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Convivência em abrigos poderia agravar estresse

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As epidemias de doenças infectocontagiosas passam a ser uma das principais preocupações das autoridades na região serrana do Rio, uma semana depois que fortes chuvas causaram deslizamentos e enxurradas que mataram mais de 690 pessoas.

Em Teresópolis, no entanto, também existe a atenção para os problemas emocionais dos moradores. Para a subsecretária de Saúde do município, Luciana Borges, lidar com o estresse pós-traumático das pessoas que sobreviveram ao desastre é um dos maiores desafios dos profissionais de saúde. "Estas são pessoas que estão aglomeradas em abrigos, que perderam seus familiares, suas casas, sua identidade", afirma.

O estresse pós-traumático é o transtorno decorrente de um evento causador de um choque ou trauma emocional na pessoa. Com isso, o sujeito deste estresse pode desenvolver irritabilidade, hiperatividade e distúrbios do sono, como pesadelos recorrentes.

Para contornar o estresse pós-traumático, uma das saídas é retomar a vida das pessoas em sua normalidade, com suas atividades rotineiras, como o trabalho. No entanto, existe a falta de perspectiva para boa parte dos atingidos, para quem os problemas causados pela tragédia não têm prazo certo para acabar. Segundo Luciana, a convivência com inúmeras pessoas em um pequeno espaço, como nos abrigos de Teresópolis, somente contribuem para o agravamento deste estresse.

Distúrbios psíquicos

Os pacientes com distúrbios psíquicos que estão ocupando os abrigos de Teresópolis são outro problema. Como os medicamentos para estes casos são controlados, e as pessoas em sua maioria perderam as receitas, estes remédios não estão sendo administrados, o que gera surtos que podem ser estressantes para muitas pessoas no local.

"Nestes casos, é pior não dar o medicamento do que dar o medicamento errado", afirma a subsecretária. Ela também vê o álcool e as drogas como problemas a serem combatidos nos abrigos da cidade, apesar da incidência desse tipo problema ainda ser baixa entre os desabrigados.

Autoridades de Saúde temem surtos de doenças ans regiões atingidas Como o período de risco está somente começando, ainda não foram verificadas epidemias de doenças na região de Teresópolis. Segundo Luciana Borges, o normal é que surjam surtos de eventos originados na água, como diarreias, hepatite A, leptospirose e verminoses.

Além disto, o contato com o solo contaminado pode levar à intoxicação por produtos químicos das plantações. Já as doenças respiratórias podem ser causadas pela alta umidade, pelos mofos, fungos e pelas aglomerações de pessoas nos alojamentos. Nos hospitais, já se verificam infecções e septicemia em pacientes que tiveram feridas expostas a bactérias, assim como outras doenças que atacam a pele e os cabelos, como sarnas e piolhos. Foi montado um serviço específico de tratamento de problemas de pele, no hospital de campanha e no Tiro de Guerra do município.

'Guardem energias'

A subsecretária de Saúde afirma que os trabalhos com as pessoas atingidas pelas chuvas em relação à saúde devem durar mais dois ou três meses, ou enquanto houver refugiados nos abrigos. Por isto, ela pede que os voluntários evitem se apresentar agora e "guardem suas energias" para mais tarde.

Já está sendo realizado em Teresópolis um trabalho de vacinação contra tétano e difteria. O Ministério da Saúde já enviou à serra fluminense 250 mil doses de vacinas contra as doenças. No entanto, Luciana vê como um desafio manter esta mobilização em grande escala.

Uma das principais recomendações à população é que se coloque duas gotas de hipoclorito de sódio (água sanitária) para cada litro de água que for utilizada para beber ou para o preparo de alimentos, além de utilizar botas de borracha em locais com solo possivelmente contaminado.

Locais isolados

Para a diretora do Departamento de Assistência à Saúde da Cruz Vermelha de Teresópolis, Elizabeth Benitez, os locais isolados são mais propensos a terem surtos de doenças. Segundo ela, o mais comum nestas áreas é o atendimento a casos de hipertensão, diabetes descontrolado e diarreias.

Elizabeth diz que a Cruz Vermelha tem tentado prevenir o surgimento de doenças passando informações à população. No entanto, a maior dificuldade nos trabalhos, por enquanto, continua sendo o acesso a pontos isolados, onde nem os helicópteros conseguem chegar.

A previsão da Secretaria Municipal de Saúde é de que todas as localidades atingidas pelas chuvas serão atendidas no máximo até o próximo domingo. Os principais hospitais de Teresópolis - o Hospital das Clínicas e o São José - estão com todos os seus leitos ocupados, mas sem superlotação. Já a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) tem recebido uma quantidade de pessoas considerada normal nos últimos dias. A cidade tem em torno de 250 leitos.

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