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Técnica chinesa completa 15 anos como especialidade disseminada entre pediatras e ortopedistas

Pediatria e ortopedia são as especialidades que mais
Mauricio Contreras/ Fotoarena
Pediatria e ortopedia são as especialidades que mais "exportam" mão de obra para a acupuntura

A técnica que mistura agulhas aos tratamentos convencionais de saúde completa, neste mês de agosto, o 15º aniversário como especialidade médica reconhecida no País. Os anos transformaram o perfil de profissionais da área. Os novos médicos adeptos da acupuntura brasileira, entretanto, não são tão novatos assim.

O Delas pediu à Associação Médica Brasileira de Acupuntura (AMBA) que fizesse um levantamento sobre as principais características dos especialistas que estão espalhados em consultórios particulares e postos públicos oferecendo o tratamento aos pacientes. O cadastro de 131 acupunturistas mostrou que a maioria – mais de 80% – quando encontra a medicina chinesa já tem experiência mínima de 10 anos na medicina tradicional.

Antes de começar a usar as agulhas como principal instrumento de trabalho, uma boa parte dos médicos se especializou em clínica médica (26%). Depois da medicina geral, a pediatria é a área que mais “exporta” profissionais para a acupuntura, com 15% do total de ouvidos. Anestesistas somaram 13% dos médicos acupunturistas e, em quarto lugar, estão os ortopedistas com 8% dos registros. Mulheres são duas vezes mais numerosas do que os homens (elas também já lideram entre os estudantes de medicina como um todo) e a ascendência oriental não é tão recorrente entre os especialistas.

“É por isso que o grupo de profissionais que atua com acupuntura é muito bem formado, pois já tem experiência de anos em outras áreas”, opina o presidente do Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura Brasileira, Dirceu de Lavôr Sales. O presidente da AMBA, Ruy Tanigawa, acrescenta que a explicação para a formação original dos profissionais estar mais centrada em pediatria, ortopedia e anestesia é que são áreas que lidam muito com a dor, um sintoma subjetivo. “São médicos que procuram a acupuntura com uma preocupação em olhar o paciente como um todo e não só para tratar um sintoma.”

Percussores

O inicialmente clínico geral Ruy Tanagawa foi um dos primeiros a oferecer consultas de acupuntura no País
Mauricio Contreras/ Fotoarena
O inicialmente clínico geral Ruy Tanagawa foi um dos primeiros a oferecer consultas de acupuntura no País
Tanigawa e Sales são percussores da acupuntura no País. O primeiro, apesar do sobrenome, não encontrou a técnica em uma tradição familiar.

“Tinha muitos amigos japoneses e mais velhos que trabalhavam com acupuntura. O interesse apareceu já enquanto fazia faculdade de medicina no ABC paulista e foi ficando mais forte. Saí da faculdade já querendo trabalhar com isso”, diz.

Sales também conta que não precisou de nenhuma “influência genética oriental” para seguir o caminho da acupuntura. “Meus pais são cearenses, eu nasci no Rio de Janeiro, cresci em Fortaleza e abri o primeiro consultório de acupuntura em Recife”, diz.

Os dois começaram a clinicar acupuntura em 1982, dezesseis anos antes dela ser reconhecida como especialidade médica pelo Conselho Federal de Medicina (CFM).

Ambos batalharam, um no Nordeste e outro no Sudeste, para que a técnica fosse aceita pela população, desmistificada e disseminada nos quatro cantos do País. Em 1995, o CFM passou a exigir treinamento específico (residência de dois anos) para os que quisessem fazer da técnica o principal meio de trabalho.

“O Brasil foi o primeiro local do mundo a ter residência médica em acupuntura, primeiro do que Japão e China,. Depois vieram os cursos de pós-graduação e as especializações”, afirma, satisfeito, o presidente do Colégio de Acupuntura Sales.

Simultaneamente à validação nacional, a técnica que há dois mil anos já era aplicada na medicina oriental passou a atrair os cientistas ocidentais, inclusive das principais universidades de saúde do País. “O reconhecimento fez com que a ciência se interessasse pelo assunto. Mais pesquisas foram feitas, mais pacientes procuraram espontaneamente as técnicas e mais médicos migraram para a área”, complementa Tanigawa.

Nova cara

Paulo Amir Czaczkesé pediatra há 22 anos e há oito se especializou em acupuntura
Divulgação
Paulo Amir Czaczkesé pediatra há 22 anos e há oito se especializou em acupuntura

Hoje, são 9 mil especialistas no País – mais do que o número de otorrinolaringologistas e fisiatras. A leva de pesquisas com a grife de terem sido publicadas nos mais importantes jornais como o British Medical Journal e Lancet, também seduziu profissionais que, inicialmente, haviam escolhido o lado mais tradicional da carreira médica. Depois de Tanagawa e Sales, a nova cara da acupuntura brasileira pode ser representada por Paulo Amir Czaczkes.

“Acredito que dei toda a minha contribuição como pediatra e, hoje trabalhando com acupuntura, a satisfação é enorme e imediata. O retorno dos pacientes, a maioria idosos, é visível e agora eu consigo ficar 1h30 minutos com cada um em cada consulta”, completa ele ao citar o caso de um idoso que conviveu por 10 anos com a dor crônica e depois de cinco sessões já não tinha mais sintomas.

A dor e o placebo

Atualmente, são realizadas 400 mil consultas de acupuntura por ano no País, mais da metade delas no Serviço Único de Saúde (SUS). A dor, de fato, a condição que reúne mais evidências científicas da eficácia da técnica milenar chinesa.

Desde os primórdios, o princípio da acupuntura é estimular pontos estratégicos do organismo, prevenir e curar sintomas com o equilíbrio corporal, usando técnicas usadas também pela neurologia, por exemplo. Mas os benefícios pesquisados atualmente vão além dos pontos estratégicos do corpo. A maior dedicação ao paciente citada pelo pediatra/acupunturista Czaczkes pode ser o segredo de sucesso da acupuntura.

As pesquisas mais recentes deixaram de focar esforços em comprovar a prática como benéfica e um dos exemplos é o ensaio publicado nos Anais Internacionais de Medicina. Os estudiosos da Universidade de Heidelberg, na Alemanha, dividiram 1.007 pacientes com dor crônica no joelho em três grupos: o primeiro recebeu acupuntura, o segundo tratamento antiinflamatório tradicional e o terceiro acupuntura placebo, que estimulava com agulhas pontos aleatórios do organismo, sem seguir os preceitos originais da técnica. O índice de sucesso da primeira turma foi de 53%, 29% na segunda e 51% na terceira.

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