
As Testemunhas de Jeová mudaram uma de suas orientações mais conhecidas sobre tratamentos médicos. Desde sexta-feira (18), cada fiel pode decidir individualmente se aceita transfusões de glóbulos vermelhos, glóbulos brancos, plasma ou plaquetas provenientes do sangue de outra pessoa.
A proibição de receber sangue total continua. Segundo o Corpo Governante das Testemunhas de Jeová, a nova orientação transfere para a consciência de cada integrante a decisão sobre os quatro principais componentes sanguíneos, sem interferência da congregação.
A mudança também alcança a doação. Cada fiel poderá decidir se doa sangue quando a finalidade estiver claramente definida como o fornecimento de componentes ou frações para uso por outra pessoa. Não se trata, portanto, de uma liberação da transfusão de sangue total.
O que passa a ser permitido
Até agora, a escolha individual já era aceita para determinadas frações derivadas do sangue e para alguns procedimentos envolvendo o próprio sangue do paciente. A orientação divulgada neste mês amplia esse entendimento para os quatro componentes principais: hemácias, leucócitos, plasma e plaquetas.
Com a alteração, dois integrantes da religião podem tomar decisões diferentes sobre o mesmo tratamento sem que uma das escolhas seja tratada pela organização como uma regra geral para todos.
Segundo Paul Gillies, porta-voz internacional das Testemunhas de Jeová, decisões médicas envolvendo esses componentes passam a ser consideradas uma questão de consciência entre o fiel e Deus. A organização afirma que as congregações não devem interferir nessas escolhas.
O sangue doado normalmente é separado em diferentes componentes. De acordo com o Ministério da Saúde, uma bolsa pode dar origem a concentrados de hemácias e plaquetas, além de plasma, usados de maneiras distintas em tratamentos médicos.
Transfusão de sangue total continua recusada
A restrição histórica ao sangue total não foi retirada. As Testemunhas de Jeová relacionam essa posição a passagens bíblicas que determinam que os cristãos devem se abster de sangue.
A religião afirma ter mais de nove milhões de integrantes distribuídos por mais de 200 países e territórios.
No Brasil, a discussão sobre transfusões também chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF). Em setembro de 2024, a Corte decidiu por unanimidade que adultos capazes podem recusar procedimentos que envolvam transfusão por motivos religiosos. O tribunal também reconheceu o direito a tratamentos alternativos disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS).
Na ocasião, o julgamento consolidou o direito de Testemunhas de Jeová recusarem transfusões por convicção religiosa, desde que a decisão seja livre, informada e tomada por uma pessoa capaz.
A nova orientação religiosa não altera esse direito. O fiel continua podendo rejeitar qualquer um dos componentes e também o sangue total. A diferença é que receber hemácias, leucócitos, plasma ou plaquetas deixou de ser uma proibição geral e passou a depender da decisão de cada pessoa.