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Caso gerou processo médico e reacendeu debate sobre riscos e benefícios dos transplantes

O cenário era único até mesmo para os médicos. Em Nova York, nos Estados Unidos, um homem recebeu um transplante de rim de uma mulher que tinha câncer de útero e não sabia. Ainda assim, decidiu manter o órgão depois que o cirurgião que transplantou o rim garantiu que as chances dele adoecer de um câncer feminino como o de útero eram ínfimas.

A orientação médica, no entanto, jogou com a vida do paciente Vincent Liew e perdeu, afirmaram os advogados de sua viúva aos jurados no julgamento de um caso que, dizem os especialistas, parece ser realmente único: um câncer uterino transmitido por transplante.

Os jurados do caso começaram a deliberar na última quinta-feira, 28/5, sobre o processo movido contra o Centro Médico Langone da Universidade de Nova York. “O hospital deve se responsabilizar por assumir um grande risco em relação à vida de Vincent Liew não orientando o paciente a remover imediatamente o rim defende o advogado Daniel Buttafuoco, no caso de má-prática médica que devolveu à baila os riscos e benefícios dos transplantes.

O hospital se defende garantindo que avisou Liew do risco, acatou a decisão do paciente de manter o órgão e monitorou exaustivamente o rim em busca de qualquer sinal de câncer no órgão. Apesar de os testes não mostrarem nenhuma alteração dessa natureza, o paciente começou a sofrer de dores nas costas e o rim foi removido seis meses depois do transplante, feito em 2002. Liew morreu três semanas depois da retirada do rim, de um câncer que veio de sua doadora, afirmou a autópsia, sem especificar o tipo de câncer que acometeu o paciente. Liew tinha 37 anos.

“Isso não deveria ter acontecido, mas não é culpa do hospital, não é culpa de Thomas Diflo (o cirurgião que realizou o transplante) e nem do paciente. Ele recebeu o melhor tratamento possível” afirmou o advogado do hospital, Robert Elliott. A viúva de Liew, Kimberly, pede 3 milhões de dólares por danos morais.

Liew nasceu em Cingapura e trabalhava no Escritório de Comércio de Hong Kong em Nova York. Diabético desde a adolescência, ele fazia diálise três vezes por semana e esperava por um transplante de rim há quase cinco anos quando finalmente recebeu o rim de Sandy Cabrera, de 50 anos, que morrera de acidente vascular cerebral (AVC) sem saber que tinha câncer de útero. “Ninguém sabia que ela tinha câncer” disse o namorado de Sandy, Michael Daniels, em entrevista por telefone à AP.

Uma autópsia alguns dias depois da morte de Sandy mostrou que o câncer de útero havia começado a se espalhar para seus pulmões. Apesar de o transplante ter sido feito em fevereiro de 2002 a informação não chegou ao cirurgião que transplantou o rim em Liew até a metade de abril. O hospital que tratou Sandy, o Saint Luke’s Cornwall, se recusou a comentar o caso e a organização que operacionalizou o transplante, a Rede de Doação de Órgãos de Nova York não retornou rapidamente às ligações feitas pela central de transplantes do Langone.

Sem literatura médica disponível sobre uma possível transmissão de câncer uterino por um transplante, o cirurgião Diflo afirmou em seu testemunho ter dito a Liew que o mais seguro a fazer era remover o rim, embora as chances de desenvolver esse tipo de câncer eram ínfimas.

Em um duelo entre testemunhos de especialistas em oncologia as opiniões se dividiram quanto a se foi o câncer da doadora que matou Liew. O oncologista que revisou os registros médicos de Liew e testemunhou em favor do hospital, Jeffrey Schneider, acredita que o paciente morreu de um tipo de câncer do sistema imune que algumas vezes afeta transplantados.

Os centros federais de Controle e Prevenção de Doenças estimam que 1% dos órgãos transplantados nos Estados Unidos são suspeitos de transmitir doenças Os dados, no entanto, são esparsos. Em 2007, apenas 23 casos em mais de 28 mil transplantes de órgãos em todo o país são suspeitos de terem contraído doenças como cânceres, HIV e tuberculose de seus doadores, de acordo com um artigo publicado em 2009 no Jornal Americano de Transplantes. Desses 23 receptores, 12 morreram, de acordo com o artigo, que examinou os boletins feitos pela Rede Nacional de Transplantes americana.

Doadores em potencial são avaliados em busca de diversas doenças antes de serem considerados candidatos viáveis para doação e os que têm cânceres ativos geralmente são eliminados da lista. Segundo o chefe do sistema de transplantes da Universidad de Michigan, Jeffrey Punch, algumas doenças, no entanto, não são detectadas na pequena janela de tempo imposta em uma situação de transplante – em geral de um dia.

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