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Agência reguladora deve se pronunciar esta semana sobre mistura industrializada de álcool e cafeína

Energéticos: mistura de cafeína e álcool pôs em alerta autoridades de saúde nos EUA
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Energéticos: mistura de cafeína e álcool pôs em alerta autoridades de saúde nos EUA
Um ano depois que começou a rever se o consumo de drinques energéticos que combinam álcool com cafeína é seguro e legal, a Food and Drug Administration (FDA) – agência norte-americana responsável por regular alimentos e medicamentos – deve finalmente se pronunciar sobre o tema nesta quarta-feira (17/11).

A agência se negou a divulgar o que fará em relação aos drinques. Especialistas em segurança alimentar que já trabalharam para o órgão, no entanto, apostam em uma provável decisão: enviar avisos oficiais aos fabricantes de que as bebidas são inseguras para o consumo.

Com os recentes relatos de jovens que adoeceram ou morreram depois de ingerir as potentes misturas de álcool e cafeína, autoridades federais e estaduais daquele país vêm sendo pressionadas para regulamentar o tema. Alguns estados decidiram banir os drinques e esta semana o maior distribuidor de bebidas do estado de Nova York decidiu cessar a distribuição de bebidas alcoólicas com cafeína para as lojas que vendem álcool, conhecidas por lá como “liquor stores”. Enquanto isso, diversas autoridades estão criticando a FDA por ainda não ter se manifestado oficialmente sobre o tema.

“Para ser franco, não há desculpa para o atraso na aplicação de normas que claramente devem barrar este tipo de poção de bruxa", afirmou o senador eleito Richard Blumenthal, democrata de Connecticut, um dos que liderou a campanha contra as bebidas.

Uma das questões a ser avaliada pela agência é se a adição de cafeína em bebidas alcoólicas é “geralmente considerada como segura”, uma designação da própria agência, que exige evidência científica. Perguntada sobre o posicionamento da FDA, Beth Martino, porta-voz do órgão, limitou-se a afirmar que a revisão está em andamento.

“Estamos tendo um olhar cuidadoso e completo na ciência e na segurança desses produtos”, disse Martino.

Um funcionário da agência afirmou, em condição de anonimato, que o órgão ainda não sabe quais as conclusões da revisão científica sobre o tema.

Four Loko, o drinque alcoólico com cafeína líder de vendas no mercado norte-americano, tem sido acusado de diversas mortes nos últimos meses, período em que a marca se tornou disponível em praticamente todos os estados do país. Em agosto, uma jovem de 18 anos morreu na Flórida, depois de beber quatro Four Loko em combinação com pílulas para emagrecer. No mês seguinte, outra morte no mesmo estado: depois de beber várias latinhas do drinque ao longo de algumas horas um jovem de 20 anos começou a brincar com uma arma e morreu ao disparar acidentalmente contra si.

O drinque, com sabores de frutas como framboesa azul e lima-limão, tem um teor alcoólico de 12% e contém a mesma quantidade de cafeína de um copo de café. Embora existam poucas pesquisas sobre os efeitos da mistura de cafeína e álcool, alguns estudos já sugeriram que as pessoas ficam mais bêbadas e adotam mais condutas de risco quando ingerem alguma bebida alcoólica misturada a qualquer outra coisa do que quando tomam a bebida sozinha. A cafeína mascara os efeitos do álcool, dizem os médicos, levando os usuários a crerem que podem seguir bebendo mesmo depois de passar do ponto de embriaguez.

A Phusion Projects, fabricante da Four Loko, afirma que tomar uma bebida com álcool e cafeína misturada antes do consumo não é diferente de beber algumas taças de vinho durante o jantar e, ao final, pedir um café expresso. A médica Mary Claire O’Brien, professora de medicina de emergência da faculdade de Wake Forest, discorda. Ela alertou a FDA no ano passado de que a combinação pode ser perigosa. Segundo O’Brien, a ingestão das duas substâncias ao mesmo tempo pode ter um efeito muito mais potente do que beber cada uma delas sozinha.

“Há uma interação particular que se passa no cérebro quando as duas substâncias são consumidas simultaneamente. A adição de cafeína prejudica a habilidade do bebedor de dizer quando está bêbado. Qual é o nível em que isso se torna perigoso? Nós não sabemos. E até que possamos descobrir, a resposta é que nenhum nível é seguro”, afirmou a especialista.

Pressionada para tomar alguma decisão, a agência deve enviar os avisos oficiais – o que daria aos fabricantes tempo para reformular seus drinques ou para retirá-los do mercado – ou, numa decisão mais agressiva, obrigar os fabricantes a pararem de vendê-las.

Nenhum dos dois cenários é bom para a Phusion Projects, uma pequena empresa de Chicago, cujas vendas são alavancadas praticamente pelo Four Loko, uma das três bebidas que a companhia fabrica. Fundada em 2005 por três colegas de faculdade recém-formados, a empresa cresceu rapidamente baseada em uma campanha focada em universitários, que incluía pagar alguns deles para darem festas regadas ao drinque com café. Hoje a companhia já soma 90 funcionários e tem um faturamento anual de 140 milhões de dólares em vendas.

A popularidade dos drinques com cafeína pegou médicos, pais, autoridades de saúde pública e legisladores federais de surpresa. Habituados a combater o abuso de álcool entre a população jovem, autoridades estão lutando com uma ameaça menos conhecida, a combinação de grandes quantidades de álcool com cafeína.

Em um caso ocorrido em setembro, um jovem de 19 anos deu entrada no Hospital da Universidade de Temple, na Philadelphia, reclamando de dores fortes no peito e falta de ar. Os médicos diagnosticaram o caso como ataque cardíaco, mas o exame habitual não conseguiu apontar a causa. O rapaz contou aos médicos que havia passado a noite bebendo Four Loko. Robert McNamara, chefe do departamento de medicina de emergência do hospital, concluiu que a causa mais provável do ataque cardíaco foi o drinque. “Já vi isso acontecer com cocaína e com estimulantes, mas nunca com bebidas alcoólicas”, afirmou o médico.

“Nosso conselho quando ele deixou o hospital foi: nunca mais tome essa bebida.”

Donald Misch, diretor do centro de saúde Wardenburg, da Universidade do Colorado, em Boulder, está preocupado com a comoção que o drinque está gerando.

“Tenho medo de que, quanto mais as pessoas falarem sobre isso, mais jovens ficarão inclinados a provar a bebida”, disse.

Daniel Ferguson, cuja sobrinha de 18 anos morreu de parada cardíaca depois de combinar Four Loko e pílulas para emagrecer, acha o contrário. Para ele, quanto mais publicidade ganhar a bebida, melhor.

“Ninguém da nossa família com mais de 20 anos havia sequer ouvido falar do Four Loko”.

* Por Abby Goodnough e Dan Frosch

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