
Um vírus que quase todo mundo já carrega pode ter encontrado um bloqueio. Pesquisadores conseguiram impedir a infecção pelo Epstein-Barr (EBV), conhecido por causar a doença do beijo, em testes de laboratório divulgados nesta semana.
O resultado aparece de forma direta: um anticorpo criado pelos cientistas travou a entrada do vírus nas células de defesa. Se o efeito se repetir em humanos, o abre caminho abre para prevenir complicações graves em pacientes com imunidade baixa, como quem passou por transplante.
O estudo é do Centro de Câncer Fred Hutchinson e saiu na revista Cell Reports Medicine. Para chegar ao anticorpo, a equipe usou camundongos modificados para produzir respostas próximas às do organismo humano.
O alvo foram duas portas de entrada do vírus. Uma proteína ajuda o EBV a se prender às células. A outra permite que ele atravesse essa barreira. Os pesquisadores criaram anticorpos para atacar essas duas etapas.
Na fase final dos testes, um desses anticorpos, voltado à proteína chamada gp42, conseguiu impedir completamente a infecção. Outro, que age sobre a gp350, reduziu o avanço do vírus, mas não bloqueou tudo.
O bioquímico Andrew McGuire, que lidera o trabalho, diz que o Epstein-Barr sempre escapou desse tipo de tentativa porque consegue se ligar a praticamente todas as células B, que fazem parte do sistema imunológico.
Infecção comum que fica no corpo
O Epstein-Barr circula em silêncio. Cerca de 95% da população mundial já teve contato com ele. Em muitos casos, a infecção passa despercebida.
Quando dá sintomas, costuma aparecer como mononucleose, a doença do beijo. O nome vem da principal forma de transmissão: a saliva.
O vírus não vai embora depois disso. Ele fica no organismo e pode voltar a se multiplicar quando a imunidade cai.
É nesse ponto que o risco cresce. O EBV está ligado a diferentes tipos de câncer e a doenças crônicas. Em pessoas saudáveis, isso é raro. Em pacientes vulneráveis, não.
Nos Estados Unidos, mais de 128 mil transplantes de órgãos e medula são feitos por ano. Esses pacientes precisam tomar remédios que reduzem a imunidade para evitar rejeição.
Com a defesa baixa, o vírus pode se reativar. Em alguns casos, provoca linfomas, que estão entre as complicações mais graves após o transplante.
A infectologista Rachel Bender Ignacio afirma que impedir essa reativação pode reduzir mortes e evitar perda do órgão transplantado.
Caminho até virar tratamento
A equipe trabalha agora para transformar o anticorpo em terapia. A ideia é usar a substância antes da infecção ou logo no início da reativação do vírus.
Os pesquisadores planejam começar testes de segurança em humanos. Depois disso, a intenção é avançar para estudos com pacientes de maior risco.
O centro de pesquisa já pediu registro de patente sobre os anticorpos.
Ainda não há previsão de uso em hospitais. Mas o resultado muda o ponto de partida: pela primeira vez, um anticorpo conseguiu barrar o Epstein-Barr de forma completa em modelo de laboratório.