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Encontro em Londres reuniu pesquisadores pró e contra a prática de correr sem tênis

Descalços: Anna Toombs e o parceiro David Robinson correndo em Londres
Reuters
Descalços: Anna Toombs e o parceiro David Robinson correndo em Londres
Apesar do frio e de muitos outros perigos potenciais, a britânica Anna Toombs, 35 anos, gosta de correr nua do tornozelo para baixo.

A co-fundadora da empresa de treinamento pessoal Barefoot Running, do Reino Unido, diz que já perdeu a conta de quantas vezes escutou as pessoas lhe dizendo “onde estão seus sapatos?” enquanto ela e o parceiro David Robinson correm por parques e calçadas de Londres para saciar a sua paixão e treinar seus clientes.

“As pessoas olham estranho para você” conta Robinson. O casal também está recebendo um monte de perguntas.

Uma crescente onda de interesse em “correr ao natural”, ou com os pés descalços, está fazendo corredores abandonarem os tênis caros e tecnológicos para abraçar a sensação de correr sentindo o solo diretamente sob os pés. Até cientistas top – de médicos do esporte a biólogos evolucionários – estão entre os entusiastas da prática.

Leia: Eles correm descalços

Em uma recente conferência de ciência do esporte, em Londres, centenas de participantes, alguns ousadamente descalços, se reuniram para um debate de duas horas de duração sobre os benefícios e prejuízos de correr sem os tênis.

“É um debate muito polarizado”, diz Ross Tucker, treinador de corridas de média e longa distância e especialista em fisiologia do exercício da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul.

Nascido para correr?

A tendência atual do “barefooting”, como é conhecida a prática, tem suas raízes no livro Nascido para correr, de Christopher McDougall. Nela, ele de sua experiência com a tribo indígena Tarahumara, do México, cujos membros podem executar enormes distâncias descalços, às vezes muito rápido, aparentemente sem sofrer os ferimentos que afligem corredores no resto do mundo.

Saiba mais sobre o livro de McDougall na coluna Corrida

O debate gira em torno de uma questão: será que correr com os tênis e suas estruturas de proteção não muda dramaticamente a forma como as pessoas se movem a ponto de deixá-las mais suscetíveis a lesões?

Entusiastas do barefooting dizem que a forma natural incentiva o corredor a tocar a terra primeiro com a parte mais acolchoada e elástica do pé, a parte da frente, em vez de tocar o solo com o calcanhar como muitos corredores calçados fazer.

Em um estudo publicado na revista científica Nature, no ano passado, Daniel Lieberman, professor de biologia evolutiva na Universidade de Harvard, procurou descobrir como os nossos antepassados, que correram e caçaram por milhões de anos com os pés descalços ou usando apenas uma espécie de mocassim bem rudimentar, lidaram com o impacto do pé batendo no chão.

Lieberman e seus colegas da Grã-Bretanha e Quênia estudaram corredores que sempre corriam descalço, corredores que sempre usaram calçados e corredores que tinham abandonado os sapatos.

Eles descobriram que os corredores de resistência que corriam descalços, muitas vezes tocavam o solo com a frente do pé, antes de derrubar o calcanhar, enquanto os corredores calçados acabavam exigindo mais dos calcanhares elevados e protegidos pelos tênis.

Impacto

Em uma série de análises, eles descobriram que, mesmo em superfícies duras, os corredores descalços geravam menos impacto na parte traseira do pé e usavam os músculos da panturrilha e do pé de forma mais eficiente.

Lieberman, que falou na conferência de Londres depois de ter corrido descalço pelas margens do rio Tamisa, faz questão de ressaltar que as evidências científicas sobre se correr de pés descalços é melhor para reduzir lesões ainda são muito incertas.

“Muita discussão está sendo feita a base de paixão, anedotas, emoções ou ganhos financeiros – mas uma coisa é verdade: não há dados consistentes que digam se é melhor ou pior para você correr descalço”, disse ele.

O professor de biologia Daniel Howell, que leciona anatomia humana e fisiologia na Liberty University, nos Estados Unidos, é conhecido por seus alunos como o professor “Pés Descalços”. Ele ganhou o apelido depois que começou a viver 95% de seu tempo sem sapatos.

Howell passou quase todos os últimos seis anos com os pés descalços, ele já correu milhares de milhas em todas as temperaturas terrenos sem calçados – itens aos quais ele se refere usando o termo “dispositivos”.

“Barefoot é a condição natural. É a maneira mais natural de ser. Caminhar e correr são extremamente complicados do ponto de vista biomecânico. Se você adiciona um dispositivo ao pé, vai alterar isso. E essas mudanças não são naturais”, defende Howell.

Sapatos ou dispositivos?

Embora seja verdade que quase todos os atletas modernos usam tênis de corrida em competições desportivas internacionais, alguns corredores descalços têm sido pioneiros da causa. Em 1960, Abebe Bikila, da Etiópia, um dos maiores corredores de maratona olímpica do mundo, venceu a primeira de suas medalhas de ouro consecutivas sem sapatos, cobrindo os 42km em 2 horas, 15 minutos e 17 segundos. E em 1984, a corredora sul-africano Zola Budd estabeleceu um recorde mundial de pista quando correu descalça 5 mil metros em 15 minutos e 1,83 segundos.

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Simon Bartold, um consultor internacional de pesquisas para a marca esportiva Asics, diz que a maioria dos atletas, amadores ou não, deve seguir usando tênis para correr.

“Eu sou fortemente a favor do uso de calçados, pois eles oferecem proteção e algumas vantagens de desempenho sobre os pés descalços”, diz Bartold.

Ainda assim, Asics e outras grandes marcas, como Nike, New Balance e Saucony não veem razão para ignorar esse novo e potencialmente lucrativo filão do esporte só porque ele prega a corrida sem o tênis. A tendência “natural” ou “minimalista” abriu um novo mercado potencial em tênis para o barefooting, que prometem ser a coisa mais próxima a correr calçando nada.

* Por Kate Kelland

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