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Ela pode se manifestar em qualquer idade. Dieta restrita não é a única solução

É possível pensar em um cardápio saboroso sem leite? Para algumas pessoas, retirar o chocolate, o queijo e os demais derivados da alimentação não só é viável, como necessário.

A intolerância à lactose, segundo especialistas, é comum e um tanto imprevisível. Restringir a alimentação é uma das alternativas para conviver com a disfunção, mas não a única.

Leite e seus derivados não precisam ser banidos do cardápio de quem deixou de produzir lactase
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Leite e seus derivados não precisam ser banidos do cardápio de quem deixou de produzir lactase
Segundo Hélio Schainberg, alergista e imunologista do Hospital Albert Einstein de São Paulo, a intolerância ocorre quando o organismo deixa de produzir uma enzima chamada lactase, responsável por quebrar a molécula dupla de açúcar, formada pela glicose e galactose, no leite. Quando esse processo não ocorre, o açúcar cai diretamente no estômago e solicita a entrada de água no intestino, provocando os sintomas tradicionais da reação: cólica e diarreia.

Eliminar o leite e todos os seus derivados é a solução imediata e mais barata, mas não a única. Para contornar a ausência da enzima natural, Schainberg conta que prescreve a lactase via oral, que deve ser ingerida sempre antes da alimentação que contenha leite.

“A dosagem varia de acordo com o nível de intolerância. Faço testes com meus pacientes, vou aumentando a dose quando necessário, até achar a recomendação ideal.”

O médico comenta que nos Eestados Unidos esse medicamento é bem comum e pode ser facilmente encontrado em drogarias. No Brasil, ainda é preciso encontrar uma farmácia de manipulação que o fabrique. Segundo pesquisa feita pelo Delas  em algumas farmácias de manipulação em São Paulo, 60 cápsulas de 150 mg do remédio custam, em média, 40 reais.

Os motivos para o organismo subitamente deixar de produzir a enzima são múltiplos e imprevisíveis. O imunologista revela que tal rejeição pode ocorrer tanto na infância como na fase adulta, provocada por motivação genética ou problemas gástricos.“Não desenvolvemos essa intolerância. Não há na literatura médica nada que anteveja o problema, não sabemos quando ou se ele pode ocorrer. Em certo momento da vida, o organismo pode parar de produzir a lactase. Tal rejeição por ser conseqüência de um problema gástrico ou genético.”

A intolerância ao leite, porém, revela o imunologista, só ganha contornos maiores em função da demora do diagnóstico. Os dois sintomas tradicionais (diarreia e cólica) são autoexplicativos para quem já sabe que tem a disfunção. Entretanto, quando a doença ainda não é conhecida, a diarreia freqüente pode gerar desidratação e carência vitamínicas.

Leite na bula

Quem tem intolerância à lactose deve criar o hábito de ler a bula dos medicamentos. Hélio Schainberg alerta que muitos remédios de uso comum, livres de prescrição, têm na composição a presença de lactose, usada para complementação de volume do comprimido.

“É preciso estar atento, ler a bula. Um simples remédio para dor de cabeça, gripe, pode ser composto de lactose” alerta.

Nesses casos, a dieta restrita nem sempre será eficaz para evitar as cólicas e a diarreia. Uma forma de blindar o organismo é fazer o uso da enzima oral. “Eu procuro receitar a lactase em comprimido para proteger e não restringir a alimentação dos pacientes. Não tem contra-indicação, mas o tratamento é opcional.”

Cuidados com a soja

Em recém-nascidos a intolerância ao leite pode ser transitória. Por ter um trato gastro-intestinal ainda imaturo, os bebes não conseguem produzir a quantidade correta de lactase para a quebra do açúcar. Esse processo, revela o imunologista do Hospital Albert Einstein, é reversível. “É preciso esperar que o organismo amadureça e aprenda a produzir corretamente.”

Nessa fase, a recomendação do médico é retirar o leite da alimentação da criança e evitar o consumo de leite de soja, principalmente em meninos. Schainberg acredita que a presença de estrógeno fitoterápico – hormônio feminino – na soja possa provocar a inibição das glândulas masculinas.

“A soja tem sido usada por muitas mulheres como reposição hormonal estrogênica. Tenho meus receios. O consumo excessivo pode trazer malefícios. Não sabemos qual a quantidade desse hormônio fitoterápico na soja. Recomendo cuidados, acho sempre bom evitar."

Alergia X intolerância

A alergia ao leite é uma reação exagerada de hipersensibilidade, bem mais incomum. A reação pode se manifestar na pele, nas vias respiratórias ou provocar cólicas e diarreia. Não há causas definidas, tampouco motivos delimitados pela medicina.

“Todo mundo tem sua alergia. É da natureza humana reagir contra químicos, inclusive nocivos. Maior parte das pessoas se adapta bem à agressão natural que sofre o tempo todo. Algumas não", explica Hélio Schainberg.

Segundo o médico, a reação pode ocorrer em função de três proteínas presentes no alimento: alfa 1 lactoglobulina, beta 2 lactoalbumina e caseína. O paciente pode ter reação às três, a duas ou somente a uma delas. "O diagnóstico é complicado, exige paciência, história clínica e análise profunda."

No Brasil, as medicações preventivas ainda não são comercializadas, mas no mercado americano existem remédios que podem diminuir a intensidade do problema. “Não há trabalhos ainda que faça a alergia regredir ou curar. Em crises graves, fazemos o uso de cortisona para cortar os efeitos dos traumas provocados, mas neste caso o único tratamento é a retirada do alimento.”

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