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Dois terços dos tratados se concentram apenas no Brasil, na Argentina e no México, que reúnem 45% dos soropositivos da região

O acesso aos remédios contra a aids continua insuficiente na América Latina, onde há cerca de dois milhões de soropositivos e menos de 25% deles recebem tratamento.

Pedro Cahn, presidente da fundação Huésped, que luta contra a aids na Argentina, disse hoje em Viena durante a Conferência Internacional Aids 2010 que o amplo acesso aos antirretrovirais na América Latina é um "mito".

"O número de pessoas que recebem tratamento não aumenta há sete anos", afirmou Cahn, ex-presidente da Sociedade Internacional da Aids, em discurso durante a conferência.

nullA situação da aids na América Latina protagonizou hoje diversos eventos e painéis no encontro internacional, que termina nesta sexta-feira. "Há um esforço insuficiente para recrutar os pacientes que poderiam ser tratados", acrescentou Cahn em declarações à Agência Efe.

Como agravante, dois terços destes tratamentos se concentram em apenas três países - Brasil, Argentina e México -, que reúnem 45% dos soropositivos na região. Além da desigualdade na distrbuição geográfica, existe uma disparidade muito grande quanto ao custo dos tratamentos, que varia muito dependendo do país.

Entre 2001 e 2008, o número de soropositivos na América Latina e no Caribe aumentou 25%, passando de 1,6 milhão para quase 2 milhões de pessoas. Destas, se estima que 1,2 milhão já desenvolveram a doença e, por isso, deveriam receber tratamento, que atualmente chega a menos de 500 mil pacientes. A prevalência do HIV na região é muito díspar.

A média é de 0,6% da população; no caso do Haiti, essa porcentagem alcança 4%. Outro problema é que na América Latina os fundos disponíveis não se destinam aos grupos sociais mais afetados pela aids. A ONU estima que 40% das novas infecções ocorrem entre homens que têm relações sexuais com homens, mas só 10% dos fundos disponíveis são investidos em medidas preventivas para esse setor da população.

Quanto aos direitos dos soropositivos, vários ativistas latino-americanos denunciaram hoje que, apesar dos mais recentes avanços, existe uma grande diferença entre a legislação e a realidade no terreno. A mexicana Gloria Carreaga, secretária-geral da Associação Internacional de Lésbicas e Gays, chamou os Governos latino-americanos de "simuladores".

Os Governos da América Latina "assinam muitos acordos, mas depois não agem", disse Carreaga, psicóloga social da Universidade Autônoma do México (UNAM), em seu discurso. O ativista espanhol Pedro Zerolo, membro da Executiva Federal do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), destacou em um dos fóruns que reuniu representantes dos coletivos latino-americanos mais afetados pela aids que a região progrediu muito nos últimos dois anos.

"Lutar contra a discriminação é lutar contra a aids", manifestou Zerolo, ao destacar a recente aprovação do casamento homossexual pelo Congresso argentino. O espanhol também destacou nesse sentido a lei de união civil adotada no Uruguai, que inclusive permite a adoção de filhos, e os planos do Brasil de introduzir uma legislação similar à de seus vizinhos.

* Por Jordi Kuhs

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