam ser caso aquele SMS não tivesse interrompido a folga dos médicos.

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