“Eu não tomo refrigerante, mantenho a mente ativa, mas detesto ir ao médico”, resume Maria José, 100 anos

Maria José dá a receita para os seus 100 anos: 'não tomo refrigerante e mantenho a mente ativa'
Amana Salles/Fotoarena
Maria José dá a receita para os seus 100 anos: 'não tomo refrigerante e mantenho a mente ativa'
O fôlego para apagar as 100 velinhas que celebravam seu aniversário falhou um pouco. No mês passado, pela primeira vez, Maria José Durães precisou ir ao médico por causa dos pulmões . Nada grave – ela esbanja saúde de ferro - mas mesmo os casos simples de pacientes centenários são desafios para a medicina.

“Um desafio que será cada vez mais recorrente na prática médica por causa do aumento da expectativa de vida do brasileiro”, projeta o diretor da Sociedade Paulista de Cardiologia, João Fernando Monteiro Ferreira. “A nossa experiência com esta faixa etária ainda é muito restrita e as pesquisas clínicas também excluem os muito idosos. Mas eles não só estão mais presentes como exigem cuidados diferenciados”, completa.

Uma das dificuldades em atender aos centenários é que ainda não há uma resposta certa sobre o que, de fato, os fez viver tanto. Nasceram em épocas de cuidados médicos arcaicos, sem vacinas ou saneamento básico. “Vivi feito bicho do mato, trabalhando na enxada de sol a sol, solta, com pé descalço e um pouquinho de água para lavar o corpo no final do dia. Comecei a trabalhar já na barriga da minha mãe”, confirma Maria José ao lembrar da sua infância no interior de Minas Gerais e adolescência em Presidente Prudente, no noroeste paulista.

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“Tive 14 filhos (o primeiro aos 16 anos) e nunca fiz um só pré-natal. Um dos meus meninos nasceu quando estava sozinha, no chão, sem luz e toalha por perto. Não morri não sei como”, diz ao calcular que o vizinho mais próximo da sua casa morava distante 9,5 quilômetros e o doutor era um “bicho muito mais difícil de achar do que as cobras e até onças” que ficavam em seu quintal.

A receita

Se o início difícil contrasta com o centenário vivido, os hábitos alimentares e de exercícios físicos – muito mais saudáveis e frequentes do que em tempos contemporâneos – podem justificar a presença de Maria José e dos outros 23.759 brasileiros no grupo etário que tem 100 anos ou mais, conforme calculou o Instituto Brasileira de Geografia e Estatística (IBGE) no fim de 2010.

E a aposta do geriatra do Hospital das Clínicas de São Paulo, Omar Jalul, é que a combinação destes dois fatores fez as pessoas estarem no aumento de 77% de centenários registrado nos últimos dez anos.

“Claro que a genética é fundamental para a longevidade, mas o que vejo nos meus pacientes com mais de 100 anos (são 6 atualmente) é que nunca abandonaram uma dieta saudável e sempre mexeram o corpo de forma sistemática em todos estes anos vividos."

“É isso ( dieta e não ao sedentarismo) que vai fazer a diferença para as próximas gerações”, acrescenta a pediatra Ana Escobar, da Faculdade de Medicina da USP e coordenadora do projeto familiograma. “No programa, acompanhamos 2.700 crianças, desde o nascimento, para que vivam até os 100 anos, com qualidade. E todas as intervenções médicas que já fizemos nestes três anos de projeto foram associadas à alimentação e ao incentivo de atividades”, diz.

A receita de Jalul e Escobar é incorporada e fornecida de forma simples por Maria José. Ela criou os filhos, os 30 netos, 40 bisnetos e 6 tataranetos com muito angu, quiabo, diversas folhas verdes, pouco doce e nada de fritura (só umas escorregadas no torresmo).

“Nunca tive preguiça de nada e não gosto de frescura só porque tenho 100 anos. Moro sozinha e gosto de ir e vir”, diz, com cara de brava, e lembrando que semana passada andou uma hora no Mercadão de São Paulo para admirar os temperos naturais que tanto adora.

“E para hidratar, o bom é água. Não tomo refrigerante, um veneno para o corpo. Mantenho a mente ativa, com os livros. Música eu não gosto mais de ouvir, porque a geração de hoje só bajula Roberto Carlos, mas bom mesmo era o Nelson Gonçalves.”

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Hortinha

A ausência dos versos de Nelson Gonçalves fez com que o rádio deixasse de ser companhia para Maria José. Mas a sua horta caseira, presente na trajetória desde o tempo de menina, ela não abandona “nem que viva mais 100 anos”.

As mãos de Maria José, desde menina, cultivam uma horta caseira.
Amanda Salles/Foto Arena
As mãos de Maria José, desde menina, cultivam uma horta caseira.
Maria José acredita que a vida sem dinheiro e sem recursos a aproximou das ciências de baixa tecnologia. “Só estudei até o primeiro ano, mas a vida me ensinou. Os meus chás, xaropes e temperos protegeram a saúde de toda minha gente”, diz. Ao mesmo tempo, evitaram a automedicação com drogas farmacêuticas e o excesso de sódio para salgar a comida, já que em vez de tempero pronto ela só usa ervas.

No início do mês, enquanto preparava um de seus cházinhos, uma tosse forte a levou ao hospital. Os pulmões, mostraram os exames, não estão 100% e quando os pacientes centenários chegam às clínicas, os médicos não sabem muito bem como recebê-los e medicá-los.

“Sempre precisamos avaliar muito bem qual procedimento aplicar nestes pacientes mais velhos”, emenda Rubens Belfort, diretor de oftalmologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que mantém o ambulatório do centenário, com 30 pacientes frequentes. “Nem tudo que a medicina oferece é uma boa opção para eles, que podem não ter um organismo forte o suficiente para aguentar um procedimento mais invasivo ou cirúrgico. Por vezes, o cuidado paliativo é mais indicado.”

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O deslize na saúde pode até aguçar a preocupação dos médicos, mas não intimidou Maria José. Ela obedece as recomendações clínicas – “apesar de detestar ir ao consultório”, mas dá de ombros quando perguntada se tem receio de morrer. “Tenho tanta coisa para fazer que nem lembro que a morte existe.”

Ela não gosta de médico, mas faz tantas coisas que
Amana Salles/Fotoarena
Ela não gosta de médico, mas faz tantas coisas que "nem pensa na morte"

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