
Uma criança, chorando muito, ouve o pai ou a mãe chamar "Jéssica!" "Olha a Jéssica!" "Jéssica chegou" e começa a procurar pela pessoa desconhecida.
A trend que viralizou nas redes sociais está sendo utilizada como uma forma de fazer os pequenos pararem de fazer birra. No entanto, segundo especialistas, o estímulo inesperado somente redireciona a atenção e não ensina a lidar com as emoções.
Fernanda Fusco, psicóloga infantojuvenil, explica que isso acontece porque, durante uma crise, a atenção da criança está sequestrada pela frustração.
Quando surge um elemento novo e fora de contexto, o cérebro interrompe o que estava fazendo para investigar a novidade, independentemente da palavra.
A distração pode até ser útil para tirar a criança de um pico de agitação, mas, quando vira regra, cria-se um padrão de evitação. A mensagem silenciosa passa a ser: se algo desconfortável surgir, fuja. A vida exige lidar com a frustração. Nosso papel não é criar uma infância imune a emoções difíceis, mas dar recursos para quando elas aparecerem. Fernanda Fusco, psicóloga infantojuvenil
A mudança de postura do adulto também influencia a reação do pequeno.
Ao deixar o sermão de lado, os pais focam na criança, contribuindo para a organização emocional dela.
O efeito muda a partir do momento em que a "Jéssica" é apresentada como uma ameaça.
Aqui, a criança não se organiza, ela congela pelo medo. O medo interrompe o comportamento rapidamente, mas o preço psíquico é alto. O adulto, que deveria ser a base segura, torna-se a fonte de ameaça. Essa confusão pode se desdobrar futuramente em ansiedade, medo do escuro ou dificuldade de dormir. Fernanda Fusco, psicóloga infantojuvenil.
Para Fernanda, isso acontece principalmente porque o cérebro infantil ainda está em desenvolvimento.
Além disso, as áreas de inibição de impulsos e modulação emocional não estão completamente maduras, o que faz com que a criança dependa do adulto para traduzir aquela experiência.
Nossa pressa em silenciar o choro muitas vezes nasce do nosso próprio desconforto, vergonha ou sensação de impotência. Cuidar nem sempre é produzir silêncio rápido. Às vezes, o verdadeiro cuidado é sustentar o ‘não’, permanecer presente e ajudar a criança a atravessar a tempestade. A autorregulação nasce dessas travessias, e não de atalhos. Fernanda Fusco, psicóloga infantojuvenil.
*Estagiária sob supervisão