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Paixão, insistência, superação: atletas revelam suas inspirações para vencer a Ultramaratona BR135

Emoção e lágrimas na chegada da Ultramaratona BR135
Guilherme Lara Campos / Fotoarena
Emoção e lágrimas na chegada da Ultramaratona BR135
Eles não ganham prêmio em dinheiro. Ao contrário, desembolsam para participar da Ultramaratona BR135 . E não é pouco. A prova é realizada em um dificílimo trecho da Serra da Mantiqueira (ao sul de Minas Gerais) e muitos vêm de longe – de norte a sul do Brasil e até mesmo de outros países. Portanto, além do valor da inscrição (750 reais), gastam com deslocamento, hospedagem, alimentação, equipe de apoio.

Eles se dispõem a enfrentar mais de 200 quilômetros de um percurso cuja altimetria mais parece um eletrocardiograma, tamanho o número de morros a vencer. Isso tudo sob a pressão de completar a prova em até 60 horas. São três dias e noites de sol, chuva, poeira, incertezas. Sem contar a má alimentação, a privação de sono, a dor física .

Por que tudo isso?

“Se quiser acabar com minha vida, me tire dessa prova”, disse emocionado o vendedor Adilson Ligeirinho, 42 anos, bi-campeão da BR135 (e terceiro colocado este ano), que começou a correr há 16 anos para vencer a obesidade.

Já o técnico de segurança José Servello, 62 anos, justifica sua presença nas seis edições da corrida pelo lado espiritual. “Por ser realizada em parte do Caminho da Fé, leva a muitas reflexões”.

O jornaleiro Áureo Adriano, de 47 anos, de São José dos Campos (SP), quinto colocado, exalta a amizade no mundo dos ultras. “venho para encontrar meus amigos”.

Com currículo rejeitado por duas vezes na BR135, a corredora Raimunda Pinto dos Santos garantiu sua vaga em 2011 . Com determinação e coragem que só os teimosos têm, cruzou a linha de chegada às lágrimas após 52 horas e 30 minutos.

A brasileira Jacqueline Terto e o americano Marty  Fritzhand: 217 quilômetros de apoio
Guilherme Lara Campos / Fotoarena
A brasileira Jacqueline Terto e o americano Marty Fritzhand: 217 quilômetros de apoio

O choro também fechou a corrida do médico americano Marty Fritzhand, de 57 anos. Com bolhas horríveis nos pés, ele cumpriu os últimos 20 quilômetros praticamente apoiado nos ombros de sua pacer, a ultramaratonista Jacqueline Terto. “Apesar de não ter dormido nada nas últimas 60 horas, não podia demonstrar que estava cansada ou com dores. Precisava dar apoio ao Marty até o fim. Completar era muito importante para ele”, emocionou-se Jacque ao final. “Aqui a gente morre e ressuscita mil vezes”, explicou o corredor Julio Cesar Latini Junior.

A chegada mais emocionante

Cada um que chega é recebido por um pequeno grupo da organização e por alguns amigos na singela pracinha da cidade de Paraisópolis. Mas o que falta em pompa, sobra em emoção. E foi impossível não ir às lágrimas com a chegada do médico Wagner Ricca, de São Paulo. Sua esposa, Ana Maria Queiroz, a Aninha, primeira mulher a cruzar a linha de chegada na BR135 em 2010, inscrita para esse ano, faleceu dois dias antes da corrida, de câncer. O fato pegou a todos de surpresa, pois, segundo os amigos, a expectativa de melhora dela e prognósticos eram excelentes.

Wagner disse que foi para a BR 135 pois tinha a certeza que sua participação era necessária para fechar o ciclo. Acompanhado de alguns amigos, venceu os 217 quilômetros em 54 horas e 39 minutos. Douglas de Melo, parceiro de corridas do médico, que o acompanhou na aventura da BR135, tenta explicar o que parece que só quem está lá entende: “É uma prova mágica, com uma energia positiva, que desperta bons sentimentos. Aqui se conhece os bons corações”.

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