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Competidores unem treinamento físico com preparo psicológico para superar os desafios

Vencer dor e cansaço é parte do desafio dos corredores
Thinkstock/Getty Images
Vencer dor e cansaço é parte do desafio dos corredores

Meu filho, Stefan, participava de uma meia-maratona na Filadélfia no mês passado quando ouviu alguém chegando por trás deles, respirando pesadamente.

Para sua surpresa, tratava-se de uma atleta de elite, Kim Smith, corredora da Nova Zelândia. Ela quebrara os recordes em curta distância de seu país e agora estava participando de meias-maratonas. Smith correu a maratona de Londres na última primavera, e participará da maratona de Nova York no próximo mês.

Naquele dia, Smith parecia estar com dificuldades. Sua respiração era difícil, e ela tinha saliva por todo o rosto. Mas de alguma forma ela manteve o ritmo, terminando logo atrás de Stefan e chegando em quinto lugar, com tempo de 1:08:39.

Esse é um dos segredos dos atletas profissionais, disse Mary Wittenberg, presidente e diretora executiva do New York Road Runners, grupo que organiza a Maratona ING da Cidade de Nova York. Eles conseguem prosseguir num nível de esforço que parece impossível de manter.

“A tenacidade mental – e a habilidade de gerenciar a dor, obtendo sucesso através dela – é um divisor básico entre os mortais e imortais na corrida”, afirmou Wittenberg. Isso pode ser visto nos rostos cobertos de saliva dos principais corredores na maratona de Nova York, ela acrescentou.

“Na chegada, temos toalhas apenas para limpar o cuspe dos rostos dos vencedores”, disse ela. “Nossa equipe de criação algumas vezes tem de apagar a saliva das fotos que queremos usar em campanhas publicitárias”.

Tom Fleming, que treina Stefan e a mim, concorda. Duas vezes vencedor da maratona de Nova York e corredor de longa distância que era classificado como o quarto do mundo, ele diz haver uma razão para ele ter sido tão rápido.

“Eu recebi um corpo que aguentava treinar todos os dias”, disse Fleming. “E uma mente, uma mentalidade, que acreditava que se eu treinasse todos os dias eu poderia vencer qualquer um”.

“A mentalidade era: farei o que for preciso para vencer”, acrescentou ele. “Eu estava completamente disposto a suportar as piores dores. Estava disposto a fazer qualquer coisa para vencer a corrida”.

Mas a questão é: como eles fazem isso? É possível treinar você mesmo a correr, pedalar, nadar ou fazer qualquer outro esporte ao topo do limite de seu corpo, ou isso é algo com que algumas pessoas já nascem tendo, parte do que faz deles atletas de elite? Médicos de esportes que examinaram a questão dizem que, no mínimo, a maioria das pessoas poderia obter desempenhos bem melhores se apenas soubessem o que é preciso para fazer seu melhor.

“Absolutamente”, disse o Dr. Jeroen Swart, médico de medicina esportiva, fisiologista de exercícios e campeão de mountain bike cross-country que trabalha no Instituto de Ciência Esportiva da África do Sul. “Algumas pessoas acham que os atletas de elite tiram aquilo de letra”, afirmou Swart numa entrevista por telefone. Isso não poderia estar mais longe da verdade.

À medida que os atletas se aperfeiçoam – ficando mais rápidos e batendo seus próprios recordes – “nada nunca fica mais fácil”, disse Swart. “Você se machuca da mesma forma”. Porém, segundo ele, “saber aceitar isso permite que as pessoas aprimorem seu desempenho”.

Um truque é experimentar o percurso antes de correr. Em um estudo, Swart disse para ciclistas pedalarem com o máximo de esforço durante um percurso de 40 quilômetros. Quanto mais o percurso se tornava familiar a eles, mais rápido eles rodavam, embora eles achassem que estavam colocando seu esforço máximo em cada tentativa.

Em seguida, Swart e seus colegas pediram que os ciclistas realizassem o percurso com esforço completo, mas não informaram a distância que eles haviam percorrido ou quanto ainda faltava percorrer. Subconscientemente, os ciclistas não deram tudo de si nessa tentativa, mantendo alguma energia em reserva.

É por isso que os corredores de elite examinam um percurso, correndo por ele antes do evento. É por isso que Lance Armstrong treinou para o estágio de l’Alpe d’Huez do Tour de France subindo e descendo a montanha, diversas vezes seguidas.

“Você aprende a medir seu ritmo com exatidão”, disse Swart. Outro truque de desempenho durante competições é a associação, o ato de se concentrar intensamente no próprio ato de correr ou pedalar, ou o esporte que seja, explicou John S. Raglin, psicólogo de esportes da Universidade de Indiana.

Em estudos com corredores universitários, ele descobriu que os atletas com piores desempenhos tendiam a dissociar, a pensar em algo que não fosse a corrida para se distraírem.

“Algumas vezes, a dissociação permite que os atletas acelerem, pois eles não estão dando atenção à dor e ao esforço”, disse ele. “Mas o que frequentemente acontece é que eles atingem um tipo de muro fisiológico que os força a desacelerar, então eles acabam competindo de forma ineficiente, num ritmo oscilante”. Mas a associação é difícil, afirmou Raglin, e provavelmente é por isso que a maioria não tenta.

Swart diz enxergar isso também no ciclismo. “Nossa hipótese é que os atletas de elite são capazes de motivar a si mesmos continuamente, e conseguem discernir a divisão entre forçar demais – e não finalizar a prova – e ter um desempenho ruim”, disse Swart.

Para buscar essa motivação, os atletas precisam resistir à sensação de que estão cansados demais e precisam reduzir o ritmo, acrescentou ele. Em vez disso, eles precisam se concentrar em elevar a intensidade de seu esforço. Isso, segundo Swart, requer “força mental”, mas “permite que eles cheguem muito perto de sua habilidade máxima”.

Swart disse que ele mesmo fazia isso, mas que era preciso experiência e prática para acertar. Havia muitas corridas, segundo ele, em que “eu me forçava além de minhas habilidades e tinha de parar, porque ficava completamente exausto”. Finalmente, com mais experiência, em 2002 Swart se tornou campeão de mountain bike cross-country.

Algumas pessoas focam entrando num estado similar ao transe, bloqueando quaisquer distrações.
Outras, como Swart, possuem um método diferente: ele sabe do que é capaz e quais competidores consegue vencer, e os mantém em vista, não se permitindo ficar para trás.

“Eu simplesmente odeio perder”, afirmou Swart. “Eu dizia a mim mesmo que eu era o melhor, e então tinha que prová-lo”.

Kim Smith usa uma estratégia similar. “Não gosto de deixar as outras mulheres ficarem muito à minha frente”, disse ela numa entrevista por telefone. “Basicamente, eu tento focar com muita força na pessoa à minha frente”.

E embora ela relacione seu sucesso a ter “algum tipo de talento para a corrida”, Smith acrescentou que havia “muitas pessoas por aí que provavelmente possuem o mesmo talento. É preciso ter o talento, mas também a habilidade de empurrar a si mesmo através da dor”. E sim, ela realmente fica cheia de saliva sobre o rosto.

“Não é um esporte bonito”, disse ela. “Na chegada você não está com a melhor das aparências”. Quanto à corrida em que participou com meu filho, ela disse: “Me desculpe se cuspi em Stefan” (ela não cuspiu, segundo Stefan.)

*Por Gina Kolata

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