
O fim das bets no Brasil interrompe o acesso às plataformas legalizadas, mas deixa uma questão que não desaparece junto com os aplicativos: o que acontece com quem perdeu o controle sobre as apostas?
A ludomania, também chamada de ludopatia, é associada ao que as classificações médicas chamam de transtorno do jogo. A condição é marcada pela dificuldade de controlar o impulso de apostar, mesmo quando o comportamento já provoca prejuízos financeiros, familiares, profissionais ou emocionais.
O assunto ganhou novo peso após o governo federal proibir as bets no Brasil. A medida impede novas apostas e determinou a retirada dos sites e aplicativos do ar.
Para quem desenvolveu uma relação compulsiva com o jogo, porém, simplesmente retirar o acesso pode não ser suficiente. É o que explica a psicanalista e colunista do iG Carla Brandão.
Segundo ela, a interrupção pode ser acompanhada de ansiedade, irritabilidade e desejo de voltar a jogar, inclusive por outros meios.
"Mais do que perguntar apenas 'como parar de apostar?', é importante compreender o que aquela aposta representava para o sujeito e que sofrimento ela ajudava a encobrir", explica.
Quando apostar deixa de ser diversão?
Nem toda pessoa que faz uma aposta desenvolve ludomania. O sinal mais importante aparece quando o jogador perde a capacidade de controlar o comportamento.
O Ministério da Saúde classifica o transtorno do jogo como um problema mental e comportamental. Entre suas características estão a dificuldade de interromper as apostas, mesmo quando a pessoa deseja parar, e a continuidade do comportamento apesar dos prejuízos.
Carla aponta alguns sinais que podem aparecer antes ou junto dessa perda de controle: dívidas, esconder quanto dinheiro e tempo são gastos, aumentar os valores apostados e tentar repetidamente recuperar aquilo que já foi perdido.
A rotina também começa a mudar. Trabalho, família e outras atividades podem perder espaço para o jogo. Alterações no sono e no humor, culpa, ansiedade e irritabilidade quando a pessoa não está apostando também estão entre os sinais de alerta apontados pelo Ministério da Saúde.
Por que é tão difícil parar?
A repetição das apostas também está ligada ao sistema cerebral de recompensa.
"A neurociência ajuda a entender o mecanismo da aposta em bets, que tem relação com a expectativa de recompensa e o resultado da aposta, que ativam circuitos cerebrais relacionados à recompensa, com participação da dopamina", explica Carla.
Segundo a psicanalista, esse sistema de reforço pode contribuir para que a pessoa continue apostando mesmo quando já acumula perdas.
É justamente por isso que o fim das plataformas regulamentadas não encerra sozinho o problema. Depois da proibição, mais de 500 sites irregulares foram retirados do ar, enquanto outros endereços clandestinos surgiram.
Onde buscar ajuda
O transtorno do jogo tem tratamento. Pelo Sistema Único de Saúde (SUS), pessoas com problemas relacionados às apostas podem procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). O Ministério da Saúde também disponibiliza atendimento remoto e um autoteste pelo Meu SUS Digital.
O acompanhamento pode envolver diferentes profissionais e atendimentos individuais ou em grupo. A avaliação de cada caso define qual tipo de cuidado será necessário.
Para Carla, esse atendimento também precisa olhar para aquilo que está por trás do comportamento compulsivo.