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Chiara, 82 anos, é parteira e já trouxe ao mundo 30 mil crianças

Chiara já fez 30 mil partos
Amana Salles/Fotoarena
Chiara já fez 30 mil partos
 A tesoura cirúrgica de Chiara Barbastefaenfanano Gragnano já cortou 30 mil cordões umbilicais.

“Mas eram outros tempos, época em que o parto normal ainda não estava em extinção. Para ajudar uma mãe a saborear a maternidade era preciso só boa vontade, a tal tesoura cirúrgica e um estetoscópio”, afirma Chiara que, aos 82 anos, aceitou revisitar sua trajetória como uma das parteiras mais antigas de São Paulo.

“Nos meus registros, ajudei a trazer ao mundo cerca de 30 mil crianças. Cada uma delas com uma história para contar.”

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Há meio século, quando dava o primeiro plantão no Hospital de Clínicas paulista, o País ainda não vivia este boom de cesarianas que, na definição do Conselho Federal de Medicina (CFM), já configura situação de epidemia. O excesso de cesáreas aflige especialistas e também dona Chiara pois, quando o procedimento não é feito em situações em que mãe ou criança sofrem algum risco, pode ocasionar à mulher e ao bebê problemas sérios de saúde.

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Mapeamento inédito feito pelo  iG Saúde  – com os números fornecidos pelo Ministério da Saúde – mostra que em 16 dos 26 Estados brasileiros e do Distrito Federal o número de cesáreas supera o de parto normal (Rondônia, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Paraíba, Alagoas, Mato Grosso, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Distrito Federal, Goiás, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul).

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“Nem os médicos, nem as mulheres têm paciência de enfrentar o trabalho de parto. Tudo tem de ser com data e hora marcada. Os aparelhos de última tecnologia substituíram o contato, olho no olho”, lamenta Chiara.

“Mas eu e minhas colegas parteiras sabemos o quão importante é segurar a mão da mãe na hora de dar o filho à luz”.

Michael Jackson e vaselina

Nem sempre foi assim, pontua a parteira que coleciona 30 mil partos no currículo, divididos entre a experiência de ter atuado no HC, na maternidade Pró-Matre, na Casa de Parto da Zona Leste, no Hospital Modelo e no Hospital da Penha.

Tudo começou quando, aos 18 anos, ela decidiu parar de lamentar a dificuldade que era entrar em uma faculdade de medicina nos anos 50 e investir no curso de Obstretícia da Universidade de São Paulo (USP). Em quatro anos de graduação, ela teria diploma de parteira.

Filha de imigrantes italianos, mais velha de cinco irmãos, Chiara queria estudar e trabalhar com saúde, pois o restaurante dos pais, localizado no Brás (região central paulistana), não a apetecia como vocação.

Chiara foi aprovada no vestibular e, aos 22 anos, já estava dando plantões de 24 horas nas maternidades, intercaladas com 12 horas de descanso. “Sem telefone e sem hora marcada, ficava de prontidão esperando os homens aflitos que entravam no hospital, dizendo que a hora dos seus filhos nascerem havia chegado”, conta.

Na companhia dos pais ansiosos, Chiara entrava na ambulância e partia para as casas das futuras mamães. “Fiz parto em cama de gente rica, classe média e pobre, muito simples. Conheci quase todas as favelas e casas de luxo de São Paulo. Certa feita, perto de um Natal, uma mulher muito pobre teve o parto no chão. A criança foi colocada em cima de um amontoado de palha, como fosse uma manjedoura.”

Se algo no trabalho de parto desse errado, a mesma ambulância levava a família ao hospital para que os ginecologistas continuassem o processo.

Dona Chiara – por conta do nome difícil ela era chamada pelas mães simplesmente de Chi (Xi) – não acompanhava só a "hora H” do nascimento.

“Estava presente em todo o pré-natal, ajudava a fazer planejamento familiar, virava amiga da família mesmo”, diz cheia de saudade.

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A parteira, sempre muito requisitada na comunidade, não se importava com o fato de suas pacientes não acertarem a pronúncia de sua identidade de batismo. “Nunca nenhuma acertou de primeira o meu nome”.

Com seu jeitinho, tentava persuadir algumas mulheres a repensar a escolha dos nomes que dariam aos seus bebês, “bem mais estranhos do que o Chiara”, diverte-se. “Era cada coisa...”, lembra, às gargalhadas.

“Uma mulher uma vez já chegou com o registro de “Vaselina” para sua filha. Nomes de personagens de novela, como Jorge Tadeu e Porcina, também eram frequentes. Nos anos 80, você não tem ideia da quantidade de Michael Jackson que as mães queriam colocar no mundo.”

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Mãe do coração

Foi lá pelo final dos anos 80 que a parteira Chiara Gragnano começou a pensar em “pendurar a tesoura e o estetoscópio”.

Chiara até já tentou pendurar a tesoura e o estetoscópio, mas sempre é requisitada
Amana Salles/Fotoarena
Chiara até já tentou pendurar a tesoura e o estetoscópio, mas sempre é requisitada
O cansaço das pernas e a rotina pesada de plantões começaram a cobrar fatura. O fato é que ela nunca conseguiu concluir a aposentadoria de forma definitiva. Até hoje, é requisitada para acompanhar partos, principalmente da família e dos vizinhos.

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“Existem gerações de avós, mães e filhas que nasceram todas comigo”, afirma com orgulho.

Nesta caminhada toda, Chiara garante que a principal lição que aprendeu foi diferenciar parto de maternidade.

“Parir todo mundo consegue, qualquer animal. Agora carinho de mãe, amor materno, isso é outra história. Mãe é quem cria”, diz usando a sua história como bandeira para tal convicção.

O trabalho árduo nas maternidades e a falta de rotina – já que a qualquer minuto alguém poderia requisitar os serviços – fizeram com que Chiara postergasse o casamento e a vontade de engravidar.

“Só casei aos 45 anos e já era tarde para ter filhos. Mas tive sorte. Virei mãe e avó do coração.”

O marido de Chiara veio com o pacote completo. Viúvo, trouxe dois filhos já adultos na bagagem. No começo do namoro, ela já foi apresentada ao neto postiço.

“Depois vieram mais três netinhos e agora já são cinco bisnetos. Todos são minhas paixões”, diz.

A parteira mais antiga de São Paulo precisou interromper a entrevista pois chegara a hora de buscar sua bisneta na aula de balé. Antes só pediu a palavra para concluir que “quer viver até os 100 anos com saúde”. “E, talvez, acompanhe o parto do meu tataraneto”, diz.

“Um dos meus bisnetos está com 15 anos, namorando firme. Vai saber...”, sugere, ao emendar: “mas ainda é cedo para pensar em gravidez, ele é jovem demais.”

Toda parteira de respeito, ensina Chiara, também deve se preocupar com o planejamento familiar de seus pacientes.

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