Epilepsia: o que causa a convulsão e como tratar?

Condição requer cuidados diários para evitar novas crises

A epilepsia é uma manifestação neurológica que causa alterações cerebrais no portador da doença
Foto: FreePik
A epilepsia é uma manifestação neurológica que causa alterações cerebrais no portador da doença

Desde que teve sua primeira convulsão e recebeu o diagnóstico de epilepsia  há três anos, Murilo*, de 27 anos, fez ajustes discretos, mas inegociáveis em sua rotina. Por exemplo, ele toma medicação todos os dias, de manhã e à noite, e fica atento à alimentação e ao sono. Apesar de simples, são cuidados determinantes para evitar novas crises. Mas, afinal, o que provoca essa condição que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), acomete 50 milhões pessoas no mundo?

A epilepsia é uma condição neurológica crônica, caracterizada pela ocorrência recorrente de convulsões, que são episódios súbitos causados por descargas elétricas anormais no cérebro. Segundo o neurocirurgião João Lima,  da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), convulsionar pode ser comparado a ter um curto-circuito no sistema elétrico cerebral.

“Quando essa atividade elétrica foge do controle, o corpo pode reagir com movimentos involuntários, perda de consciência, salivação excessiva e alterações comportamentais temporárias” , explica o especialista ao Portal iG .

Trata-se de uma das doenças neurológicas mais comuns do mundo - de acordo com a OMS, a estimativa é que, todos os anos, cerca de 5 milhões de pessoas recebem o diagnóstico de epilepsia.

O número de novos casos pode variar conforme o país. Em nações de alta renda, são registrados cerca de 49 diagnósticos por 100 mil habitantes por ano. Nos de baixa e média renda, esse número quase triplica, com 139 por 100 mil pessoas diagnosticadas. Segundo a OMS, a diferença está relacionada a fatores como maior exposição a doenças infecciosas, maior índice de acidentes de trânsito e desigualdade no acesso a serviços de saúde e programas de prevenção.

Epilepsia x convulsão

Apesar de serem frequentemente associadas, convulsão e epilepsia não são a mesma coisa. Nem toda convulsão significa que a pessoa tem epilepsia, pois as convulsões podem ocorrer de forma isolada, causadas por situações pontuais como febre alta, traumatismo craniano, AVC, infecções no sistema nervoso, alterações metabólicas ou até pelo uso excessivo de álcool e drogas.

O diagnóstico de epilepsia exige que essas crises se repitam de forma espontânea, sem uma causa evidente imediata, e “envolve uma análise cuidadosa do histórico do paciente, dos gatilhos e do padrão das crises”, explica o neurocirurgião João Lima.

“Os exames solicitados são eletroencefalograma (EEG), para avaliar a atividade elétrica cerebral; ressonância magnética (RM), para detectar possíveis lesões estruturais cerebrais; além de exames laboratoriais, como glicemia e níveis eletrolíticos, para descartar alterações metabólicas ou infecciosas” , informa o médico.

Foi o que aconteceu com Murilo. Ele tinha 24 anos quando sofreu sua primeira crise convulsiva, poucos meses após ter contraído Covid-19. “Minha cachorra começou a latir sem parar. Minha mãe veio ver o que estava acontecendo e percebeu que eu estava tendo uma convulsão”, relembra.

Desde o diagnóstico, ele faz uso contínuo de anticonvulsivantes e não voltou a apresentar crises. Os médicos chegaram a levantar a hipótese de que a infecção pelo coronavírus tivesse desencadeado a epilepsia, mas nenhuma relação foi confirmada.

“Com um tratamento bem-sucedido, seja medicamentoso ou cirúrgico, a grande maioria das pessoas pode sim levar uma vida normal, produtiva e com autonomia plena”, reforça o especialista.

Vida tranquila, mas atenção às crises

A maioria das pessoas leva uma vida tranquila mesmo após o diagnóstico de epilepsia, principalmente quando o tratamento está ajustado e as crises sob controle. Ainda assim, a condição impõe pequenas interferências no cotidiano, já que exige a atenção constante a fatores que costumam passar despercebidos, como mudanças de temperatura, consumo de bebidas alcoólicas, cansaço e até uma leve febre podem desencadear uma crise.

Para Murilo, essas pequenas interferências existem. “ Não posso mais doar sangue, por exemplo, algo que eu fazia uma vez por ano. E já tive uma crise voltando do trabalho, dentro do carro, com um colega. Ele se assustou, mas teve presença de espírito: me levou direto ao hospital”, conta.

A postura do amigo de Murilo foi a recomendada pelos especialistas ao presenciar uma convulsão. Segundo o neurocirurgião João Lima, também é importante saber identificar quando há um episódio desses chegando: a pessoa pode apresentar perda súbita de consciência, movimentos involuntários e descoordenados, salivação excessiva e olhos revirados. 

“Algumas pessoas ainda percebem sinais prévios chamados “auras”, como sensações estranhas, tontura, alterações visuais ou auditivas, que podem indicar que a crise está prestes a ocorrer” , diz.

Se a crise já começou, o primeiro passo é sempre manter a calma. Em seguida, é importante proteger a pessoa de objetos próximos que possam causar ferimentos, colocá-la deitada, preferencialmente virada de lado, para evitar engasgos, e proteger a cabeça com algo macio, como uma almofada ou roupa dobrada. 

“Também é importante cronometrar o tempo da crise e, caso ultrapasse cinco minutos, buscar imediatamente ajuda médica”, diz o neurocirurgião.

Por outro lado, não se deve colocar nada na boca da pessoa (inclusive os dedos), e nem tentar conter os movimentos involuntários com força. Outra ação que pode ser arriscada é oferecer água ou alimentos antes dela estar totalmente consciente novamente.

Cuidados e tratamento

O tratamento da epilepsia começa com o uso de anticonvulsivantes, que ajudam a estabilizar a atividade elétrica do cérebro e a controlar as crises. Para a maioria das pessoas, essa abordagem é suficiente para manter as convulsões sob controle e garantir uma vida normal e ativa.

“No entanto, cerca de 30% dos pacientes apresentam crises que não respondem adequadamente à medicação, condição conhecida como epilepsia refratária. Nestes casos, a cirurgia pode ser uma alternativa altamente eficaz”, diz João Lima. O médico explica que procedimentos como a cirurgia guiada por neuronavegação ajudam a identificar e remover com exatidão a região do cérebro responsável pelas crises, com mínimo impacto às áreas saudáveis. 

Outra opção é a estimulação cerebral profunda, que utiliza pequenos eletrodos implantados para modular a atividade elétrica cerebral e reduzir a frequência e intensidade das crises. 

“Essas técnicas modernas têm como vantagens um menor tempo de recuperação, menos dor pós-operatória e redução expressiva do risco de complicações, proporcionando uma melhora significativa na qualidade de vida dos pacientes”, diz o neurocirurgião.

Apesar de ainda não existir uma cura definitiva para todos os casos de epilepsia, cerca de 70% das pessoas conseguem controlar as crises com o tratamento adequado, diz João Lima. 

“Em algumas situações específicas, quando há causas reversíveis, como infecções ou alterações metabólicas, as crises podem desaparecer completamente após o tratamento dessas condições”, conclui o médico.

*Murilo é um nome fictício (a pedido da fonte).