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Sem medo da anestesia geral

Pacientes chegam a adiar cirurgias por receio de não voltar da anestesia. Inovações reduzem drasticamente mortes e complicações

Yara Achôa, iG São Paulo | 20/04/2011 09:24

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Foto: Thinkstock/Getty Images Ampliar

Os grandes medos que a anestesia geral provoca são acordar durante a cirurgia ou não acordar após a operação

A anestesia geral é uma técnica anestésica reversível utilizada em qualquer intervenção cirúrgica na região do abdômen superior, tórax, cabeça, pescoço e cérebro.

Dados recentes do relatório Vital Health Report, pesquisa trimestral feita pela Sociedade Americana de Anestesiologia, revelam que até 25% dos pacientes adiam uma cirurgia por receio de algum risco relacionado à anestesia e mais de 75% expressam preocupação em relação ao procedimento. Os grandes medos são acordar durante a cirurgia ou não acordar após a operação.

Leia: Síndrome do pânico na hora dos exames

Não deveria haver motivos para pânico, defendem os especialistas. Afinal, a segurança do procedimento é cada vez maior e as taxas de mortalidade relacionadas à anestesia caíram drasticamente nos últimos 25 anos: de duas mortes por 10 mil anestésicos administrados para um óbito por 200 mil a 300 mil, de acordo com a Sociedade Americana de Anestesiologia. Quando acontecem, as causas estão relacionadas a problemas cardíacos e respiratórios.

“Hoje temos um nível de sofisticação muito grande no que diz respeito ao monitoramento do paciente”, diz o médico Wilson Nogueira Soares Junior, um dos diretores da Sociedade de Anestesiologia do Estado de São Paulo (SAESP) e membro do comitê de qualidade de anestesia do Hospital Albert Einstein, em São Paulo.

A evolução na realização do procedimento nas últimas três décadas resulta agora em maior conforto para o paciente antes, durante e depois do ato cirúrgico. Importantes inovações técnicas, medicamentosas e de equipamentos trouxeram muito mais qualidade para os procedimentos. “Desenvolvemos rotinas e melhoramos o preparo dos profissionais. Vivemos uma ‘febre de segurança’”, completa o especialista.

Entenda a anestesia

Cerca de 40% dos pacientes acreditam que estar sob anestesia geral é dormir profundamente, enquanto 17% pensam que ela bloqueia os impulsos nervosos de apenas uma pequena área do corpo, sem alterar a consciência. Na verdade, o indivíduo sob anestesia geral está inconsciente e com os impulsos neuromusculares bloqueados.

Leia: Anestesia geral é muito mais profunda que sono

“São três engrenagens que devem funcionar juntas para o sucesso da anestesia geral: hipnose (não confunda com a técnica que induz ao transe), analgesia e relaxamento muscular”, explica Maria Angela Tardelli, professora adjunta da disciplina de anestesiologia, dor e terapia intensiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e co-editora da Revista Brasileira de Anestesiologia.

Embora seja de alta complexidade, o procedimento é simples. O anestesiologista injeta na veia os medicamentos que induzem o paciente ao sono para garantir que ele não tenha consciência e não se lembre de nada (hipnose e amnésia). Depois, o paciente recebe um anestésico, administrado por via inalatória, intravenosa ou intramuscular, para eliminar a dor. Em seguida é aplicado um relaxante muscular que bloqueia temporariamente a passagem dos impulsos elétricos do nervo para o músculo, impedindo contrações involuntárias. Em questão de segundos, o paciente “apaga”.

Os relaxantes musculares alteram o funcionamento dos músculos involuntários, inclusive os responsáveis pela respiração. Por isso, quando a pessoa está sob efeito da anestesia geral, as funções respiratórias são realizadas por ventiladores mecânicos ou respiradores artificiais.

Então é feita a intubação, ou seja, os pulmões são conectados a um aparelho responsável pela respiração por meio de um tubo inserido na traqueia. A intubação traqueal é um procedimento especializado, realizado pelo médico anestesiologista.

Para que o procedimento seja mais seguro é necessário fazer jejum de seis horas para líquidos e de oito horas para os alimentos sólidos. Isso porque qualquer movimentação de algum órgão do sistema digestivo ou excretor pode comprometer a cirurgia. Também deve ser realizada uma entrevista detalhada com o paciente (anamnese) a fim de checar alergias a medicamentos ou doenças que comprometam o procedimento.

Um alegre despertar

Os relaxantes musculares usados na anestesia geral desempenham papel crucial no procedimento, melhorando as condições operatórias e facilitando a intubação e a ventilação mecânica. Mas após o término da cirurgia, o anestesiologista deve usar agentes de reversão para suspender os efeitos desses relaxantes, permitindo que o paciente recupere a função muscular normal mais cedo e respire por conta própria.

A grande importância da recuperação do relaxamento muscular ser rápida é a possibilidade de diminuir a incidência de efeitos colaterais, denominados paralisias residuaais.

“Os músculos do pescoço envolvidos na respiração e na deglutição são muito sensíveis a esses efeitos. Por isso, mesmo que o paciente tenha capacidade de respirar espontaneamente, pode não conseguir tossir ou deglutir adequadamente, o que pode resultar em sérios problemas respiratórios”, explica a médica Maria Ângela Tardelli.

Até pouco tempo os agentes de reversão disponíveis se mostravam lentos (levavam cerca de 18 minutos para trazer o paciente à consciência novamente) e estavam associados a efeitos colaterais indesejáveis, como distúrbios do ritmo cardíaco, gastrointestinal e pulmonar.

A chegada de um novo medicamento ao mercado, o sugamadex sódico, promete diminuir esse tempo na cobrança de consciência e reduzir os riscos de uma reversão incompleta do relaxamento muscular, diminuindo também possibilidades de complicação no pós-operatório.

“Ele tem rápido início de ação e, em estudos clínicos, reverteu o relaxamento muscular moderado e profundo em cerca de três minutos”, diz a professora da Unifesp. Assim, o despertar se torna mais rápido e seguro, diminuindo os temores por parte do paciente.

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