Superpoderosas: a transformação das bactérias

Especialistas explicam por que os microorganismos estão tão resistentes às medicações

Fernanda Aranda. iG São Paulo | 21/10/2010 15:40

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Os antibióticos não têm conseguido vencer alguns tipos de bactérias e, em vários países, elas passaram a ser apresentadas com o prefixo super. A mais famosa, atualmente, é a KPC, que já chegou ao Brasil e as últimas notícias informam que, apenas no Distrito Federal, são 135 casos de contaminação e 18 mortes.

Além da KPC, fazem parte da lista recente de superbactérias a enterococo, que causou surtos em hospitais do País, e a NDM-1 (Nova Délhi), que provocou infecções e mortes em vários locais da Europa e Ásia – ainda não há notícias de que tenha afetado os brasileiros.

Os especialistas ouvidos pelo iG contam que até estes microorganismos virarem multirresistentes são necessárias décadas de repetição de hábitos perigosos como automedicação, venda indiscriminada de antibióticos e falta de higiene por parte dos profissionais de saúde.

A seguir, os infectologistas citam os principais fatores que contribuem para a transformação de bactérias organismos superpoderosos.

A definição

A infectologista do Laboratório de Pesquisa de Resistência Bacteriana da Unifesp, Ana Cristina Gales, diz que uma bactéria só é uma superbactéria quando produz uma enzima tão potente capaz de inativar muitos antibióticos, limitando, as possíveis opções para o tratamento de uma infecção. O perigo é maior para quem está hospitalizado e com o sistema imunológico comprometido. Todas as pessoas que morreram após a infecção estavam internadas em UTIs.

Venda indiscriminada

Para uma bactéria multirresistente tornar-se um problema de saúde pública – e não um caso isolado – é preciso que “um milhão delas não respondam aos tratamentos existentes”, afirma Juvêncio Furtado, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia e professor da Faculdade de Medicina do ABC. Para Furtado, um dos motivos mais influentes no cenário atual é o uso indiscriminado de antibióticos, uma prática que vem sendo adotada ao longo de décadas.

“Qualquer pessoa compra qualquer remédio em qualquer farmácia. Muitas vezes o balconista empurra um antibiótico para tratar um resfriado, sem ter formação médica e segurança da prescrição”, diz o professor.

O uso indiscriminado torna o organismo resistente aos medicamentos. Para tentar reverter o quadro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) quer tirar do papel um projeto que obriga as vendas deste tipo de medicação a serem monitoradas. Toda a farmácia que vender o produto é catalogada, a receita apreendida e os produtos registrados. Um programa piloto foi feito no ano passado com remédios para emagrecer.

Farmacinha caseira

Não é apenas a compra indiscriminada de antibióticos que contribui para este cenário, avalia o infectologista Juvêncio Furtado. A farmacinha caseira também é prejudicial. Por vezes as cartelas de antibióticos receitadas pelo médico são muito numerosas para um tratamento de sete dias, por exemplo. Quando um sintoma parecido com a infecção bacteriana reaparece, como febre, mesmo em outra pessoa, os antibióticos guardados são a primeira opção de uso sem a indicação médica, contibuindo para a disseminação de resistência bacteriana. “As pessoas não podem utilizá-los como se fossem analgésicos. É muito perigoso”, diz o especialista.

Boi, frango e porco

Além do uso pessoal e exagerado de antibióticos, a FDA – agência norte-americana de regulação de remédios e alimentos – propôs este ano que os veterinários e produtores reduzam a quantidade de antibióticos usados em bois, porcos e aves. Segundo a agência, a população que consome estes alimentos também pode criar resistência aos medicamentos. Os especialistas acreditam que o uso irracional das drogas em animais também contribuiu para a epidemia de resistência bacteriana em humanos.

Evolução natural

Todos os fatores descritos acima contribuíram para a dispersão mundial da resistência bacteriana. Mas nos hospitais – locais em que os casos de infecção têm sido mais graves – outros dois fatores são influentes, conforme explica o professor de clínica Médica da Unifesp, Paulo Olzon.

“As bactérias evoluem junto com a evolução da indústria farmacêutica. Sempre que surge um antibiótico mais forte no mercado, também aparece um microorganismo mais potente”, explica.

Segundo ele, apesar de ser um fenômeno esperado, a tendência é que, com a falta de higiene e a quebra de protocolos nas unidades de saúde, as infecções sejam mais recorrentes e também mais problemáticas.

“Ainda existem profissionais de saúde que lavam pouco a mão e entidades que não seguem as determinações das comissões de controle de infecção hospitalar”, completa o infectologista, Juvêncio Furtado.

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