Não basta falar de saúde, tem de dar o exemplo: histórias de médicos que realmente praticam o que pregam

Mais do que aconselhar seus pacientes a praticar uma atividade física e seguir uma alimentação saudável, alguns médicos fazem questão de vivenciar a tal qualidade de vida que tanto pregam os organismos mundiais de saúde.

Geralmente começam com exercícios simples, para movimentar o corpo, mas acabam se entusiasmando e vão longe... algo como 42 quilômetros de uma maratona ou até mais. Outros ainda encontram energia para agregar vários esportes a uma rotina atibulada.

Não é fácil conciliar trabalho, urgências, estudos, viagens, família e esporte. Mas eles garantem que é possível. E como sentem os benefícios – físicos e emocionais – na própria pele, levam essa vivência para os consultórios entusiasmando pacientes e colegas. Conheça algumas histórias de médicos exemplares.

Dra. Francini Pádua: orgulho de ter completado as maratonas de Nova York e da Disney
Amana Salles / Fotoarena
Dra. Francini Pádua: orgulho de ter completado as maratonas de Nova York e da Disney
“O esporte ajuda a entender o desafio que é um tratamento para o paciente”

Os olhos da otorrinolaringologista Francini Pádua, de São Paulo, brilham quando ela fala de sua primeira Maratona, em Nova York, em 2008. “Foi o maior desafio da minha vida”, conta.

Na época, convidada por um grupo de amigos, ela se envolveu em um treinamento de mais de seis meses e encarou a dura prova, concluindo abaixo de cinco horas. "Ao longo dos 42 quilômetros a gente passa por dificuldades, da mesma forma que nossos pacientes enfrentam grandes desafios nos tratamentos propostos. Mas no final vem aquela sensação de superação e de que o esforço vale a pena. É muito interessante essa vivência esportiva para poder melhorar ainda mais o trabalho no consultório”, compara a médica.

Para Francini, a atividade física ainda acrescenta disciplina, energia, bom-humor e equilíbrio à vida. “É importante o paciente perceber que o médico é saudável física e mentalmente”.

Entusiasmada com o esporte – ela faz corrida e musculação quatro vezes por semana –, ela gosta de dividir suas conquistas com os pacientes. E eles se empolgam. “Já escutei: ‘Quando a gente conversa com você, já sai 50% tratado’”, conta, feliz.

A médica tem uma rotina corrida, atendendo no consultório, na capital paulista e viajando muito pelo mundo, para congressos e atualizações. Mas em sua vida, o tênis é tão essencial quanto o otoscópio (aparelho usado para exames).

Francini, que também já correu a Maratona da Disney, agora planeja um desafio maior: “Meu sonho é fazer o Cruce de Los Andes”, diz com aquele mesmo brilho no olhar da primeira maratona. Trata-se de uma ultramaratona de três dias com 30 quilômetros por dia, cruzando a cordilheira entre o Chile e a Argentina.

Dr. João Gabbardo: um ultramaratonista no comando do Instituto de Cardiologia do Distrito Federal
Dorivan Marinho / Fotoarena
Dr. João Gabbardo: um ultramaratonista no comando do Instituto de Cardiologia do Distrito Federal
“Ganhei bolhas no pé e vontade de não parar mais”

1980. João Gabbardo cursava o último ano de medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e estava interessado em estreitar relacionamento com dois professores (Dr. Gilberto Eckert e Dr. Mauro Boherer), visando seu período de residência. “Como eles corriam, achei que seria uma boa acompanhá-los em um treino”, conta.

A primeira corrida, ao longo da avenida Ipiranga, em Porto Alegre, foi de 20 quilômetros e deixou marcas no futuro médico. “Ganhei muitas bolhas no pé e a vontade de não parar mais”. Em 1983, fez sua primeira maratona. E dali em diante passou a programar uma prova de 42 quilômetros por ano.

Em 2005, perto de completar 50 anos, decidiu comemorar com uma prova de 50 quilômetros. “Achava que era o máximo que conseguiria fazer.” Mas a história das ultramaratonas estava só começando. Gabbardo tomou gosto pelas longas distâncias e avançou.

Para se ter ideia, em 2009 foram 17 maratonas e nove ultras. Em 2010, participou de cinco maratonas e sete ultras, sendo que quatro provas de 24 horas foram realizadas no espaço de cinco meses.

Não, Gabbardo não abandonou a medicina para se dedicar ao esporte. Ao contrário. Usou o esporte para levar muitos benefícios especialmente à saúde pública. Como médico sanitarista e secretário estadual da Saúde no Rio Grande do Sul, ele se envolveu com a legislação e, entre outros feitos, proibiu o fumo em prédios públicos e inaugurou a escadaria do prédio do Centro Administrativo do Estado do Rio Grande do Sul, com 17 andares, incentivando as pessoas a usarem as escadas como forma de acrescentar atividade física à rotina.

Atualmente o médico se divide entre Porto Alegre e Brasília, onde ocupa o cargo de superintendente do Instituto de Cardiologia do Distrito Federal. Com isso, o hospital, além de dar apoio médico a provas esportivas na região, passou a formar grupos para correr.

“Em uma prova de revezamento, tivemos duas equipes compostas por funcionários (médicos, enfermeiros, agentes de portaria) e pacientes transplantados de coração, que antes da cirurgia eram incapazes de realizar tarefas simples, como tomar banho sozinho, pentear os cabelos ou caminhar alguns metros”, conta.

No início de 2010, Gabbardo passou 40 dias nos Estados Unidos, participando de corridas e visitando hospitais que se preocupavam em envolver a comunidade no esporte. Uma dessas instituições, na Flórida, chamou especialmente sua atenção.

“Eles têm dois prédios. Um deles tem toda infraestrutura esportiva (piscina, academia, quadras) e nutricional. O outro é o hospital propriamente dito. Para o paciente se consultar no hospital, tem que fazer parte do projeto esportivo. A ideia é fazer um trabalho de prevenção para que o paciente não precise frequentar o segundo prédio”, explica.

Eloquente, o médico não se conforma de ouvir que as pessoas não têm tempo para atividades físicas. “Saúde é o que de mais importante você tem na vida, tem que cuidar dela”. Ele mesmo se desdobra entre compromissos e não falha em seus treinos, sete dias por semana. “Não tenho horário fixo para treinar, mas encaixo conforme minha agenda permite”.

Para ele, o profissional de saúde deve dar o bom exemplo. “O médico tem dificuldade de convencer o paciente se ele mesmo é sedentário, obeso, fumante”. Gabbardo também bate na tecla da prevenção na esfera pública. “O Brasil economizaria muito em medicamentos, leitos de UTIs, cirurgias cardíacas, se investisse mais em programas esportivos e nutricionais”.

Dr. Leonardo Binda: triatleta que causa admiração entre seus pacientes
Bianca Pimenta / Fotoarena
Dr. Leonardo Binda: triatleta que causa admiração entre seus pacientes
“Parei de fumar e comecei a planejar meus próprios treinos”

O fisioterapeuta e médico Leonardo de Pereira Binda, 30 anos, de Vitória (ES), tem passado esportivo. “Fiz natação até os 13 anos, depois fui para o basquete e cheguei a fazer parte da seleção capixaba”, conta. Na faculdade de fisioterapia, diminui um pouco o ritmo dos exercícios, mas ainda participava dos jogos universitários.

A rotina de estudos, no entanto, foi o afastando aos poucos da atividade física. Para completar, começou a fumar. “Quando entrei na faculdade de fisioterapia pesava 67 quilos. Quando iniciei a de medicina, estava com 90”, revela. Mas o pior foi ter sofrido um pico hipertensivo aos 28 anos. “Eu atendia pacientes no ambulatório de cardiologia, ficava falando que eles tinham de modificar hábitos, mas eu mesmo não fazia nada.” Foi quando decidiu que era hora de mudar. Então Leonardo abandonou o cigarro e começou a correr.

“Passei a estudar mais sobre fisiologia do exercício e planejar meus próprios treinos”. Em pouco tempo ele perdeu peso e suas taxas se normalizaram. E a mudança no estilo de vida se refletiu até no atendimento hospitalar. “Muitas vezes o médico entope o paciente de remédios, quando o mais simples é incentivá-lo à mudança de hábitos. Não estou dizendo que medicamento não seja necessário, mas quando a gente faz uma coisa e vê que funciona, fica muito mais fácil convencer”, atesta.

Durante a anamnese (a entrevista inicial com o paciente), Binda já pergunta sobre atividade física. “Acaba virando um papo informal, e eu até falo das minhas experiências”, conta. E os pacientes reagem com admiração: ‘Nossa, doutor, o senhor faz isso?’ O ‘faz isso’ é correr provas de 10 quilômetros abaixo de 45 minutos, Meias Maratonas (21 quilômetros), provas de aquathlon (natação e corrida) e triatlo (natação, ciclismo e corrida).

Encontrar tempo para as atividades esportivas exige disciplina. “Acabei de me formar em medicina. Nos últimos dois anos, tive de ir todos os dias para o hospital, fiz muitos plantões, à noite ainda tinha de estudar... Mas sempre dei um jeito. Chegava a acordar às quatro e meia da manhã para treinar”.

Entre os planos futuros do médico-esportista está um Ironman – modalidade de triatlo de longas distâncias compreendendo 3,8 quilômetros de natação, 180 quilômetros de ciclismo e 42 quilômetros de corrida.

Dr. Valério Tokikawa: de sedentário e fumante a maratonista
Divulgação
Dr. Valério Tokikawa: de sedentário e fumante a maratonista
“Médico que pratica atividade física inspira mais confiança”

Seis anos atrás, o oftalmologista Valério Correia Tokikawa, de Ribeirão Preto (SP), engrossava o time dos sedentários e fumantes. Hoje, aos 42 anos, é maratonista.

“A primeira maratona foi em maio de 2010, em São Paulo. Treinei forte por quatro meses, com o desafio de completar sem andar. E consegui! A alegria que tomou conta de mim a partir do quilômetro 40 é indescritível. Foram dois quilômetros correndo em êxtase, como se estivesse flutuando. Ao ver as pessoas aplaudindo e incentivando, fiquei com vontade de abraçar cada uma delas para transmitir um pouco da energia que estava sentindo”, conta.

Embalado pela magia dos 42 quilômetros, Tokikawa correu a mesma distância depois em Buenos Aires, na Argentina, e Curitiba.

“Acho que cada vez que o maratonista encara uma nova prova, está buscando aquele êxtase da primeira”.

Tudo começou em 2004, quando um amigo, também médico, sugeriu a corrida. “Tinha acabado de largar o cigarro e achei que seria bom.” Além de mais saúde, o esporte passou a interferir muito positivamente na rotina de trabalho do especialista.

“Trabalho de segunda a sexta, oito horas por dia, a maior parte do dia sentado. A atividade física traz mais ânimo, disposição e agilidade ao meu dia a dia, além de ajudar a combater o estresse e melhorar o humor, facilitando assim o relacionamento com os pacientes”, diz.

A atividade física também o aproxima de seus pacientes fora do consultório. “Às vezes encontro alguns pelas corridas e trocamos experiências. De repente parecemos velhos amigos. Acredito que um médico que pratica esporte passa uma imagem mais saudável e inspira mais confiança”. 

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