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Com treino vigoroso aplicado antes dos desfiles, ex-lutador já “enxugou” top models como Iman, Linda Evangelista e a brasileira Adriana Lima

Michael treina a modelo Lily Kwong: silhueta esbelta, e não sarada, é o objetivo do treino
Robert Caplin/The New York Times
Michael treina a modelo Lily Kwong: silhueta esbelta, e não sarada, é o objetivo do treino

Para as modelos, o ex-lutador Michael Olajide Jr. é o peso-pesado dos treinadores, o cara a quem recorrem quando têm pressa de entrar em forma para desfilar.

Para esta edição da Semana da Moda de Nova York, ele treinou quinze garotas que precisavam "esmagrecer", como ele brinca, para entrar nas roupas. O problema mais comum é sempre o quadril.

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Em preparação para os desfiles de setembro passado, outras doze aspirantes a modelos passaram a frequentar a Aerospace High Performance Center, a academia espaçosa em Manhattan que Olajide possui em parceria com a ex-bailarina Leila Fazel.

O treinamento pesado e intenso do ex-atleta inclui sequências rápidas coreografadas de socos (no ar, não nos rostos lucrativos umas das outras), combinadas com intervalos na corda num ritmo forte como não se vê em nenhum playground. Outro exemplo: uma arrancada de patins para cair com um pé cruzado atrás da perna oposta. O som das aulas muitas vezes se parece com o de uma tempestade de granizo, tamanho é o barulho das cordas batendo no piso. Cada uma pesa 340 gramas e ganhou o nome de Rainmaker ("fazedor de chuva") pelo suor que produz.

"Gosto de dizer que não existe essa coisa de 'fusão a frio'. É preciso estar com o corpo quente se quiser queimar calorias e emagrecer" dispara Olajide. Ele alega que pular corda faz o corpo se movimentar mais rápido que qualquer outro exercício, transformando o forno metabólico "numa verdadeira grelha".

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Olajide, de 49 anos, era um boxeador peso-médio bem qualificado ‒ até que uma lesão o deixou praticamente cego do olho direito e encerrou sua carreira. Ele trabalha com a indústria da moda desde os anos 90. Nunca soube exatamente o que atraiu as primeiras beldades para a sua aula, embora ajude o fato de estar sempre bem vestido e elegante.

Quando está "à paisana", prefere Jean Paul Gaultier. Quando ainda lutava, usava um robe de cetim branco que ele mesmo criou, com ombros ao estilo samurai e um dragão de três cabeças soltando fogo que custou US$ 2 mil. Sobre o olho cego, usa tapa-olhos de sua própria criação: um olho de Hórus cinza, símbolo de proteção no Egito antigo; um oval meio quadrado dourado com rebites e tela metalizada e um em formato de estrela de prata que adora, mas raramente usa porque seus raios são muito pontudos.

Olajide, com 1,83 m e 75 kg, acabou treinando tops como Iman e Linda Evangelista ‒ que o recomendou a um fotógrafo de moda que, por sua vez, o recomendou a Adriana Lima. A brasileira de 31 anos trabalha com ele há sete. Depois do nascimento da segunda filha, em setembro, ele chegou a treiná-la seis horas por dia , sete dias por semana durante cinco semanas para prepará-la para um dos pontos altos de sua carreira: o desfile da Victoria's Secret. O caso da baiana, porém, que precisa de "movimento perpétuo", como ele diz, foi extremo; a maioria dos treinamentos envolve uma hora por dia, às vezes duas.

Olajide reconhece que o peso pode voltar rapidinho se o treinamento e a dieta pré-desfile forem suspensos.

"É como os boxeadores, que têm um peso de apresentação e um peso no dia-a-dia", ele diz das modelos. E a cada temporada, pode ficar cada vez mais difícil voltar ao peso original.

"É uma questão saber até que ponto elas estão mentalmente preparadas para o sacrifício, quanta fome estão dispostas a passar."

A britânica Nyasha Matonhodze, de 18 anos, começou a frequentar a academia de Olajide por recomendação da agência.

"Nós modelos, sabemos que temos que ser, como alguns dizem, ridiculamente magras", ela assume.

"Não é exatamente como o corpo feminino deveria ser, mas é alta moda."

Nas últimas três semanas ela chegou a malhar no Aerospace duas vezes por dia, perdendo quase 4 cm de quadril. A modelo diz que gosta da academia porque se sente "como uma menininha". Quanto a Olajide, ela diz: "Ele é muito bonzinho e receptivo, além de ser muito humilde".

Durante as aulas, o ex-boxeador analisa as modelos ("minhas guerreiras") como faria com os adversários antes das lutas, procurando sinais de fraqueza e falta de autoconfiança.

"Eu também já tive que trabalhar o peso – e sei que a tarefa é muito complicada, é preciso ter apoio", ele comenta.

"Chega uma hora que não é só malhar."

Abdominais: barriga sarada é contraproducente para as modelos, diz o treinador
Robert Caplin/The New York Times
Abdominais: barriga sarada é contraproducente para as modelos, diz o treinador

Os movimentos mudam a cada 90 segundos, em parte porque a fadiga mental vem sempre antes da física. Os exercícios que modelam os meros mortais podem acabar com a carreira na passarela: as flexões estão proibidas – desenvolver o peito é péssima ideia – assim como os agachamentos e repetições pesadas, que deixam o bumbum muito arredondado para caber nas roupas – esse tipo de exercício só é permitido às modelos de lingerie porque precisam ter mais curvas, explica ele. Os abdominais também são poucos.

"Quando eles queimam a gordura para valer a barriga vira tanquinho, que também não é o ideal para elas", Olajide explica.

"Ela tem que ficar chapada, mas se ficar muito dura ou muito definida é contraproducente. O resultado tem que ser alongado, fluido, esbelto."

Caitlin Holleran, de 16 anos, que em outubro desfilou com um longo de chiffon para a Yves Saint Laurent em Paris, esta temporada teve que perder 5 cm nos quadris para ficar com as medidas (86 cm) exigidas para o tipo de trabalho que faz. Entre outras coisas, a ioga vinyasa que ela vinha fazendo estava desenvolvendo muito seus músculos.

A garota penou para conseguir dominar os pulos, mas mesmo fazendo só "o básico", já conseguiu atingir seu objetivo "super-rápido", graças às quatro ou cinco aulas por semana, mais as sessões com o personal trainer. Três semanas do método intenso foram suficientes para Drake Burnette, de 27 anos, que queria perder 4 cm de quadril para tentar conseguir o primeiro trabalho na Semana da Moda (ela assinou com uma agência há seis meses).

"A aula é um verdadeiro inferno, mas você se sente ótima depois e não vê a hora de voltar", ela conta.

Chris Gay, presidente da Marilyn Agency de Nova York, disse que "mandar as meninas para a academia antes da Semana da Moda é sucesso garantido".

"Não é mágica", ele se apressa em acrescentar. "É uma malhação intensa e maluca, e o Michael é superexigente com elas."

Na Aerospace, nos dias que antecedem os desfiles, as modelos usam leggings para evitar marcas e hematomas se a corda escapar acidentalmente. Concentração é boa coisa, mas uma testa enrugada também é mau sinal.

"Tem que relaxar o rosto", Olajide diz a elas, a voz suave tão calma que, às vezes, ironicamente, dá até medo de ouvi-la.

Mais tarde, ele explicou: "Se você franze a testa durante uma, duas horas por dia, ela vai ficar desse jeito. Não posso deixar que saiam daqui com rugas que não tinham quando entraram – porque vão perder o emprego rapidinho, assim como eu".

* Por Courtney Rubin

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