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Conheça três mulheres com mais de 60 que transformaram a atividade física em um estilo de vida

Tomiko Eguchi treina todos os dias para disputar ultramaratonas
Mauricio Andres Cáceres/Foto Arena
Tomiko Eguchi treina todos os dias para disputar ultramaratonas
Todos os dias, às cinco horas da manhã, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, Tomiko Eguchi, de 60 anos, começa a suar seu uniforme de trabalho.

Shorts, camiseta, meias e tênis de corrida, instrumentos fundamentais para a auxiliar de enfermagem aposentada.

Desde que deixou as seringas e os plantões noturnos nos hospitais, Tomiko investe nos treinos para ultramaratonas.

A atividade física, entretanto, demorou a ocupar espaço na rotina. Por orientação médica, ela deveria investir em alguma modalidade que lhe ajudasse a controlar o colesterol, doença herdada da família, e a osteoporose. Quatro anos se passaram sem que Tomiko fizesse algum movimento contra o sedentarismo.

Em março de 2002, após 30 dias de caminhadas intensas, a descendente de japoneses, estimulada por uma amiga, decidiu inscrever-se em uma corrida de 12 quilômetros.

“Na época, consegui fazer apenas metade da prova em 30 minutos. Foi o que agüentei.”

De lá pra cá, são quase 200 provas e mais de 50 troféus. Dedicada, ela revela que treina duas horas por dia, todas as manhãs. Aos finais de semana, a intensidade triplica. “Chego a correr oito horas, aos sábados e domingos, quando estou me preparando para competir. Em uma competição, já corri 48 horas e 14 minutos, parando apenas para um lanchinho”, diverte-se ela.

A simples recomendação médica, ao longo dos anos, rendeu à atleta – além de prêmios e um corpo enxuto – fôlego, força, equilíbrio e qualidade de vida incompatíveis com o perfil traçado pelo senso comum para as senhoras da terceira idade. Tomiko tem uma verdadeira predileção por ultramaratonas. O objetivo, além do condicionamento, é o desafio.

“Gosto de aventuras, superar limites. Na minha idade não conseguimos evoluir em velocidade, mas em resistência. Esse é o desafio.”

Raimundo de Santana Santos é instrutor de Tomiko há mais de quatro anos. Na opinião do professor, a aluna é capaz de deixar muita jovem de 20 anos a quilômetros de distância. Os cuidados, porém, são maiores. Para que a atleta tenha condicionamento físico, Santos investe na musculação e no alongamento. Além disso, a aposentada repete, duas vezes ao ano, todos os exames de rotina. Um check up completo.

Muito além dos bailes

Aula de dança flamenca na academia Pulsarte
Mauricio Andres Cáceres/Foto Arena
Aula de dança flamenca na academia Pulsarte
A parceria entre idade avançada e atividade física pode render, além da diminuição de dores e do aumento do condicionamento físico, poder de sedução e autoconfiança. Engana-se quem acredita que o "olhar 43" está limitado às jovens. Camila Forjaz, 61, é aluna de dança flamenca há quatro anos.

Dedicada, a relações públicas da USP, agora aposentada, não poupa elogios à modalidade e aponta os ganhos obtidos com a prática.

“Já sou magra, mas a dança me deu postura, elegância, além de pernas e braços mais fortes e desenhados.”

Além dos resultados visíveis, a aula oferece 90 minutos de momentos lúdicos. A música vibrante, em alto e bom tom, cantada em castelhano, somada às pisadas fortes dos sapatos, específicos para a modalidade, são ouvidas do último andar da academia de dança.

Cada pisada no chão parece exigir força e sedução. Apesar de tímida, Camila não nega o efeito moral da dança dentro de casa. "Me sinto uma bailarina profissional. Acho tudo muito lindo, envolvente. Meu marido também adora, é um grande entusiasta da dança.”

De fato, a modalidade parece ter um benefício psicológico bastante elevado. Balançar a saia preta e vermelha, fazer movimentos fortes com os pés e leves com as mãos, além de trabalhar as articulações e o equilíbro, impõe uma sensação de superioridade feminina.

Segundo Denise Santoro, coordenadora e diretora artística de dança flamenca da academia Pulsarte, em São Paulo, a sensualidade comedida da dança estimula o ideário da mulher forte, imponente. “Elas começam retraídas, mas é visível a concentração e vontade de se impor, se valorizar, principalmente das senhoras acima dos 60 anos”, revela a especialista.

A dança flamenca, assim como a corrida, é altamente indicada para aliviar os sintomas da osteoporose. O impacto dos pés no chão deve ser leve. Quem faz o barulho é o sapato, não a força. “É deixar o peso da perna no chão. Esse movimento estimula o cálcio a sedimentar nos ossos, combatendo a doença", ensina Denise. Além disso, ela pontua que os movimentos com as mãos são ótimos para aliviar dores provocadas pela artrite e pela artrose.

"Funciona como uma espécie de fisioterapia, ajuda a alongar e esticar os tendões."

Tai chi da vovó

Lidia Leite ensina seus pupilos as técnias do Tai Chi Chuan
Mauricio Andres Cáceres/ Foto Arena
Lidia Leite ensina seus pupilos as técnias do Tai Chi Chuan
A camiseta azul-marinho, com o nome do grupo escrito em letras brancas, apresenta a quem entra no pequeno salão de reuniões da Igreja Santa Tereza de Jesus, na zona sul de São Paulo, mais um grupo de terceira idade extremamente ativo.

Formado majoritariamente por mulheres, elas não balançam as saias, tampouco sobem montanhas. As dez senhoras são convidadas pela instrutora, Lidia Leite, de 78 anos, a enraizar os pés no chão e puxar toda a energia da terra. Em seguida, exercícios chamados de “massagear a nuvem” ou “abraçar a árvore” são responsáveis por estimular o equilíbrio e alongar todos os membros do corpo.

A aula de tai chi chuan requer concentração, calma e equilíbro. O grupo trabalha seus limites individuais, aprendem a respirar corretamente e ter consciência corporal. Dona Eulália, de 75 anos, é a primeira a relatar o fim das dores na coluna e no ciático, desde que se tornou frequentadora assídua das aulas de Lídia. Rapidamente, as demais senhoras, cada qual com seu benefício para expor, exaltam a qualidade da técnica.

Para enxergar os resultados, porém, é preciso dedicação. As aulas na igreja paulista são oferecidas duas vezes por semana, e têm duração de 90 minutos. “Quem está disposto a não faltar, conseguirá em apenas três meses sentir a diferença,” defende a professora.

Além de dar aulas para as amigas católicas, Lidia é aluna da Sociedade Brasileira de Tai Chi Chuan. “Pratico de quatro a cinco vezes por semana.” Segundo os médicos, a filosofia de vida e os exercícios dessa técnica são, de fato, extremamente positivos para a terceira idade.

Francisco Torggler Filho, geriatra do Hospital Sírio Libanês de São Paulo estimula seus pacientes a procurar uma atividade física, e tem o tai chi como uma das primeiras indicações.

“Todo exercício é benéfico e deve ser valorizado. É preciso que cada um encontre a modalidade que terá condições de encarar com seriedade, disciplina e prazer.”

Para o geriatra, a proposta, além de correr do sedentarismo e elevar o bem-estar dos mais idosos, usa o exercício para blindar o organismo. Torggler explica que deve-se priorizar atividades que trabalhem a parte aeróbia, o equilíbrio, a força e alongamento.

“Com esses quatro pontos bem exercitados, é possível reduzir o risco de queda, trabalhar a saúde mental, diminuição das chances de infarto, derrame, além de ajudar no controle da pressão arterial.”

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