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Alguns corredores abandonam os tênis em busca da cura de suas lesões, outros por puro prazer

Leonardo Liporati, na Maratona de Curitiba, uma das três que completou descalço
Rodrigo Stulzer/Tranpirando.com
Leonardo Liporati, na Maratona de Curitiba, uma das três que completou descalço
No momento em que as grandes marcas esportivas investem em calçados cheios de tecnologia um grupo de corredores chama a atenção justamente por deixá-los de lado.

Sim, há quem corra descalço e veja muitas vantagens nisso. É o caso do analista de suporte técnico Leonardo Humberto Liporati, de 43 anos, de Belo Horizonte.

“Corro há oito anos. Nos dois primeiros usei tênis. Nesta época sentia muitas dores na face interna da tíbia e tive canelite”, conta.

Depois de tentar as soluções-padrão – como trocar de tênis, fazer alongamentos e fortalecer a musculatura anterior da perna – Leo percebeu que elas não tratavam da causa do problema, apenas aliviavam os sintomas.

“Pesquisando na Internet achei o site The Running Barefoot, do Ken Bob Saxton, o guru norte-americano da corrida descalça. Achei que fazia sentido. Experimentei e deu certo. Minha canelite sumiu de imediato. Desde então corro assim, descalço”.

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Ele diz que se o chão está muito quente ou o terreno é pedregoso a sensação de correr descalço é desagradável. “Mas na maioria das vezes, a prática é mais natural, mais leve, mais silenciosa do que com os tênis. Tem-se o feedback sensitivo do chão nas solas dos pés. Sente-se o vento por entre os dedos. É uma experiência libertadora”, relata Leo, que já completou três maratonas descalço.

Felicidade infantil

Outro que viu as dores irem embora ao descalçar os tênis foi o designer gráfico Sérgio Rocha, de 39 anos, de São Paulo. Corredor há 12 anos, ele teve uma lesão – síndrome do piriforme (irritação ou compressão do nervo ciático) – em 2009, durante o treinamento para a Maratona de Punta del Este. Sua transição, no entanto, foi gradual.

“Corri a prova lesionado e quando voltei fiquei de molho por 30 dias. Retomei a corrida após esse período, mas a dor persistia. Pensei: tenho dois pares de Nike Free antigos (tênis bem leves), se eles simulam a corrida descalça, vão mudar minha mecânica de movimento e posso não sentir a dor. Dito e feito”.

Entusiasmado, decidiu então investir em um modelo ainda mais parecido com o correr descalço – comprou o Vibram Five Fingers, uma espécie de “luva para os pés” .

“De seis meses para cá fui me interessando cada vez mais por correr descalço e tive que adaptar apenas a pele dos pés, já que a musculatura estava ok. É uma experiência muito legal, libertadora e divertida, já que as referências que tenho de correr descalço vêm da minha infância. Digo que correr descalço vicia porque quanto mais você corre sem tênis, mais quer correr. Hoje me considero totalmente adaptado: completei a Meia Maratona de São Paulo sem tênis em 1h54m”, diz Sérgio.

A professora Cátia Caldeira, entre os amigos Leonardo e Arnoldo, diz que correr descalço é um estilo de vida
Arquivo pessoal
A professora Cátia Caldeira, entre os amigos Leonardo e Arnoldo, diz que correr descalço é um estilo de vida
A professora Cátia Caldeira, de 43 anos, de Belo Horizonte, no esporte há mais de duas décadas, corre descalça há dois anos e também traz referências da infância para explicar a predileção.

“No início foi por curiosidade, depois por prazer. Correr sem tênis remete à liberdade. Traz também satisfação em função da superação dos obstáculos, que não são poucos: asfalto quente ou desgastado, caco de vidro, buracos, pedras no caminho, preconceitos. Acredito que correr descalço vá além do tirar o tênis, é algo que se incorpora à sua vida como uma filosofia, tange as margens do estoicismo”, conta entusiasmada.

Ela, que já participou da Volta Internacional da Pampulha (18K), da Meia Maratona da Linha Verde e até subiu ao pódio descalça, conta que a reação das pessoas ao vê-la sem tênis é de espanto, admiração e por vezes zombaria.

“Mas o preconceito está diminuindo. Tem muita gente correndo descalço agora”.

É preciso se adaptar

Os corredores descalços, no entanto, alertam para a necessidade de um período de adaptação ao trocar o tênis pelo pé no chão. “Alguns músculos que estão adormecidos, quando novamente requisitados podem causar desconforto. Também é necessário acostumar as solas ao atrito com o chão”, explica Cátia.

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Leo Liporati aconselha começar com pequenas distâncias e aumentá-las gradativamente. “De preferência não intercale com treinos com os tênis, mas recomece do zero. É como se você fosse um bebê e estivesse (re)aprendendo a andar. Uma criança leva meses para aprender a andar e depois correr. Procure também ficar descalço o máximo possível no dia a dia. Enfim, é preciso paciência”, completa o corredor.

“Para quem quer experimentar, aconselho buscar o máximo de informações para não se machucar no processo de adaptação, que é longo. Pode levar até seis meses”, finaliza Sérgio.

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