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Desidratação, hipoglicemia, hiponatremia, hipotermia são as ocorrências mais comuns em uma prova de longa distância

Alexei Caio, diabético, apresentou hiponatremia e procurou a equipe médica: fim de prova
Guilherme Lara Campos / Fotoarena
Alexei Caio, diabético, apresentou hiponatremia e procurou a equipe médica: fim de prova
São nas 12 horas ou nos 50 quilômetros iniciais que ocorrem as primeiras desistências em uma prova longa como a BR 135 , segundo o diretor da Ultramaratona BR135,Mário Lacerda.

E foi o que a reportagem constatou acompanhando os 217 quilômetros da competição. No final da tarde do primeiro dia, com cerca de 10 horas e quase 70 quilômetros de prova, na praça central da cidade de Andradas, aconteceu uma das primeiras baixas. O engenheiro Alexei Caio, de 36 anos, de São Paulo, diabético, apresentou sintomas de hiponatremia (fraqueza, náuseas, desorientação) e procurou a equipe médica. “Errei na ingestão de líquidos”, admitiu.

Mesmo abandonando a prova, Caio não perdeu o humor, brincando com a equipe na hora do atendimento. Tomou soro e foi liberado. Dias depois estava embarcando em uma expedição para uma escalada no Aconcágua.

Mais adiante, foi a vez do engenheiro Rodrigo Damasceno, de 27 anos, do Rio de Janeiro. “Tive que parar no quilômetro 90, com 24 horas de prova. A musculatura respondia bem, a hidratação estava perfeita, o descanso ocorreu dentro do previsto, mas os pés... Algo deu errado. Senti mal-estar, não estava conseguindo correr (ou andar) mais de dois quilômetros sem ficar exausto e achei melhor desistir. Não me arrependo. Fui até onde dava”, contou.

Nem o veterano Adão Miranda da Silva, que liderava a BR135 até Ouro Fino (MG), escapou . Teve de parar devido a uma forte desidratação. Foi preciso inclusive internação no hospital da cidade. O caso inusitado aconteceu com o atleta Mario Casilew: mordido por um cachorro, ele foi obrigado a procurar atendimento no posto médico da cidade mais próxima. Com o ferimento limpo e medicado, Casilew continuou sua jornada.

Mas as duas ambulâncias UTI e as duas equipes médicas à disposição dos corredores deram conta das ocorrências de maneira relativamente tranquila . “Apareceram casos de desidratação, hipoglicemia, hiponatremia, hipotermia e muitos atendimentos de bolhas nos pés. Damos suporte, fazendo reidratação, analgesia e, quando necessário, encaminhando para internação hospitalar”, revelou uma das médicas da equipe, Cecília Zanchetta Sperandio.

Alucinações e bolhas

Atleta se refresca com água para amenizar o calor e evitar problemas
Guilherme Lara Campos / Fotoarena
Atleta se refresca com água para amenizar o calor e evitar problemas
Uma prova que conta com temperaturas elevadíssimas durante o dia e a solidão da noite escura também leva a casos de visões e alucinações. Os corredores se divertem contando o que viram pelo caminho.

Um deles confundiu vagalumes com velas de uma procissão e insistia em seguir o cortejo. Outro jurou ter visto uma mulher nua correndo pelos campos, apenas com um sapato branco nos pés. Um duende ou uma outra entidade qualquer da mata assustou a corredora Maria Ritah Fernandes.

“Juro que eu vi. Estava sozinha e até voltei um pouco para ficar junto a outros corredores que vinham mais para trás”.

Os atletas que conseguiram lidar com as escoriações nos pés durante a prova, correram para pedir ajuda médica no final. As bolhas – inchadas e algumas até purulentas – eram limpas e cuidadosamente drenadas.

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